Em atenção a mais de quatrocentas pessoas que pararam até hoje neste Trevo do Talvez à procura de informações sobre Piet Mondrian, e cumprindo o prometido ao publicar o segundo post relacionado com ele, recolho mais um conjunto de anotações sobre artes plásticas que fazem parte do meu Diário.
Da forma que fiz no segundo post, quando juntei a Mondrian idéias sobre pintura da autoria de Kandinsky e Klee, que volto a citar, neste vou me permitir incluir algumas coisas de Auguste Rodin. Junto com os citados, o escultor francês está entre as pessoas que mais me ensinaram o pouco que sei sobre arte plástica, portanto, pessoas que contribuíram para ampliar minha capacidade de ver.
A propósito, a lição definitiva que aprendi nesta área do conhecimento me veio não de um pintor, mas de um filósofo, Ludwig Wittgenstein. Lição que resumi no seguinte haicai:
Olhar até ver sem pensar,
sem ânsia de definir:
tarde, tempestade, rosas…
A propósito, cito Paulo Klee: “Os quadros olham-nos”.
Seguem às anotações prometidas.
De Piet Mondrian
Uma maior consciência da expressão das formas naturais produz meios mais puros de expressão.
Na natureza, o aspecto externo das coisas é tão expressivo, tão viviente, que tendemos a sentir apenas a harmonia e ignorar o ritmo. Se a arte há de darnos a sensação de realidade não pode sentir o aspecto dela. A arte deve acentuar o ritmo, mas de tal modo que este se confunda com a unidade.
Como conseqüência de se acentuar o ritmo e de se reduzir a forma e as cores naturais, o tema perde sua importância na arte plástica.
O ritmo mais claro produz o equilíbrio mais claro.
Na arte, como na vida, é a equivalência, e não a igualdade de fatores opostos que cria a unidade.
A vida destrói o falso.
Em arte plástica, os fatores opostos se aniquilam uns aos outros de tal maneira que não há opressão: o resultado é a unidade.
O único problema da arte é alcançar um equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo.
Toda vez que se acentua na obra de arte, a expressão individual domina.
A arte tem demonstrado que a expressão universal só pode ser criada por uma verdadeira equação do universal e do individual.
A arte é feita para ninguém e é, ao mesmo tempo, para todos.
A complexidade da arte deve-se ao fato de que simultaneamente estão presentes distintos graus de evolução.
Para que uma expressão artística pura desperte emoção há que abster-se da figuração e ser “neutra”.
A intenção de liberar a vida de suas convenções e de tudo que é prejudicial para a verdadeira vida, pode encontrar-se na literatura surrealista.
De que serve um tema? Deve entender-se que é preciso um tema para expor algo chamado “Riquezas espirituais, sentimentos e pensamentos humanos”. Sem dúvida, tudo isto é individual e precisa de formas particulares. Mas no fundo destes sentimentos e pensamentos existe um pensamento e um sentimento: estes não se definem facilmente e não têm necessidade de formar análogas para expressar-se. Eis aqui a necessidade de meios plásticos neutros.
Para a arte pura, então, o tema nunca pode ser um valor adicional; são a linha, a cor e suas relações que devem por em jogo todo o registro sensorial e intelectual da vida interior… no tema.
É possível alterar mais ou menos o aspecto convencional das coisas, [Surrealismo] mas apesar de tudo isto continua mostrando seu caráter particular e desperta em nós emoções individuais. Amar as coisas na realidade é amá-las profundamente; é vê-las como um microcosmo num macrocosmo. Somente desta maneira podemos alcançar uma expressão universal da realidade. É precisamente por causa do seu profundo amor pelas coisas que a arte não-figurativa não busca reproduzi-las em seu aspecto particular.
Precisamente com sua existência, a arte não-figurativa demonstra que a “arte” segue sempre seu verdadeiro caminho. Revela que este não é a expressão do aspecto exterior da realidade tal como a vemos, nem da vida que vivemos, mas que é a expressão da verdadeira realidade e a verdadeira vida… indefinível, mas realizável na plástica.
A arte é só um problema de plástica.
Se a forma carece de conteúdo, de pensamento universal, é por culpa do artista. Repetimos que seu conteúdo não pode descrever-se, e que só pode fazer-se aparecer por meio da plástica pura e da execução da obra.
A execução e a técnica jogam um papel muito importante na tentativa de estabelecer a visão mais ou menos objetiva que exige a essência da obra não-figurativa.
Quanto menos óbvio for o trabalho do artista, mais objetiva será a obra.
A execução é sumamente importante na obra de arte; é através dela, em grande parte, que a intuição se manifesta e cria a essência da obra.
O que distingue o artista não-figurativo do figurativo é o fato de que em suas criações se libera de sentimentos individuais e particulares que recebe do exterior, e de que se dissocia do domínio da inclinação individual.
De Wassily Kandinsky
Só merece a expressão “bem desenhado’ aquele quadro no qual não se faz pode mudar nada sem destruir sua vida interior.
O artista tem, não apenas o direito, mas também o dever de manejar as formas da maneira que julgue necessário para alcançar seus fins. Esta liberdade ilimitada deve basear-se na necessidade interior, que se chama honestidade.
Na vida e, portanto, também na arte, o que conta é a pureza de propósito.
De Auguste Rodin

Auguste Rodin (1840-1917) "Ninguém pode fazer bem aos homens impunemente"
As anotações que se seguem foram extraídas de uma biografia ou de uma obra de autoria do próprio Rodin, não recordo. Infelizmente, não tenho como verificar isto no momento. Prometo fazê-lo oportunamente.
As mulheres são a inspiração e as rivais da arte. Devemos adorá-las e prescindir delas. O primeiro ocorre normalmente; o segundo, tem que ser aprendido.
Baudelaire acertou ao dizer que a sensibilidade sexual de um homem é a medida de seu gênio.
A modéstia e a castidade são as maiores irmãs da beleza.
É preciso também a dor para que o espírito expanda o pensamento.
O assunto não nos ilustra acerca da intenção do artista. É preciso buscá-la na execução. Observe um baixo relevo; mediante oposição de planos, o artista determinou as belas sombras das quais surge uma cabeça, o pescoço de uma ninfa, seus joelhos: tudo isso possui uma graça infinita, e é esta graça que importa compreender. Quanto a saber se essas figuras representam o verão, o outono, etc, isso é muito secundário.
A simplicidade é a condição primordial da felicidade e da beleza.
Admitamos como verdade, em primeiro lugar, que a natureza é bela, e, armados deste princípio, observemos: haveremos nos elevado quando tivermos descoberto a grandeza dos aspectos que nos chocavam. Mas, como todas as conquistas, esta exige um esforço do qual já não somos capazes.
Para estudar, é preciso avançar lentamente, é preciso desertar deste mundo de agitados e de antemão resignar-se a não fazer fortuna.
Precisamos de tempo para estudar.
Há bastante na moldura de nossas janelas para sustentar o entusiasmo.
Olha para teus amigos como Rembrandt via os seus: não havia senão obras primas vivas em volta desse grande homem. É que Rembrandt possuía a virtude do trabalho.
A felicidade acompanha, como o cavalo que corre, a inteligência que busca.
A paciência é a primeira condição de todo estado frutífero.
Está na natureza do homem adorar os efeitos do sol.
Sigo disposto como um bom operário; minha tarefa consiste em compreender e reúno com este propósito todas as minhas forças. Contemplo.
O mais difícil não é pensar com a primitiva ingenuidade da infância: é pensar com a tradição, com a força adquirida, com todos os resultados entesourados pelo pensamento. Pois, o espírito humano não pode ir mais longe sem a condição de que ao pensamento do indivíduo se junte, com silêncio e paciência, o pensamento das gerações.
Para estudar a natureza tome um campo limitado.
Em uma flor estão quase todas as flores. No mais curto passeio pelo campo, nós encontramos com toda a natureza; todos os caminhos na relva são caminhos do paraíso.
ATENÇÃO – Aqui estão os dois post anteriores.
Piet Mondrian: uma síntese de teorias fundamentais para quem quer aprender a ver
Teorias que ampliam e aprofundam a capacidade de ver: Mondrian, Kandinsky e Klee.