A respeito do Breviário do respeitável blogueiro xingado Reinaldo Azevedo

Não me ligo em coisas de igrejas, mas foi do emprego freqüente em uma delas, a Católica Apostólica Romana, que me veio um vocábulo que apliquei automaticamente ao novo livro do jornalista Reinaldo Azevedo: Breviário.

Não preciso de Freud para explicar que deve ter sido uma somatória do formado com o proclamado vínculo religioso do autor.

Relevante é o seguinte:

Ler e reler e reler e reler… Máxima de um país mínimo é quanto basta para deixar de ser petista.

O tratamento completo para lulismo requer outras ferramentas. Afinal, trata-se de um complexo mais complexo, pois inclui carisma.

Não se depreenda daí, porém, que petismo seja algo assim como uma dorzinha de cotovelo ou um simples resfriado.

De acordo com Reinaldo, o petismo é como uma contaminação radioativa: Deixa um resíduo tóxico de longuíssima duração e cria deformidades. Sobretudo morais e intelectuais.

Optei (Freud novamente dispensado) por escrever este post em razão do espaço de comentários no blog do Reinaldo ser limitado a 750 toques, se não me engano. Feito este esclarecimento, vamos de imediato à máxima que considero a obra-prima do Breviário:

Os meios qualificam o fim.

É o que chamo de óbvio significativo num livro em elaboração, escrevendo o seguinte:

É digno do adjetivo perspicaz aquele que primeiro se dá conta do óbvio significativo. Vem daí Thomas Huxley ter dito o que se segue, a propósito da descoberta do processo de evolução das espécies por Charles Darwin e Alfred Wallace: Que imensa estupidez não ter pensado nisso!

No meu livro, antecedo o fragmento acima destas duas observações:

1 – É do óbvio que a maioria precisa se conscientizar.

2 – O tolo imagina que estar preparado para o óbvio equivale a ser catedrático em mesmice.

Em seu Caderno de Tudo e Nada Macedônio Fernández defende a seguinte tese sobre genialidade:

“A única garantia de que um homem seja gênio é chegar a inventar um provérbio; o provérbio inventado individualmente é um vino viejo improvisado: a velhice do novo, muito difícil e extraordinariamente vantajosa.”

 No Breviário do Reinaldo Azevedo encontramos vários.

Escolho um deles – O homem comum é uma ficção da demagogia. – para poder contar uma historinha relacionada com o filósofo e escritor argentino amigo de Jorge Luis Borges.

No citado livro, Macedônio Fernández revela-se pouco modesto ao anteceder a exposição da tese sobre genialidade da citação do que denomina “quase provérbio meu”, escrevendo: Hombre en escalera no vale una pêra.

Certa vez, citei-o no idioma original em conversa com o proprietário de um bar localizado no Campo da Pólvora, em Salvador. Constrangido com minha malfadada tradução – Homem em fileira não vale uma pêra. – troquei o péssimo homem em fileira por homem comum.

Sem tempo para lastimar a perda da rima com pêra do original, recebi a ajuda inesperada e realmente genial do Waldir, que traduziu o “quase provérbio” assim:

O homem comum não vale uma jerimum.

Volto às anotações que fiz em meu Diário no decorrer da leitura do Breviário. Devo observar que em muitas delas, senão em sua maioria, dirijo-me diretamente ao autor, pois a idéia inicial, conforme foi dito acima, era apenas fazer um comentário no blog dele.

Feito este esclarecimento, vamos à quase transcrição das anotações.

Surpreso com a ausência de referência explícita à muito louvada por você inteligência do Lula, aproveito para lhe dizer que ao insistir em alguns comentários na tese de que você poderia se dispensar de louvar sistematicamente a inteligência dele eu, a rigor, apenas compartilhava deste imperativo ético proposto por você: Atrapalhar os petistas!

*

Receio que você tenha razão quando escreve o que se segue a respeito de instrumentos de percussão: Estou convicto de que a importância de uma civilização é inversamente proporcional à variedade de seus instrumentos de percussão.

Espero que o Carlinhos Brown, talvez em parceria com o sogro, faça a respeito alguma digressão.

*

Vou me permitir especular sobre a hipótese de um erro no primeiro texto do tema Justiça. Um erro de difícil correção, devido à metáfora à qual está relacionado.

De qualquer modo, entendo que poderia ser formulado assim:

A Justiça é cega para que possa enxergar com imparcialidade, não para fazer Justiça cega.

Ou assim:

A Justiça é cega para ser imparcial, não para fazer Justiça cega, parcial.

A sua máxima é esta:

A Justiça é cega para que possa enxergar, não para fazer justiça cega.

*

Entendo que você foi injusto com a modéstia, que entendo como a arte de curtir orgulho em silêncio, quando se tem mérito digno de glória. Entendida esta da forma que a entendia Montaigne: conseqüência de uma coisa útil, excepcional e difícil.

Escrever, como você o faz, que modéstia “é a vaidade que espera aclamação” é o que chamo de fazer frase.

*

A anotação que se segue ao que transcrevo abaixo, seu, é pura lucubração lúdica minha: Ópio do povo – Os marxistas acusaram a religião de ópio do povo. Raymond Aron deixou claro que foi o marxismo que deu ao homem a real ilusão da onipotência, tornando-o o ópio dos intelectuais. Deus é mais modesto do que Marx e aceita a imperfeições…

Fala-se tanto em ópio do povo para abafar o pio.

Ou, à maneira de RA:

As esquerdas esbravejam tanto contra o ópio do povo para que ninguém ouça o pio.

*

Preciso saber com urgência o que vem a ser oração subordinada. Talvez Reinaldo Azevedo até me despreze por essa falha em meu conhecimento. Afinal, ele (Ou teria sido Dona Reinalda?) não publicou um comentário meu a um post dele no qual eu defendia a seguinte tese: Aprende-se a escrever lendo; rigorosamente falando, com toda a gramática do mundo você não escreve bem nem um bilhete.

Por enquanto, vou ver se o Aurélio me ajuda.

*

Fui ver.

O exemplo de oração subordinada que se segue à definição – aquela da qual a principal depende – é este: Se soubesse que você se ofenderia, não teria falado.

Ignorante assumido de mil coisas da gramática, eu pergunto: Será que existe alguém que não as use?

E aproveito para consultá-lo sobre a correção deste esdrúxulo as use.

Para que se entenda essa minha lengalenga, eis o que escreve RA sobre o tema Orações subordinadas – Tenho desprezo intelectual por quem é incapaz de usar orações subordinadas.

*

Você escreve:

Os outros – O outros são sempre responsáveis pela nossa modéstia, especialmente quem é melhor do que nós.

Não seria, ao invés de modéstia, complexo de inferioridade.

*

A decadência ética e moral chegou ao ponto de se louvar quem descaradamente se autoproclama o menos pior.

Entenda esta minha anotação como mero desabafo, motivado por duas das suas quatro sobre o tema Petismo.

*

Outra razão, referida por você no Breviário, Reinaldo Azevedo, para esquecer que Lula não é burro. Eu escrevo aqui não é burro para não ter que escrever que ele é inteligente, conforme seria natural em você.

Questão de tempo – Não perca uma só chance de desmerecer o petismo. Acertar é uma questão de tempo.

*

Esta outra máxima me parece digna do adjetivo genial:

Sem-vergonhice – Governos ladrões ou provocam a repulsa popular ou vão deixando o próprio povo mais sem-vergonha. No Brasil, não se vê repulsa nenhuma…

*

Isto é perspicaz:

Verdade – Nada é tão eficiente para falsear uma verdade geral quanto uma verdade particular.

La Rochefoucald certamente aplaudiria.

*

A conclusão do Breviário é simplesmente brilhante!

O e-mail ressuscitou a Carta; ai de quem não sabe se expressar por escrito.

Tenho visto em meus passeios por este mundo virtual muita lucubração a respeito do generalizado modus de escrita aqui empregado, especialmente pelos mais jovens.

Tão disseminado ele se tornou que obrigou os responsáveis por exames de avaliação de desempenho escolar tipo Enem a proibir, se não estou enganado, o emprego na prova de redação formulações radicalmente sintéticas que integram aquilo que se denomina genericamente “linguagem de Internet”.

Razões para isso não faltam. Basta dizer que tem gente ganhando dinheiro oferecendo programa de “tradução” da referida linguagem para a norma padrão.

A propósito, uma das questões da prova do Enem que vazou pedia justamente uma análise dessa linguagem.

Em princípio, nada mais louvável do que o propósito de ser sintético que se sobressaia na linguagem de Internet ou em mensagens de texto por aparelho telefônico, onde a síntese é uma necessidade à qual se soma a conveniência da rapidez e da economia monetária.

Ocorre que a preferência por esse tipo de linguagem acaba por se revelar uma forma dissimulada de se dispensar do esforço que requer o domínio da eficiente e clara expressão escrita.

Suponho que poucos discordem de que a questão mais importante no caso não é propriamente abreviar, mas sintetizar.

Afinal, apenas com abreviação o que mais frequentemente se consegue é complicação onde a meta é simplificação.

Simplificação esta que, acrescida de sofisticação e dedicação, resulta em simplicidade, que é a meta do genuíno escritor, da genuína escritora.

Motivado por tudo isto e, principalmente, pelo fato de que o e-mail e o fax ressuscitaram a carta e o telegrama, decidi fazer aqui um resumo do relato de uma conversa entre Graciliano Ramos e Joel Silveira, de autoria deste, que se encontra no livro de memórias intitulado Na Fogueira, publicado pela Mauad Editora.

“A palavra foi feita para dizer”

- Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada.

Joel não entendeu, Graciliano explicou:

- Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal.

E prosseguiu:

- Naquela maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Sabe como elas fazem?

- Não.

- Elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam, e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.

- !

- Pois quem se mete a escrever deveria fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, bilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer.

Tristes Trópicos: um livro para quem quer conhecer o Brasil.

Dia 20 de agosto de 2008, publiquei aqui neste Trevo do Talvez um post cujo título, reproduzido adiante, resume o impacto que me causou, em 1985, o panorama desolador de uma região às margens da Estrada do Cerne, no Paraná.

Levi-Strauss

Lévi-Strauss: “Cultura designa enriquecimento esclarecido do juízo e da capacidade de distinção”.

Se Claude Lévi-Strauss

revisitasse os Tristes Trópicos

morreria de desgosto. *

Ainda habitada por grupos indígenas descendentes daqueles com os quais o etnólogo manteve contato, na década de 1930 a cobertura vegetal tornava a região digna do adjetivo exuberante.

São quase 16 horas de 3-11-2009; acabo de tomar conhecimento da morte dele, ocorrida no último sábado, 1, em Paris. Sei que estava prestes a completar 101 anos, pois encerro o referido post informando que em novembro ele completaria um século de vida.

Antes de tudo, motiva-me escrever este novo post minha profunda admiração por ele enquanto pessoa e por tudo que acrescentou ao patrimônio cultural da humanidade.

Outra razão é a oportunidade de agradecer ao cineasta paraibano Vladimir Carvalho que, informado por mim de que meu objetivo principal ao me mudar de Salvador para Brasília, em 1977, era conhecer o Brasil, me presenteou com a seguinte indicação bibliográfica:

- Para conhecer o Brasil comece lendo Casa Grande & Senzala, Os Sertões e Tristes Trópicos.

Transmito esta indicação especialmente às l.035 pessoas que até hoje acessaram o post deste Trevo do Talvez que tem por título a seguinte pergunta:

Você se considera uma pessoa culta?

* Sei que em algum momento da década de 1990 Lévi-Strauss esteve aqui no Brasil. Algumas das declarações dele a respeito de lugares que pôde rever superficialmente corroboraram a impressão que tive às margens da Estrada do Cerne e que registrei  como se fosse um haicai.

Porque estive lendo sobre polinização em A ilha de Darwin e porque é Primavera no Brasil

Margarida 1

A foto é de Miriam Faleiros e foi “tirada” na região da estrada do Sol – Cambará do Sul – RS, conforme ela própria informa neste endereço: flickr.com/photos/22917602@N02/2343096831

Peguei sem autorização, mas tenho a impressão de que não causará nenhum tipo de desgosto a ela, especialmente de natureza financeira.

A galeria dela tem dezenas de fotos lindas.

A visita é gratuita.

O haicai eu escrevi há mais de uma década,

na Praça Santos Dumont, em Curitiba.

 

 O livro citado no título é de Steve Jones / Editora Redord 2009

Recomendo especialmente aos criacionistas.

Sua vida é uma Rosa azul

O título deste post faz parte da abertura de um livro que me ocupa de modo intermitente há quase 30 anos e que se encontra em fase final de elaboração. A decisão de escrevê-lo está relacionada com a apresentação, nesta segunda-feira, 19, em Tóquio, da primeira Rosa azul.

Os criadores da Rosa informaram que em sete dias ela teria tons azulados e que 100% dos pigmentos de suas pétalas são azuis. Foto Celia López/Efe

Os criadores da Rosa informaram que em sete dias ela teria tons azulados e que 100% dos pigmentos de suas pétalas são azuis. Foto Celia López/Efe

Juntamente com milhares de pessoas em todo o planeta, aguardo-a desde 1991, quando foi noticiado o domínio do processo que resultou no cultivo dessa espécie de flor tão bela na cor preferida do homo sapiens.

O fato tem para mim importância especial, que agora compartilho com todos que passam por este Trevo do Talvez, transcrevendo a abertura do meu livro e, na seqüência, um breve histórico sobre a criação da rosa azul, que se encontra ao final dele, seguido de um P. S. sobre a cor azul.

 Ao definir a relação entre arte e natureza,

dizendo que a arte se inventou

para preencher as lacunas da natureza,

Aristóteles antecipou em dois mil e trezentos anos

o insight de Oscar Wilde: ‘A vida imita a arte’

Sua vida é uma Rosa azul *

* Meta milenar de floricultores de todo o planeta, a Rosa azul tornou-se viável em 1991, graças ao trabalho de pesquisadores australianos, da Calgene Pacific, associados com empresários japoneses, da Suntory Limited, uma multinacional de bebidas.

Obtida por engenharia genética, seus criadores pretendiam denominá-la “O cálice sagrado da floricultura”, escolha que até um poetastro teria desaconselhado.

Prevaleceu o interesse comercial e ela foi denominada “Suntory Bleu Rose Applause”, denominação que me recuso a comentar e a traduzir.

O maior obstáculo à sua produção é que a Rosa não tem nenhum gene associado ao pigmento azul. Para conseguir a nova cor, os pesquisadores isolaram o gene que dá essa tonalidade à Petúnia e o transferiram para uma roseira.

Curiosamente, em 1838 o escritor Honoré de Balzac (1799-1850) proclamou haver descoberto uma forma de produzir a Rosa azul, pela qual as sociedades hortículas de Londres e da Bélgica haviam oferecido um prêmio de 500 mil francos.

Em resposta à escritora George Sand (1804-76), interessada em saber por que não se dedicava ao lucrativo empreendimento, o autor da Comédia Humana declarou: “Ah, porque tenho tanta coisa para fazer”.

P. S. A evidência mais antiga de vida na Terra são os estromatólitos, estruturas calcárias formadas por algas azuis há 2,8 bilhões de anos. Estudos recentes, realizados por pesquisadores dos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, recuaram a presença dos primeiros animais no planeta em mais de 100 milhões de anos: são as Esponjas, invertebrados muito simples, que parecem plantas. Foi constado que entre 635 milhões e 750 milhões de anos atrás eles já se agarravam ao leito marinho, em Omã, no sul da Arábia.

Sem licença, uma interferência na obra-prima de Washington Olivetto.

Sutia 1

Dei conhecimento do poema a Washington Olivetto, em comentário no blog dele, em junho deste ano, a propósito de folhear uma edição de O primeiro a gente nunca esquece / Planeta. O poema me veio à mente outra vez hoje ao ler o ensaio intitulado Tudo que a gente não esquece, que Otavio Frias Filho publicou na FSP em 8/1/1988 e que acabo de ler na coletânea Seleção natural, recém-lançada pela Publifolha.

Em defesa das espécies animais em extinção, propomos a criação do Dia do Dodô.

Indiferente à possibilidade de ser tachado de sentimental, na página 329 da edição brasileira de A grande história da evolução Na trilha dos nossos ancestrais (Companhia das Letras / 2009) o biólogo Richard Dawkins faz um minuto de silêncio em homenagem ao extinto pássaro Dodô.

Com esta respeitável e comovente atitude, Dawkins me motivou a propor neste Trevo do Talvez, sem receio de qualquer classificação, que se consagre um dia em todo o planeta à defesa das espécies animais em extinção e que ele seja denominado Dia do Dodô.

Véspera do Dia dos Mortos, 1° de Novembro talvez seja uma data apropriada para o Dia do Dodô.

Véspera do Dia dos Mortos, 1° de Novembro talvez seja uma data apropriada para o Dia do Dodô.

Raphus cucullatus é seu nome científico; o nome popular vem do português doudo – doido, estúpido.

Quando os navegantes portugueses chegaram à ilha Maurício [Oceano Índico] em 1507 – relata Dawkins – os abundantes Dodôs eram completamente mansos e se aproximavam dos marinheiros de um modo que não pode estar muito longe de “confiante”.

“Por que não confiariam, já que por milhares de anos os seus ancestrais não haviam encontrado predadores? Uma confiança deplorável. Os infelizes Dodôs foram mortos a pauladas pelos marinheiros portugueses, e mais tarde holandeses – apesar de serem considerados “intragáveis”. Presume-se que foi por “esporte”. A extinção não demorou nem dois séculos”.

Outra foto de paisagem para ilustrar a máxima de Rodin

Sem licença, peguei a foto em um blog aqui no Word Press; se não entendi mal, o autor ou autora da foto se chama Acacia Johnson.

Sem licença, peguei a foto em um blog aqui no Word Press; se não entendi mal, o autor ou autora da foto se chama Acacia Johnson.

Mais Mondrian e um pouco de Rodin para quem quer aprender a ver

Em atenção a mais de quatrocentas pessoas que pararam até hoje neste Trevo do Talvez à procura de informações sobre Piet Mondrian, e cumprindo o prometido ao publicar o segundo post relacionado com ele, recolho mais um conjunto de anotações sobre artes plásticas que fazem parte do meu Diário.

Da forma que fiz no segundo post, quando juntei a Mondrian idéias sobre pintura da autoria de Kandinsky e Klee, que volto a citar, neste vou me permitir incluir algumas coisas de Auguste Rodin. Junto com os citados, o escultor francês está entre as pessoas que mais me ensinaram o pouco que sei sobre arte plástica, portanto, pessoas que contribuíram para ampliar minha capacidade de ver.

A propósito, a lição definitiva que aprendi nesta área do conhecimento me veio não de um pintor, mas de um filósofo, Ludwig Wittgenstein. Lição que resumi no seguinte haicai:

Olhar até ver sem pensar,

sem ânsia de definir:

tarde, tempestade, rosas…

A propósito, cito Paulo Klee: “Os quadros olham-nos”.

Seguem às anotações prometidas.

De Piet Mondrian

Uma maior consciência da expressão das formas naturais produz meios mais puros de expressão.

Na natureza, o aspecto externo das coisas é tão expressivo, tão viviente, que tendemos a sentir apenas a harmonia e ignorar o ritmo. Se a arte há de darnos a sensação de realidade não pode sentir o aspecto dela. A arte deve acentuar o ritmo, mas de tal modo que este se confunda com a unidade.

Como conseqüência de se acentuar o ritmo e de se reduzir a forma e as cores naturais, o tema perde sua importância na arte plástica.

O ritmo mais claro produz o equilíbrio mais claro.

Na arte, como na vida, é a equivalência, e não a igualdade de fatores opostos que cria a unidade.

A vida destrói o falso.

Em arte plástica, os fatores opostos se aniquilam uns aos outros de tal maneira que não há opressão: o resultado é a unidade.

O único problema da arte é alcançar um equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo.

Toda vez que se acentua na obra de arte, a expressão individual domina.

A arte tem demonstrado que a expressão universal só pode ser criada por uma verdadeira equação do universal e do individual.

A arte é feita para ninguém e é, ao mesmo tempo, para todos.

A complexidade da arte deve-se ao fato de que simultaneamente estão presentes distintos graus de evolução.

Para que uma expressão artística pura desperte emoção há que abster-se da figuração e ser “neutra”.

A intenção de liberar a vida de suas convenções e de tudo que é prejudicial para a verdadeira vida, pode encontrar-se na literatura surrealista.

De que serve um tema? Deve entender-se que é preciso um tema para expor algo chamado “Riquezas espirituais, sentimentos e pensamentos humanos”. Sem dúvida, tudo isto é individual e precisa de formas particulares. Mas no fundo destes sentimentos e pensamentos existe um pensamento e um sentimento: estes não se definem facilmente e não têm necessidade de formar análogas para expressar-se. Eis aqui a necessidade de meios plásticos neutros.

Para a arte pura, então, o tema nunca pode ser um valor adicional; são a linha, a cor e suas relações que devem por em jogo todo o registro sensorial e intelectual da vida interior… no tema.

É possível alterar mais ou menos o aspecto convencional das coisas, [Surrealismo] mas apesar de tudo isto continua mostrando seu caráter particular e desperta em nós emoções individuais. Amar as coisas na realidade é amá-las profundamente; é vê-las como um microcosmo num macrocosmo. Somente desta maneira podemos alcançar uma expressão universal da realidade. É precisamente por causa do seu profundo amor pelas coisas que a arte não-figurativa não busca reproduzi-las em seu aspecto particular.

Precisamente com sua existência, a arte não-figurativa demonstra que a “arte” segue sempre seu verdadeiro caminho. Revela que este não é a expressão do aspecto exterior da realidade tal como a vemos, nem da vida que vivemos, mas que é a expressão da verdadeira realidade e a verdadeira vida… indefinível, mas realizável na plástica.

A arte é só um problema de plástica.

Se a forma carece de conteúdo, de pensamento universal, é por culpa do artista. Repetimos que seu conteúdo não pode descrever-se, e que só pode fazer-se aparecer por meio da plástica pura e da execução da obra.

A execução e a técnica jogam um papel muito importante na tentativa de estabelecer a visão mais ou menos objetiva que exige a essência da obra não-figurativa.

Quanto menos óbvio for o trabalho do artista, mais objetiva será a obra.

A execução é sumamente importante na obra de arte; é através dela, em grande parte, que a intuição se manifesta e cria a essência da obra.

O que distingue o artista não-figurativo do figurativo é o fato de que em suas criações se libera de sentimentos individuais e particulares que recebe do exterior, e de que se dissocia do domínio da inclinação individual.

De Wassily Kandinsky

Só merece a expressão “bem desenhado’ aquele quadro no qual não se faz pode mudar nada sem destruir sua vida interior.

O artista tem, não apenas o direito, mas também o dever de manejar as formas da maneira que julgue necessário para alcançar seus fins. Esta liberdade ilimitada deve basear-se na necessidade interior, que se chama honestidade.

Na vida e, portanto, também na arte, o que conta é a pureza de propósito.

De Auguste Rodin

Auguste Rodin (1840-1917) "Ninguém pode fazer bem aos homens impunemente"

Auguste Rodin (1840-1917) "Ninguém pode fazer bem aos homens impunemente"

As anotações que se seguem foram extraídas de uma biografia ou de uma obra de autoria do próprio Rodin, não recordo. Infelizmente, não tenho como verificar isto no momento. Prometo fazê-lo oportunamente.

As mulheres são a inspiração e as rivais da arte. Devemos adorá-las e prescindir delas. O primeiro ocorre normalmente; o segundo, tem que ser aprendido.

Baudelaire acertou ao dizer que a sensibilidade sexual de um homem é a medida de seu gênio.

A modéstia e a castidade são as maiores irmãs da beleza.

É preciso também a dor para que o espírito expanda o pensamento.

O assunto não nos ilustra acerca da intenção do artista. É preciso buscá-la na execução. Observe um baixo relevo; mediante oposição de planos, o artista determinou as belas sombras das quais surge uma cabeça, o pescoço de uma ninfa, seus joelhos: tudo isso possui uma graça infinita, e é esta graça que importa compreender. Quanto a saber se essas figuras representam o verão, o outono, etc, isso é muito secundário.

A simplicidade é a condição primordial da felicidade e da beleza.

Admitamos como verdade, em primeiro lugar, que a natureza é bela, e, armados deste princípio, observemos: haveremos nos elevado quando tivermos descoberto a grandeza dos aspectos que nos chocavam. Mas, como todas as conquistas, esta exige um esforço do qual já não somos capazes.

Para estudar, é preciso avançar lentamente, é preciso desertar deste mundo de agitados e de antemão resignar-se a não fazer fortuna.

Precisamos de tempo para estudar.

Há bastante na moldura de nossas janelas para sustentar o entusiasmo.

Olha para teus amigos como Rembrandt via os seus: não havia senão obras primas vivas em volta desse grande homem. É que Rembrandt possuía a virtude do trabalho.

A felicidade acompanha, como o cavalo que corre, a inteligência que busca.

A paciência é a primeira condição de todo estado frutífero.

Está na natureza do homem adorar os efeitos do sol.

Sigo disposto como um bom operário; minha tarefa consiste em compreender e reúno com este propósito todas as minhas forças. Contemplo.

O mais difícil não é pensar com a primitiva ingenuidade da infância: é pensar com a tradição, com a força adquirida, com todos os resultados entesourados pelo pensamento. Pois, o espírito humano não pode ir mais longe sem a condição de que ao pensamento do indivíduo se junte, com silêncio e paciência, o pensamento das gerações.

Para estudar a natureza tome um campo limitado.

Em uma flor estão quase todas as flores. No mais curto passeio pelo campo, nós encontramos com toda a natureza; todos os caminhos na relva são caminhos do paraíso.

ATENÇÃO – Aqui estão os dois post anteriores.

 Piet Mondrian: uma síntese de teorias fundamentais para quem quer aprender a ver

 Teorias que ampliam e aprofundam a capacidade de ver: Mondrian, Kandinsky e Klee.

A favor de leis antifumo

Cigarro

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