As mulheres brasileiras são mais civilizadas que os homens; mesmo entre as mais humildes, poucas cospem na rua.
Registrei esta observação quando morava em Curitiba. Certamente não são apenas as brasileiras; tomara que assim seja.
Uma busca breve no Google a partir da frase ‘duelo de morte entre mulheres’ não me levou a nenhum caso de confronto comum em várias partes do planeta durante alguns séculos.Comum e, ao que sei, envolvendo apenas homens ou, sem nenhuma dúvida, predominantemente homens. Muitos deles de alta estirpe, como foi o caso do escritor Marcel Proust, em pleno século XX.
Importante é que também neste caso as mulheres de toda parte superem os homens em grau de civilidade, pois que, em última instância, não se trata de outra coisa.
A questão da qual vou me ocupar guarda semelhanças com os muitos duelos que tiveram como motivo alguma ofensa moral – verbal ou gestual – ou alguma agressão física – mais ou menos grave – e como conseqüência mortes, milhares de mortes.
Quero me referir às freqüentes brigas diretamente relacionada com trânsito de veículos, nas quais os homens também perdem feio das mulheres em quantidade e, mais uma vez, em grau de civilidade.
Estabeleci a relação entre duelo de morte e briga de trânsito ao ler um Discurso sobre o caráter dos diferentes séculos escrito por Luc de Clapiers, marques de Vauvenargues (1715-1747) que me convenceu definitivamente de que bem agi eu quando, no início da década de 80, não me permiti reagir com violência a uma pessoa que, por razões que não cabe relatar no momento, me desferiu um tapa no rosto em público, nas proximidades da porta de acesso ao salão de convenções do então Hotel Meridien, atualmente Pestana Hotel, localizado no bairro do Rio Vermelho, em Salvador.
Cito o marquês na tradução de Mário Laranjeira – Editora Martins Fontes.
“O duelo nasceu da convicção muito natural de que um homem não agüentaria injúrias de outro homem a não ser por fraqueza; mas porque a força do corpo podia dar às almas tímidas uma vantagem considerável sobre as almas fortes, para introduzir igualdade nos combates e dar-lhes por outro lado mais decência, nossos pais imaginaram bater-se com armas mais mortíferas e mais iguais do que aquelas que tinham recebido da natureza; e pareceu-lhes que um combate em que se poderia tirar a vida de um só golpe teria certamente mais nobreza do que uma briga vil em que no máximo se poderia arranhar a cara do adversário e arrancar-lhe os cabelos com as mãos. Assim, vangloriaram-se de ter colocado em seus usos mais elevação e mais elegância do que os romanos e os gregos que se batiam como seus escravos. Achavam que aquele que não se vinga de uma afronta não tem coragem nem brio; não atinavam que a natureza, que nos inspira a vingança, podia, elevando-se ainda mais alto, inspirar-nos o perdão. Esqueciam-se de que os homens são obrigados muitas vezes a sacrificar suas paixões à razão. A natureza dizia mesmo, na verdade, às almas corajosas que era preciso se vingar; mas ela não dizia que fosse sempre preciso lavar as menores ofensas no sangue humano, ou levar a vingança para além de seu sentimento. Mas, daquilo que a natureza não lhes diz, a opinião os persuadiu; a opinião ligou o último opróbio às mais frívolas injúrias, a uma palavra, a um gesto, sofridos sem revide. Assim, o sentimento de vingança era-lhes inspirado pela natureza; mas o excesso da vingança e a necessidade absoluta de vingar-se foram obra da reflexão. Ora, quantos usos não existem hoje ainda aos quais honramos com o nome de polidez e que não passam de sentimentos da natureza levados pela opinião para além de seus limites, contra todas as luzes da razão!”
