Arquivo para Dezembro, 2007

“…elevando-se ainda mais alto, inspirar-nos o perdão.”

As mulheres brasileiras são mais civilizadas que os homens; mesmo entre as mais humildes, poucas cospem na rua.

Registrei esta observação quando morava em Curitiba. Certamente não são apenas as brasileiras; tomara que assim seja.

Uma busca breve no Google a partir da frase ‘duelo de morte entre mulheres’ não me levou a nenhum caso de confronto comum em várias partes do planeta durante alguns séculos.Comum e, ao que sei, envolvendo apenas homens ou, sem nenhuma dúvida, predominantemente homens. Muitos deles de alta estirpe, como foi o caso do escritor Marcel Proust, em pleno século XX. 

Importante é que também neste caso as mulheres de toda parte superem os homens em grau de civilidade, pois que, em última instância, não se trata de outra coisa.

A questão da qual vou me ocupar guarda semelhanças com os muitos duelos que tiveram como motivo alguma ofensa moral – verbal ou gestual – ou alguma agressão física – mais ou menos grave – e como conseqüência mortes, milhares de mortes.

Quero me referir às freqüentes brigas diretamente relacionada com trânsito de veículos, nas quais os homens também perdem feio das mulheres em quantidade e, mais uma vez, em grau de civilidade.

Estabeleci a relação entre duelo de morte e briga de trânsito ao ler um Discurso sobre o caráter dos diferentes séculos escrito por Luc de Clapiers, marques de Vauvenargues (1715-1747) que me convenceu definitivamente de que bem agi eu quando, no início da década de 80, não me permiti reagir com violência a uma pessoa que, por razões que não cabe relatar no momento, me desferiu um tapa no rosto em público, nas proximidades da porta de acesso ao salão de convenções do então Hotel Meridien, atualmente Pestana Hotel, localizado no bairro do Rio Vermelho, em Salvador.

Cito o marquês na tradução de Mário Laranjeira – Editora Martins Fontes.

“O duelo nasceu da convicção muito natural de que um homem não agüentaria injúrias de outro homem a não ser por fraqueza; mas porque a força do corpo podia dar às almas tímidas uma vantagem considerável sobre as almas fortes, para introduzir igualdade nos combates e dar-lhes por outro lado mais decência, nossos pais imaginaram bater-se com armas mais mortíferas e mais iguais do que aquelas que tinham recebido da natureza; e pareceu-lhes que um combate em que se poderia tirar a vida de um só golpe teria certamente mais nobreza do que uma briga vil em que no máximo se poderia arranhar a cara do adversário e arrancar-lhe os cabelos com as mãos. Assim, vangloriaram-se de ter colocado em seus usos mais elevação e mais elegância do que os romanos e os gregos que se batiam como seus escravos. Achavam que aquele que não se vinga de uma afronta não tem coragem nem brio; não atinavam que a natureza, que nos inspira a vingança, podia, elevando-se ainda mais alto, inspirar-nos o perdão. Esqueciam-se de que os homens são obrigados muitas vezes a sacrificar suas paixões à razão. A natureza dizia mesmo, na verdade, às almas corajosas que era preciso se vingar; mas ela não dizia que fosse sempre preciso lavar as menores ofensas no sangue humano, ou levar a vingança para além de seu sentimento. Mas, daquilo que a natureza não lhes diz, a opinião os persuadiu; a opinião ligou o último opróbio às mais frívolas injúrias, a uma palavra, a um gesto, sofridos sem revide. Assim, o sentimento de vingança era-lhes inspirado pela natureza; mas o excesso da vingança e a necessidade absoluta de vingar-se foram obra da reflexão. Ora, quantos usos não existem hoje ainda aos quais honramos com o nome de polidez e que não passam de sentimentos da natureza levados pela opinião para além de seus limites, contra todas as luzes da razão!”  

Eu acredito em Letícia Sabatella

Eu acreditava menos na determinação do bispo Luiz Flávio Cappio em defesa do que ele entende ser o melhor para o rio São Francisco e para aqueles que se beneficiam direta ou indiretamente dele do que acreditava a atriz Letícia Sabatella.

Passei a acreditar muito mais ao ver uma foto dela chorando na frente da sede do Supremo Tribunal Federal, após a cassação da liminar que determinava a suspensão das obras de transposição.

Já não estou interessado pelo destino dele; já não acredito em nada do que ele diz. Quem ocupa agora minha atenção, quem se tornou realmente digna de todo a minha consideração é a mineira em questão.

As lágrimas que derramou em Brasília foram indicativo claro de que, para ela, ao autorizarem a continuação das obras, os juízes do STF estavam decretando a morte do bispo.

Interropida, a greve de fome dele se revelou uma chantagem malsucedida, um arremedo de lição de vida.

Na verdade, ele começou a me decepcionar ao concordar, um dia antes da decisão do STF, em posar para fotografias ao lado de crianças fantasiadas de anjinhos, considerando-se o impacto psicológico que pode resultar de terem sido usadas em circunstâncias tão dramáticas.

Gravidade requer seriedade

 “À mulher de César – teria dito o Imperador romano após afastar-se de Pompeia – não basta ser honesta, tem que parecer honesta”;mutatis mutandis, não basta a um Presidente da República compreender a gravidade de uma determinada questão: é preciso que ele dê a entender àqueles aos quais se dirige que efetivamente compreende e, assim, abordá-la com a devida seriedade.

Nem o fato de estar falando no primeiro dia após ter rejeitada pelo Senado sua proposta de prorrogação do imposto do cheque – na teoria, destinado a cobrir gastos na área da saúde –  foi suficiente para fazer Lula conter o hábito de agir como ator de comédia durante uma solenidade oficial (Desta vez em São Bernardo do Campo) e falando justamente sobre gastos na área da saúde.

Assim é que, diante da sistemática relutância de não sei quantos trabalhadores afastados temporariamente por problemas de saúde em retomar suas atividades após serem declarados aptos para tanto, ele simplesmente divertiu uma platéia composta basicamente de metalúrgicos, pretendendo corrigir o que pode ser classicado genericamente como malandragem com base no que se denomina popularmente gozação.

 Em tempo: Não faltava razão a Ronald Regan quando defendia o ponto de vista de que um Presidente da República precisa ter muito de ator, mas é preciso ter em mente que nem a performance de um Laurence Olivier ou de um Paulo Autran basta para fazer de alguém um bom Presidente da República.

A quem defende mudança na idade penal

Tirano engano este de achar que todo mundo é capaz de “entender tudo”, conforme diz Caetano Veloso; quase um crime quando envolve crianças e drama freqüente entre adolescentes do sexo feminino. Personagem de um conto de Clarice Lispector intitulado “Os Desastres de Sofia”, a certa altura uma delas desabafa: “Irritava-me que ele obrigasse uma porcaria de criança a compreender um homem”.O fato é que a capacidade de compreender da forma ampla e profunda que os adultos de maneira geral pretendem é simplesmente impossível na adolescência.

Em reportagem sobre alcoolismo entre adolescentes publicada na revista Veja 06/12/2006 o jornalista Ronaldo Soares informa que mapeamentos do cérebro mostram que as estruturas responsáveis pelo controle dos impulsos e que ajudam os indivíduos a definir o que é certo e o que é errado ainda não estão completamente formadas.

“Portanto, – escreve Soares – o adolescente, por natureza, não tem condições de avaliar as conseqüências de seus atos e vive se metendo em encrenca – daí a noção, muito comum, de que se trata de uma fase problemática”.

Estas observações foram corroboradas em 2007 por pesquisa conduzida pelo espanhol Ignacio Morgado, professor de Psicobiologia da Universidade Autônoma de Barcelona, envolvendo mais de duas mil pessoas entre 3 e 25 anos, que contestou a tese de que o cérebro amadurece totalmente entre os 8 e os 12 anos, contestação tomada pelo pediatra norte-americano Jay Giedd, do Instituto Nacional de Saúde Mental de Bethesda, como explicação para o fato de que muitos adolescentes demoram a raciocinar e a se comportar como adultos.

A pesquisa demonstrou que no final da infância o cérebro experimenta um aumento “desmedido” de neurônios e de conexões nervosas, processo que desacelera durante a adolescência e pode se estender até os 20 anos, aproximadamente.

Confúcio tinha profunda consciência da limitação da capacidade de compreender mesmo entre adultos. Assim, defendia o ponto de vista de que “pode-se obrigar o povo a seguir os princípios da justiça e da razão, mas não se pode obrigá-lo a compreendê-los”.

A hipótese de que a capacidade de compreender é comum a todos também é contestada por Machado de Assis através de um personagem literário, no filosófico Brás Cubas: “Grande coisa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria, o dom de achar as relações das coisas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distinção psíquica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulcro”.

Um prefeito que garanta ao menos ônibus menos imundos

Conforme se sabe, em outubro deste ano de 2008 serão realizadas eleições para escolha de prefeitos, incluídos prefeitos das capitais. Habitante de Salvador, tomo desde já a decisão de apoiar qualquer candidato que assuma publicamente o compromisso de garantir à população ao menos ônibus menos imundos.

Vou me ater a Salvador tanto por conhecer o problema por experiência pessoal, quanto pelo fato eloqüente até para um leigo de que por aqui a falta de higiene no interior dos ônibus deixou há muito tempo de ser um problema de transporte para se transformar num grave e dispendioso problema de saúde pública.

Não tenho dúvida que a limpeza sistemática do interior dos ônibus que circulam no perímetro urbano da capital baiana resultaria ao longo prazo em redução drástica nos índices de infecções que atualmente respondem por um número significativo dos atendimentos na rede pública de saúde, com impacto evidente na economia na forma de ausência no trabalho.

A exemplo do que ocorre em outras cidades, por fora os ônibus daqui são muito limpinhos e por dentro deles é raro a gente ver baratas circulando entre os passageiros. Isto acontece porque a aplicação de venenos é um procedimento relativamente simples e sua periodicidade se situa em torno de seis meses, enquanto o aspecto exterior dos veículos é coisa para inglês ver, especialmente nas cidades turísticas como esta que ostenta o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.

Quanto custa lavar sistematicamente a frota de veículos de Salvador eu não sei, mas a informação poderá ser obtida com um simples telefonema para a Prefeitura de Curitiba, cidade onde o sistema de transporte urbano é exemplar tanto no que diz respeito à funcionalidade quanto à higiene interna e externa dos veículos.

Morei por lá e sei que uma comunicação de sujeira dentro de um ônibus do tipo que é regra nos daqui resultaria em retirada do veículo de circulação, pura e simplesmente, até que a devida higienização fosse providenciada. Isto não ocorre porque os administradores de lá já se sentem obrigados a tomar como referência para a qualidade do sistema de transportes as cidades do chamado primeiro mundo.

É o que pode começar a ser feito aqui em Salvador e outras cidades onde o problema de higiene tem a mesma gravidade, a partir da escolha de um prefeito que assuma compromisso neste sentido.

Não tenho idéia do que seja hoje o custo de manutenção de um ônibus urbano, mas recordo que na década de 70 ouvi o comentarista esportivo João Saldanha contar, a propósito não sei de que, ter sido informado por um amigo dono de uma frota de ônibus que a partir do 16° passageiro no seu interior começava a obter lucro.

Repito: a partir do décimo sexto passageiro, dezesseis.

 

Poema

Painomerides do Paraná

No máximo na ponta do fêmur.

No próximo Verão, quem sabe, atinge a cintura.

Aí então será como na Grécia do tempo de Platão.

O epíteto painomerides é do poeta Íbico.

“As que mostram as coxas”.

O mérito, do espartano Licurgo,

que na conta do pudico Plutarco

outorgou às mulheres “demasiada liberdade”.

Burocraticamente ele relata:

“Realmente, as moças trajavam túnicas abertas de lado,

da cintura para baixo, que lhes desnudavam

inteiramente as pernas quando caminhavam”.

Eurípedes, que ele cita, achava excitante:

“Andando pela rua com rapazes,

vestido solto, coxas à mostra…

Sófocles também:

“E a jovem Hermíone,

cuja túnica frouxa

lhe sobe pela coxa nua”.

Curitiba-94