Muito certo esteve a partir da maturidade o poeta João Cabral de Melo Neto relativamente aos danosos efeitos para sua arte que poderiam decorrer da senilidade. E, coerente com esta preocupação, se preveniu de seguir publicando até muito tarde, medida que o abalo fatal
da saúde, antecedida do fato de ter ficado praticamente cego, não precisou por em prática.
Desse tipo de prudência parece carente o senador Pedro Simon, a julgar pelo conteúdo de um projeto que ele acaba de apresentar com o objetivo de, segundo notícia veiculada pela Agência Senado, “contribuir para a moralidade administrativa do Estado brasileiro”.
Não se trata de ser contra tão louvável objetivo, e a quem o classificasse de utópico para se dispensar de apoiá-lo eu recorreria ao conterrâneo Manoel Bomfim (assim mesmo, com O e com M) para repetir que sem trabalhar na perspectiva do utópico você não muda nada.
Ocorre, porém, que soa senil pretender que seja possível atingir tal objetivo simplesmente escrevendo no Código Eleitoral que daqui pra frente o registro de candidatura “será deferido apenas para os candidatos que comprovarem idoneidade moral e reputação ilibada”.
Tão raras são as pessoas que preenchem tais requisitos em toda parte do planeta desde sempre – na Grécia, por exemplo, Diógenes de Sinope saiu à luz do dia com uma lanterna à procura de algum e, ao que se sabe, não logrou localizar, embora entre seus contemporâneos houvesse – desde sempre, eu dizia, que a proposta parece uma “piada pronta” para a coluna do José Simão.
P. S. Digno de admiração o senador gaúcho é. Da estirpe do citado filósofo, a julgar por muitas das suas atitudes.
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