Um dia desses a apresentadora do Jornal da Globo citou o ex-presidente e senador José Sarney para dizer que “política é a arte de harmonizar conflitos”. Tão genérica, a definição pode ser julgada pomposa por falar em arte ao invés de ciência, por exemplo, mas é incontestável em seu sentido lato.
O que pretendo dizer é que não desconheço a importância da política na vida de todos, mas devo informar que neste Trevo do Talvez ela vai figurar menos do que filosofia, por exemplo, pois me sinto tão esclarecido a respeito do cotidiano das ações dos detentores dos poderes executivo, legislativo e judiciário no Brasil quanto Lemuel Gulliver o foi a respeito do que ocorria na Inglaterra na passagem do século XVII para o XVIII, período em que viveu seu criador, o escritor Jonathan Swift.
Tomei o livro dele para ler – em tradução de Octavio Mendes Cajado – estimulado pelo conselho que se segue, dado por Dietrich Schwanitz no seu Bildung / Cultura Geral, já citado aqui.
“Recomenda-se a leitura de As viagens de Gulliver quando os partidos políticos do país em que vivemos nos causarem repulsa ou quando já não suportamos ligar a televisão ou abrir o jornal. Quem estiver profundamente decepcionado com a política vai encontrar em As viagens de Gulliver o remédio para transformar nojo em incontida risada. Mas, para tanto, deve-se ler somente as primeiras três viagens e evitar a quarta a todo custo. Quem desconsiderar essa advertência não poderá se queixar se, após a leitura, ficar tão enojado com a raça humana que, em depressão profunda, queira meter uma bala na cabeça”.
Convencido de que nem todos que transitam por este Trevo do Talvez não tiveram ou não terão a oportunidade de encaixar o livrinho de Swift na agenda, assumo o compromisso de transcrever alguns dos trechos da narrativa que embasam o conselho de Schwanitz, à medida que avançar na leitura.
Da viagem a Lilipute, vi pouco conteúdo relacionado ao conselho digno de anotação. Para não dizer que nada, a constatação, por Gulliver, “de tão pouco peso são os maiores serviços prestados aos príncipes, quando posto em balança com uma recusa em satisfazer-lhes as paixões”.
Vamos pular, pois, para a segunda viagem e começar resumindo a ingênua ou dissimulada descrição de Gulliver sobre o que ocorria nos domínios da rainha Vitória, seguida dos comentários do rei de Brobdingnag, pois pode servir como um tiro de canhão para acordar muita gente para o que ocorre atualmente nesta terra brasilis.
“Encetei o meu discurso informando Sua Majestade de que os nossos domínios consistiam em duas ilhas, que formavam três poderosos reinos, governados por um soberano, além das nossas plantações na América. Estendi-me demoradamente sobre a fertilidade do solo e a temperança do clima. Em seguida, alarguei-me na constituição de um Parlamento inglês; composto, em parte, de um corpo ilustre, chamado a Câmara dos Pares; pessoas de ilustríssimo sangue e senhores dos patrimônios mais antigos e mais amplos. (…) A eles reuniram-se várias pessoas santas, como parte dessa mesma assembléia, sob o título de bispos, cuja missão especial consistia em zelar da religião e dos que nela instruem o povo. (…)
Ajuntei que formava a outra parte do Parlamento uma assembléia chamada Câmara dos Comuns, cujos membros era todos cavalheiros importantes, livremente escolhidos e eleitos pelo próprio povo, por seus grandes talentos e amor à pátria, a fim de representar a sabedoria da nação. E que esses dois corpos constituíam a mais augusta assembléia da Europa, que, de parceria com o príncipe, enfeixavam todo o poder legislativo.
Logo passei a referir-me aos tribunais de Justiça; nos quais presidiam os juízes, veneráveis sábios e intérpretes da lei, para a determinação dos controvertidos direitos e propriedades dos homens, bem como para castigo do vício e proteção da inocência. Mencionei a prudente administração do nosso tesouro; o valor e os feitos de nossas forças, marítimas e terrestres. (…) Não omiti sequer os nossos desportos e passatempos, nem pormenor algum que pudesse, a meu juízo, redundar em honra do meu país E concluí com breve relato histórico dos assuntos e sucessos da Inglaterra durante os últimos cem anos, mais ou menos.
Prolongou-se a conversação durante cinco audiências, cada qual de várias horas; e o rei ouviu tudo com grande atenção, tomando frequentemente notas do que eu dizia, e apontamentos do que me pretendia perguntar.
Quando pus termo a esses longos discursos, Sua Majestade, numa sexta audiência, consultando as suas notas, propôs muitas dúvidas, questões e objeções a respeito de cada artigo. Perguntou ele que método empregávamos para cultivar os espíritos e os corpos dos nossos jovens fidalgos, e em que espécie de ocupações passavam, de regra, a primeira parte de sua vida, a mais apropriada à ensinança. Qual o critério seguíamos para integrar aquela assembléia, quando alguma nobre família se extinguia. Quais as qualificações necessárias aos novos lordes para serem nomeados; e se o humor do príncipe, uma some de dinheiro entregue a uma dama da corte, ou o desejo de fortalecer um partido contrário aos interesses do povo já havia sido, alguma vez, o motivo dessas promoções. Quanto conhecimento possuíam esses lordes das leis do seu país, e de que maneira o adquiriam para poderem decidir das propriedades dos seus súditos, em última instância. Se viviam sempre tão livres da avareza, da parcialidade e das necessidades, que o suborno, ou qualquer outro desígnio sinistro, não pudesse ter lugar entre eles. Se aqueles santos varões de que eu havia falado, promovidos sempre a esse cargo em razão do seu conhecimento das questões religiosas e da santidade de suas vidas, nunca tinham sido condescendentes com os tempos, enquanto eram padres comuns; nem servis e prostituídos capelões de algum nobre, a cujas opiniões continuassem vilmente a obedecer, depois de admitidos naquela assembléia.
Quis saber, depois, quais os processos empregados na eleição daqueles que eu chamara Comuns: se um estranho, com a bolsa cheia, não lograria persuadir os eleitores a elegê-lo em lugar do seu próprio senhor, ou do cavalheiro mais importante da vizinhança. Como se explicava que as pessoas se mostrassem tão violentamente inclinadas a ingressar numa assembléia, que eu admitir ser uma fonte enorme de trabalhos e despesas, à custa, muita vez, da ruína de suas famílias, e sem perceberem qualquer salário ou pensão; pois isso implicava tão grande extremo de virtude e espírito público, que Sua Majestade parecia temer nem sempre fosse sincero. E quis saber se tais zelosos cavalheiros não poderiam ter o propósito de se recompensarem dos encargos e trabalhos a que se entregavam, sacrificando o bem público aos desígnios de um príncipe fraco e vicioso, em convivência com um ministério corrupto. Multiplicou as perguntas e me sondou exaustivamente sobre esse ponto, propondo inúmeros quesitos e objeções, que não julgo prudente nem conveniente repetir.
Sobre o que eu disse respeito aos nossos tribunais de Justiça, pediu-me Sua Majestade que lhe explicasse várias coisas: o que fui mais capaz de fazer, visto que já quase me arruinara um processo na Chancelaria, cujas custas eu tivera de pagar. Perguntou quanto tempo se gastava, de ordinário, em distinguir a razão da sem-razão, e quantos gastos se faziam para isso. Se os advogados e suplicantes tinham liberdade para defender causas que se sabiam manifestamente injustas, vexatórias ou opressivas. Se se observara ter um partido, religioso ou político, algum peso na balança da justiça. Se eram os suplicantes pessoas educadas no conhecimento geral da equidade, ou tão-somente no direito consuetudinário da província, da nação ou de alguma localidade. Se eles ou os seus juízes haviam participado da elaboração das leis, que assumiam a liberdade de interpretar e glosas a seu talante. Se já tinham, em diferentes ocasiões, defendido e acusado a mesma causa, citando precedentes para provar opiniões contrárias. Se eram uma corporação rica ou pobre. Se recebiam alguma recompensa pecuniária para litigar, ou apresentar os seus pareceres. E, particularmente, se eram alguma vez admitidos como membros da Câmara Baixa.
Em seguida, caiu sobre a administração do nosso Tesouro; e disse julgar que me falhara a memória, pois eu calculara os nossos impostos em cerca de 5 ou 6 milhões por ano e, ao mencionar os gastos, verificava que estes alcançavam, às vezes, mais do que o dobro; porque as notas que tomara nesse sentido eram assaz minuciosas, pois esperava, segundo me disse, que o conhecimento dos meus processos lhe fosse útil, e não podia enganar-se nos cálculos. Mas, se era verdade o que eu lhe dissera, não sabia como um Estado poderia gastar mais do que ganhava, à semelhança de um particular. Perguntou-me “quais eram os nossos credores; e onde encontrávamos o dinheiro para pagá-los”. Pasmou de me ouvir falar em guerras tão onerosas e tão caras; “que havíamos de ser, por certo, um povo rixoso, ou viver entre maus vizinhos, e que os generais seriam, forçosamente, mais ricos do que os reis”. Perguntou que negócios tínhamos fora das nossas ilhas, a não ser à conta do comércio, dos tratores, ou da defesa do litoral por meio de esquadras. Surpreendeu-o principalmente ouvir-me falar num Exército mercenário permanente, em tempo de paz e no seio de um povo livre. Disse que, “se nos governavam, por nosso próprio consentimento, as pessoas dos nossos representantes, não podia imagina de quem nos temíamos e contra quem havíamos de lutar; e quis saber se a casa de um homem particular não seria melhor defendida por si mesmo, pelos filhos e pela família, do que por meia dúzia de patifes, arrebanhados ao acaso nas ruas, mal pagos, e que poderiam ganhar cem vezes mais cortando-lhes o pescoço”.
Riu-se da minha esquisita aritmética, como houve por bem chamar-lhe, computando o número dos nossos habitantes pelo dos membros das várias seitas religiosas e políticas. Disse desconhecer a razão por que não eram obrigados a mudá-las ou disfarçá-las os que sustentam opiniões prejudiciais ao público. E assim como seria tirânico o governo que determinasse o primeiro, assim seria fraco o que não exigisse o segundo: pois não se pode permitir-se a um homem conservar venenos em seu gabinete, mas não pode permitir que os venda como cordiais.
Observou que, entre as diversões da nossa nobreza e fidalguia, eu mencionara o jogo: quis saber em que idade se entregavam, de ordinário, a esse entretenimento, e quando o abandonavam; quanto tempo empregavam nele; se chegava, alguma vez, a termos de danar-lhes a fazenda; se pessoas indignas e viciosas, por sua perícia nessa arte, não podiam amanhar grandes riquezas e conservar, às vezes, os nossos próprios nobres em sua dependência, bem como habituá-los a más companhias, divorciá-los do aperfeiçoamento espiritual, e obrigá-los, pelas perdas sofridas, a lograrem essa infame destreza e a exercitarem-na em detrimento de outros.
Assombrou-o enormemente o histórico relato que lhe fiz dos nossos negócios durante o último século; protestando serem apenas um amontoado de conspirações, revoltas, assassínios, chacinas, revoluções, desterros, exatamente os piores efeitos que poderiam fazer a avareza, o faccionismo, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a ira, a insânia, o ódio, a inveja, a lascívia, a maldade e a ambição.
Em outra audiência, recapitulou com dificuldade a substância de tudo o que eu lhe dissera; comparou as perguntas que me fez com as respostas que lhe dei; em seguida, tomando-me na mão, e batendo-me delicadamente, pronunciou as seguintes palavras, que nunca me esquecerão, como também me esquecerá a maneira por que as disse: “Meu amiguinho Grildrig, fizestes o mais admirável panegírico do vosso país; provastes à sociedade que a ignorância, a ociosidade e o vício sãos os ingredientes adequados à qualificação de um legislador; que as leias são melhor explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujo interesse e habilidade consistem em as perverter, confundir e iludir. Observou entre vós alguns traços de uma instituição que poderia ter sido, originariamente, tolerável, mas cuja metade está quase apagada, ao passo que o resto foi inteiramente obliterado e borrado pela corrupção. Não transparece, em quando dissestes, que se exija uma única perfeição para que alguém atinja uma posição qualquer entre vós; e muito menos que os homens sejam enobrecidos em razão da sua virtude; que os sacerdotes sejam promovidos pela piedade ou pelo saber; os soldados, pelo procedimento ou pelo valor; os juízes, pela integridade; os senadores, pelo amor à pátria; os conselheiros, pela sabedoria. “Pelo que vos toca, prosseguiu o rei, a vós, que passastes viajando a maior parte da vossa vida, inclino-me a pensar que tenhais, até agora, escapado a muitos vícios do vosso país. Mas, pelo que depreendi do vosso próprio relato e das respostas que tão penosamente arranquei e extraí de vós, não posso menos de concluir que a grande maioria dos vossos semelhantes é representada pela mais perniciosa raça de pequenos e odiosos insetos que a natureza já permitiu rastejassem na superfície da Terra”.
P. S. Frustrado na expectativa que fundei na indicação do Sr Dietrich Schwanitz, interrompi a leitura na página 154 das 275 que compõem a edição da Editora Abril de 1983, que fui encontrar num Sebo perto do Dique do Tororó.
Mantive minha decisão de não seguir lendo mesmo depois de ver o livro citado com louvor por ninguém menos que Napoleão Bonaparte como epígrafe de uma seção da biografia política do Imperador francês, escrita por Steven Englund e publicada entre nós pela Zahar.
Nela, sim, aprende-se muito sobre política.
Aprende-se principalmente a distinguí-la do que os franceses denominam “o político”.
Assim, retribuo a indicação de leitura.



