Por favor, esqueçam relação de causalidade entre a passagem do Dia Internacional de Mulher e esta minha iniciativa de escrever a respeito de um livro que interessa especialmente as mulheres, sem deixar de interessar, e muito, aos homens lúcidos.
É que na verdade estou fazendo isto com mais de 20 anos de atraso, que foi quando o li e fiz as anotações que estarei tomando por base para o texto que se segue.
Escrito em 1981 pela norte-americana Colette Dowling e publicado pela Editora Melhoramentos, aqui no Brasil ele está na 53ª edição, conforme fiquei sabendo numa consulta ao Google, fato que não me causou surpresa.
O livrinho é excelente!
E continua atual.
Sua tese central é de que a dependência psicológica – desejo inconsciente dos cuidados de outrem – constitui “a força motriz que ainda mantém as mulheres agrilhoadas”, conforme afirma sua autora, na versão de Amarylis Eugênia Miazzi.
Trata-se de “uma rede de atitudes e temores profundamente reprimidos que retém as mulheres numa espécie de penumbra e impede-as de utilizarem plenamente seus intelectos e criatividade”.
Como Cinderela – assinala Dowling – as mulheres de hoje ainda esperam por algo externo que venha transformar suas vidas.
A autora tomou sua experiência pessoal como ponto de partida e ao longo de 222 páginas entrelaça teorias psicológicas com histórias reais de dezenas de mulheres que entrevistou.
História de mulheres solteiras, mulheres casadas, viúvas, divorciadas, mulheres que partilham um lar com seus amantes. Algumas dedicam-se a uma profissão, outras jamais ousaram sair de casa e muitas se aventuraram no mundo dos negócios e depois voltaram para dentro de casa. Entre as personagens do livro se incluem mulheres sofisticadas de grandes cidades e camponesas, enfim, é um livro realmente representativo do pensamento das mulheres, sem limite de nível cultural, classe social, etc.
- Por que é que, tendo a chance de crescer, tendemos a recuar? – indaga Collet Dowling nas primeiras páginas.
Sua resposta:
- Porque as mulheres não estão acostumadas a enfrentar o medo e ultrapassá-lo. Fomos sempre encorajadas a evitar qualquer coisa que nos amedronta; desde pequenas fomos ensinadas a só fazer as coisas que nos permitissem setirmo-nos seguras e protegidas. O fato é que não fomos jamais treinadas para a liberdade, mas sim para seu oposto: a dependência.
Como afirma Dowling, “a auto-suficiente não é um bem agraciado aos homens pela natureza; ela é um produto de aprendizagem e treinamento”.
- Os homens são educados para a independência desde o dia do seu nascimento. De modo igualmente sistemático, as mulheres são ensinadas a crer que, algum dia, de algum modo, serão salvas. Este é o conto de fadas, a mensagem de vida que ingerimos justamente com o leite materno.
Dowling conta que só se deu conta de que sempre agiu sustentada na expectativa de que um dia alguém viria “salvá-la” da ansiedade causada pela vida aos 35 anos de idade, descasada há muito tempo e com três filhos pequenos para criar.
- Às vezes é mais fácil enfrentar um desafio externo, uma crise ou uma tragédia, do que responder ao desafio que vem de dentro de nós – o impulso de arriscar-se, de crescer.
Por que as mulheres têm tanto medo?
A falta de autoconfiança – responde Dowling – parece perseguir-nos desde a infância, e com intensidade tão palpável que, às vezes, temos a sensação de tratar-se de algo com existência própria.
Dissecando o que denomina Complexo de Cinderela, começa por lembrar que o velho sistema “mulheres e crianças primeiro” há muito tempo caiu por terra, para em seguida advertir sobre as conseqüências da perda do marido por mulheres que “preferiram” não enfrentar o mundo e nele assegurar sua subsistência.
Trata-se de uma leitura instrutiva, a despeito dos laivos do pior dessa literatura dita de “auto-ajuda”.
A Cinderela de Perreault
Para informar quem não sabe ou apenas ouviu falar, refrescar a memória de quem já leu ou simplesmente para constar, a Cinderela que dá nome ao livro e ao complexo psicológico batizado por Colette Daoling é personagem central de um dos mais famosos contos de fadas criados ou recontados pelo escritor francês Charles Perreault (1628-1703).
Filha única de “um homem muito rico” e de “uma mulher muito bondosa”, Cinderela perdeu a mãe ainda muito jovem e o pai não demorou a contrair novas núpcias, conforme se dizia antigamente.
A madrasta de Cinderela é, na história, uma mulher insensível, mãe de duas meninas de “pele muito alva”, mas com o “coração negro e cheio de maldade”, descrição, aliás, que hoje se diria nada “politicamente correta”, note-se.
Não deu outra coisa: virou empregada doméstica.
E de viver suja de cinza, ganho o apelido de Gata Borralheira.
Um dia, depois de muitos dias de sofrimento, a Gata Borralheira conseguiu, com a ajuda de um bando de passarinhos, participar de um baile durante o qual o filho do rei escolheria uma noiva.
Resultado: tomada por filha de um estrangeiro, por sua beleza e luxo, a Gata Borralheira acabou conquistando o coração do príncipe.
Terminada a festa, porém, a Gata Borralheira não quis se deixar acompanhar pelo príncipe e voltou para casa, devolveu as roupas luxuosas aos passarinhos e ocupou seu lugar ao lado do fogão.
No dia seguinte pediu novamente roupas luxuosas a seus amigos, volta ao palácio quando a festa está no auge e novamente dança todo o tempo com o disputado príncipe.
A história da fuga para casa se repete e no terceiro dia de festa o vestido que seus passarinhos arranjaram era ainda mais bonito e os sapatos de ouro. Findo o baile, quis repetir o processo de despistamento, mas o príncipe havia se prevenido. Preparou uma armadilha e fisgou um sapato.
No dia seguinte chamou o administrador do palácio e determinou que este saísse à procura da mulher para a qual o sapato servisse. A conselho da mãe, uma das algozes de Gata Borralheira cortou o dedeão, acomodou o pezão no sapatinho e lá se foi para o palácio na garupa do cavalo do príncipe para curtir a vida de rainha.
A alegria durou pouco: dois passarinhos amigos da Gata Borralheira denunciaram o artifício e informaram ao príncipe que “a verdadeira noiva” estava a sua espera em casa.
Pensou tratar-se da irmã, mas se decepcionou: o dedão era pequeno, mas o calcanhar era exagerado, conforme esta pôde verificar longe dos olhares do príncipe, ao lado da mãe.
Corte o calcanhar! – sugeriu a candidata a sogra de rei.
Dito e feito.
Calcanhar cortado, dor dissimulada, lá se foi ela na garupa do cavalo do príncipe.
A alegria novamente durou pouco: os passarinhos protetores da Gata Borralheira denunciaram a nova farsa, facilmente comprovada pelo príncipe, que procurou saber do pai das meninas se não tinha outra filha.
O desalmado pai respondeu que não, a não ser “a pequena e magra Gata Borralheira, filha de minha primeira mulher”.
O príncipe pediu para ser apresentado a ela.
A madrasta tentou convencê-lo do contrário.
O príncipe insistiu tanto que conseguiu ter diante de si a jovem no pé da qual o sapatinho “serviu como uma luva”.
“Pálidas de cólera”, mãe e filhas viram a Gata Borralheira partir com o príncipe. Reapareceu algum tempo depois, perdoou às duas irmãs e ainda lhes arranjou casamento com membros da corte.
Depois do casamento, Gata Borralheira e seu marido foram morar num lindo palácio “e viveram felizes durante muitos e muitos anos e tiveram muitos filhos”, conforme uma das edições do conto de Perrault que faz parte do acervo da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, avidamente disputadas todos os dias por dezenas de crianças, na sua maioria do sexo feminino.