Embora concorde que não há obra de arte profunda sem identidade profunda com seu autor, entendo que constitui erro grave generalizar certas experiências.
Um exemplo escolhido de propósito em Arthur Schopenhauer: “Na idade avançada, cada dia que passa nos causa uma sensação parecida com a de um delinqüente a marchar para o patíbulo”.
Que isto tenha acontecido com ele, lastimo, mas dar a entender que acontece necessariamente com a espécie humana é um equívoco eloqüente.
É imaginar-se o umbigo do mundo o que faz alguém lúcido desenvolver este tipo de raciocínio fora de relatos autobiográficos.
Na pior das hipóteses deveria ressalvar: No meu caso… – isto quando julgar que seu caso poderá servir de lição. Caso contrário, esqueça.
Uma pena, mas fez por merecer a pecha de pessimista.
Eis o que ele afirma adiante: “… pelo que, com a idade, aumenta o nosso apego aos bens”.
No caso dele, é claro!
No entender de Aristóteles, por exemplo, o determinante desse apego é menos a velhice em si do que a imbecilidade.
Mas é claro que não era este o caso do genial filósofo alemão.
Ainda sobre a velhice como marcha para o patíbulo.
Tendo vivido mais de vinte anos a mais do que ele, nossa Cora Coralina pensava assim:
“Envelhecer é entrar no reino da grande paz!”
P. S. Schopenhauer certamente teria lançado ao lixo muita tolice que escreveu sobre a velhice, caso tivesse lido o seguinte aforismo de Nietzsche:
“O filósofo e a velhice – Não é bom deixar a noite julgar o dia: pois com freqüência o cansaço torna-se juiz da força, do êxito e da boa vontade. Assim também é aconselhável extrema cautela em relação à idade e seu julgamento da vida, uma vez que a velhice, como a noite, ama disfarçar-se de uma nova e atraente moralidade e sabe humilhar o dia com os vermelhos do crepúsculo e o silêncio apaziguador ou nostálgico”.
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