Dou sequência ao compromisso assumido, anuncio a publicação do penúltimo dos instrutivos Sermões do Mandato proferidos pelo notável António Vieira, leitura do interesse de qualquer pessoa culta, mesmo que seja atéia, conforme já tive oportunidade de observar neste Trevo do Talvez.
Sermão do mandato 5 – Pregado no mesmo dia do Sermão 4,
agora na Capela Real, às três horas da tarde.
Nota dos editores:
Sobre os dois sermões pregados neste mesmo dia, escrevia Vieira, da Baía, em 23 de junho de 1663, ao cônego Francisco Barreto: “Dos dois do Mandato em dia da Encarnação aprovou mais o nosso Juiz do Ofício D. Lucas o da manhã que o da tarde. O certo é que eu preguei na Capela o que tive por melhor, e assim os remeto por apelação a Vossa Mercê”.
P.S. Não consegui me certificar do dia e mês em que foram proferidos os dois sermões, no ano de 1655.
“Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos.
Outra vez, Senhor, neste mesmo dia, outra vez torno a falar de vosso amor. Dobram-se neste dia os dois, dobram-se e encontram-se os mistérios, encontrou-se consigo mesmo o mesmo: e pois ele no mesmo dia duas vezes nos amou tanto; por que não diremos nós também duas vezes no mesmo dia, já que fizemos tão pouco?
Vitorioso deixei hoje o amor de Cristo, mas ainda neste mesmo dia lhe resta muito que vencer.
Josué para acabar de vencer uma vitória, mandou parar o Sol, e fez de um dia dois. Nós temos dois dias reduzidos a um só dia, e nem por isso receio presentar hoje nova batalha; que nos não pode faltar luz, onde o mesmo Sol é o combatente.
Josué disse que nem antes nem depois houve tão grande dia como aquele: Non fuit antea, nec postea tam longa dies: mas o dia em que estamos (que também compreende o antes e o depois) pelo que foi, e pelo que é, é muito maior dia.
Uma só hora deste dia é muito maior que todo aquele; porque aquele era o dia de Josué, e esta é hora de Jesus: Scien Jesus quia venit hora ejus.
Nesta hora, pois (que não será mais de uma hora) sairá outra vez em campo o amor de Cristo também de amor a amor, e de dia a dia.
Viu João no seu Apocalipse sobre um cavalo pombo um galhardo cavalheiro aramado de arco e setas: Et ecce equus albus, et qui sedebat super illum, habebat arcum: logo viu que lhe punham uma coroa na cabeça: Et exivit vincens ut vinceret.
Por este cavalo branco entenderam os intérpretes a sagrada Humanidade, que sempre como no Tabor, veste de neve.
O cavaleiro armado de arco e setas, as mesmas insígnias dizem que é o amor, e não outro senão o amor do mesmo Cristo.
Mas se já vinha vencedor, e tinha recebido a coroa da vitória, e por que sai outra vez a pelejar e vencer: Exivit vincens ut vinceret?
Porque o amor do nosso divino Amante, quando compete em amar, como compete hoje (Cum dilexisset, dilexit) não se contenta com uma só coroa, nem com uma só vitória: coroa-se para se tornar a coroar, e vence para tornar a vencer.
Esta é a não imaginada empresa que o tira nesta hora, não ao mesmo, senão a outro maior teatro.
Esta manhã saiu a vencer a batalha, agora sai a vencer a vitória.
Entrando nas nossas grandes proposições, e começando pela primeira; para inteira inteligência do que se há de dizer, é necessário supor com a melhor e mais bem fundada teologia, que quando o amor do Eterno Padre deu aos homens seu Filho: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum Unigenitum daret, não só no-lo não deu com liberdade de viver quanto e como quisesse; mas com preceito e obediência de morrer e padecer tudo o que padeceu por nós.
O amor todo é estimação. E quem haverá que vendo ao Filho de Deus lavar os pés aos homens com aquelas mesmas mãos em que o Padre tinha posto tudo, não lhe pareça que a olhos vistos fez mais estimação o Filho dos pés dos homens, que das dádivas do Padre?
Dos cristãos da primitiva Igreja diz S. Lucas, que tudo quanto tinham vendiam; e punham o preço aos pés dos Apóstolos: Afferebant pretia eorum, quae vendebrant, et ponebant ante pedes Apostolorum.
E por que lho punham aos pés, e não lhe entregavam nas mãos, se era o preço de tudo?
Para mostrar, diz S. Crisóstomo, que estimavam mais os pés dos Apóstolos, que tudo quanto devam, e quanto tinham.
Entregar-lho nas mãos, seria fazer estimação do que davam; pôr-lho aos pés, era protestar a veneração das pessoas: e como estimavam mais as pessoas que as dádivas, por isso lhas punham aos pés, e não lhas davam nas mãos: Ponebant ante pedes Apostolorum.
Oh dádivas do Padre! Olhe pés dos homens! Oh amor e estimação de Cristo!
O Padre deu tudo quanto tinha ao Filho, e não lho pôs aos pés, senão nas mãos; porque estimou o que Lhe não Lho pôs aos pés, senão nas mãos; porque estimou o que Lhe dava, quanto a mesma dádiva merecia, pois era tudo quanto tinha Deus. E que este tudo do Padre, de que estavam cheias as mãos do Filho, o pusesse o Filho, e mais as mãos aos pés dos homens!
O que podia daqui inferir o discurso, se não tivesse mão nele a fé, é que prezou Cristo mais os pés dos homens, que as dádivas do Padre.
Mas o certo, e a verdade, é que não foi nem podia ser assim.
Amou e estimou o Filho sumamente as dádivas de seu Padre, tanto pelo que eram em si, como pelas mãos de quem vinham. Porém esta mesma estimação não desfaz, antes reforça mais o mesmo discurso, porque dele se infere estima com sobrestimação, e amor sobre amor.
Quando a Madalena pôs aos pés de Cristo os alabastros, os ungüentos, os cabelos, os olhos, as lágrimas, as mãos, a boca, e a si mesma, não foi porque não estimasse tudo isto, senão porque tudo isto era o que mais estimava.
E que conseqüência tirou dali, não outrem, senão o mesmo Cristo?
Quoniam dilexit multum.
De pôr tudo que mais estimava, e a si mesma, a seus pés, inferiu o Senhor o grande excesso com que amava.
E assim era.
Porque quando o que se preza muito em um amor põe aos pés do outro, então se prova que este segundo é maior. Logo, se assim o inferiu Cristo, por que não inferimos nós o mesmo?
Se tudo quanto o Padre pôs nas mãos do Filho, e as mesmas mãos, e a Si mesmo prostrado em terra, põe o Filho aos pés dos homens, como não há de parecer que os homens são os que mais estima, e os homens o que mais ama?
Do mistério humilde do Lavatório, passou o Senhor ao altíssimo do Sacramento, e aqui se declarou seu amor muito mais por parte dos homens.
E por que?
Porque para o Padre instituiu o Sacramento como sacrifício, para os homens instituiu o sacrifício como Sacramento: e posto que o mistério seja o mesmo, maior amor se ergue dele enquanto Sacramento do que enquanto sacrifício.
Como sacrifício consome-se; como Sacramento conserva-se: como sacrifício é ação transeunte; como Sacramento permanente: como sacrifício tem horas do dia certas; como Sacramento é de todo o tempo, de dia e de noite: como sacrifício não se aparta do altar, e de sobre a ara; como Sacramento sai às ruas, e entra em nossas casas: como sacrifício, enfim, tem por fim o culto e adoração do Padre; como Sacramento a presença, a assistência, e a união com os homens: vede a diferença do amor na mesma instituição, e na mesma mesa, que foi a mesa e o altar: Tibi ao Padre? Gratias agens. Discipulis, aos homens? Accipite, et comedite.
Ao Padre deu as graças, aos homens fez o banquete: ao Padre ofereceu-se, com os homens uniu-se.
Vai por diante a prática, vai-se desafogando o amor, e sempre em novos argumentos em favor dos homens.
Desenganados os Discípulos da partida, por parte da obediência ao Padre, forçosa, e por parte dos seus interesses, conveniente; outro motivo com que o benigníssimo Senhor os consolou, foi a promessa de que ainda O haviam de tornar a ver, se bem por breve tempo: Iterum modicum, et videbitis me, quia vado ad Patrem.
Da inteligência destas palavras duvidaram com tal admiração os Discípulos, que se perguntavam uns aos outros: Quid est hoc, quod divit nobis: modicum, et quia vado ad Patrem?
E finalmente se resolveu entre todos, que nenhum deles sabia nem podia entender o que o Senhor dizia: Nescimus quid loquitur.
Notável caso!
Uma parte dizia que Cristo Se partia para o Padre: Quia vado ad Patrem: a outra parte dizia que o tempo que Se detivesse na Terra com os Discípulos, havia de ser pouco: Modicum, et videbitis me: e que o tempo desta demora, sendo tempo que dilatava a Cristo a ida para seu Padre, houvesse de ser pouco, e muito pouco ( que isto quer dizer modicum), esta era a dificuldade que os embaraçava, e se não deixava entender.
E por que?
Porque dela se inferia, por natural conseqüência, uma grande implicação no amor de Cristo, a qual depois se declarou ainda mais, mostrando a experiência que aquela demora ou tardança, foi de quarenta dias.
Não há coisa que mais alargue o tempo na ausência e na saudade, que a dilação: as horas se fazem anos, e os dias séculos.
O tempo define-se: Mensura primi mobilis: a medida do primeiro móvel: e o primeiro móvel neste mundo pequeno, que chamamos homem, é o coração.
Daqui vem, que, segundo os movimentos do mesmo coração, pode o mesmo tempo, com diferentes respeitos, ser longo e breve.
Esta foi na competência de um dia com outro dia, e de um amor com outro amor, esta foi a igualdade do dilexit do Padre: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret: e esta a igualdade do dilexit do Filho: Suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.
Mas nesta mesma igualdade em que se não conhece vantagem, consistiu (como prometi) a vitória do amor de hoje.
E por que, ou como?
Porque Cristo, pela parte que tem de homem, é menor que o Padre, como Ele mesmo nos ensinou: Quia Pater major me est: e nas batalhas de menor a maior, quando o menor iguala o maior, o igualar é vencer.
Na luta que teve Jacob com o anjo, nem o anjo derrubou a Jacob, nem Jacob derrubou ao anjo: e contudo o texto sagrado não só uma senão muitas vezes celebra a vitória de Jacob, e por ela lhe mudou Deus o nome de Jacob em Israel, dizendo: Si contra Deum fortis fuisti, quanto magis contra homines praevalebis.
Pois se Jacob não venceu o anjo, e o anjo somente reconheceu que o não podia vencer: Cum videret quod eum superare non posset; porque se atribui a vitória a Jacob?
Diga-se que não foi vencido; mas não se diga que venceu. Antes porque não foi vencido, por isso mesmo se diz que venceu; porque nas batalhas de menor a maior, o não ser vencido é vencer.
Se a luta fora de homem a homem, ou de anjo a anjo, então era necessário derrubar um ao outro para ficar vencedor; porém como era de homem a anjo, e de menor a maior, a igualdade no menor foi vitória, e o não ser vencido vencer.
Mas quem era este anjo, quem era este Jacob, e qual foi esta batalha?
O anjo representava ao Padre, que por isso disse: Si contra Deum fortis fuisti: Jacob representava a Cristo, que muitas vezes na Escritura se chama Jacob, e a batalha era de amor, que por essa razão foi luta, que são abraços.
E como nesta competência amorosa nem o Padre pode vencer o Filho, nem o Filho vencer o Padre, bem se conclui da mesma igualdade do amor de ambos, que toda vitória ficou pelo dilexit de hoje. In finem: treslada S. Crisóstomo: In victoriam dilexit eos.
Senhor Jesus: já que hoje está vosso amor tão vencedor de tudo, vença também e triunfe destes corações, tão duros, tão ingratos, tão cegos. Abrandai, Senhor, esta dureza, convertei esta ingratidão, alumiai esta cegueira: trocai e transformais de uma vez a rebeldia destas vontades, para que só a Vós amem, só a Vós queiram, só a Vós desejem, só por Vós suspirem, só de Vós esperem, só em Vós vivam, só por Vós morram: até que chegue aquela última e feliz hora de passar convosco deste mundo ao Padre: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem; onde Vos vejam, onde Vos gozem; onde Vos amem sem fim: In finem dilexit eos”.




