Arquivo para Maio, 2008

“Esta manhã saiu a vencer a batalha, agora sai a vencer a vitória.”

Dou sequência ao compromisso assumido, anuncio a publicação do penúltimo dos instrutivos Sermões do Mandato proferidos pelo notável António Vieira, leitura do interesse de qualquer pessoa culta, mesmo que seja atéia, conforme já tive oportunidade de observar neste Trevo do Talvez.

 

Sermão do mandato 5 – Pregado no mesmo dia do Sermão 4,

agora na Capela Real, às três horas da tarde.

 

 

Nota dos editores:

Sobre os dois sermões pregados neste mesmo dia, escrevia Vieira, da Baía, em 23 de junho de 1663, ao cônego Francisco Barreto: “Dos dois do Mandato em dia da Encarnação aprovou mais o nosso Juiz do Ofício D. Lucas o da manhã que o da tarde. O certo é que eu preguei na Capela o que tive por melhor, e assim os remeto por apelação a Vossa Mercê”.

P.S. Não consegui me certificar do dia e mês em que foram proferidos os dois sermões, no ano de 1655.

 

“Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos.

 

Outra vez, Senhor, neste mesmo dia, outra vez torno a falar de vosso amor. Dobram-se neste dia os dois, dobram-se e encontram-se os mistérios, encontrou-se consigo mesmo o mesmo: e pois ele no mesmo dia duas vezes nos amou tanto; por que não diremos nós também duas vezes no mesmo dia, já que fizemos tão pouco?

Vitorioso deixei hoje o amor de Cristo, mas ainda neste mesmo dia lhe resta muito que vencer.

Josué para acabar de vencer uma vitória, mandou parar o Sol, e fez de um dia dois. Nós temos dois dias reduzidos a um só dia, e nem por isso receio presentar hoje nova batalha; que nos não pode faltar luz, onde o mesmo Sol é o combatente.

Josué disse que nem antes nem depois houve tão grande dia como aquele: Non fuit antea, nec postea tam longa dies: mas o dia em que estamos (que também compreende o antes e o depois) pelo que foi, e pelo que é, é muito maior dia.

Uma só hora deste dia é muito maior que todo aquele; porque aquele era o dia de Josué, e esta é hora de Jesus: Scien Jesus quia venit hora ejus.

Nesta hora, pois (que não será mais de uma hora) sairá outra vez em campo o amor de Cristo também de amor a amor, e de dia a dia.

Viu João no seu Apocalipse sobre um cavalo pombo um galhardo cavalheiro aramado de arco e setas: Et ecce equus albus, et qui sedebat super illum, habebat arcum:  logo viu que lhe punham uma coroa na cabeça:  Et exivit vincens ut vinceret.

Por este cavalo branco entenderam os intérpretes a sagrada Humanidade, que sempre como no Tabor, veste de neve.

O cavaleiro armado de arco e setas, as mesmas insígnias dizem que é o amor, e não outro senão o amor do mesmo Cristo.

Mas se já vinha vencedor, e tinha recebido a coroa da vitória, e por que sai outra vez a pelejar e vencer: Exivit vincens ut vinceret?

Porque o amor do nosso divino Amante, quando compete em amar, como compete hoje (Cum dilexisset, dilexit) não se contenta com uma só coroa, nem com uma só vitória: coroa-se para se tornar a coroar, e vence para tornar a vencer.

Esta é a não imaginada empresa que o tira nesta hora, não ao mesmo, senão a outro maior teatro.

Esta manhã saiu a vencer a batalha, agora sai a vencer a vitória.

 

Entrando nas nossas grandes proposições, e começando pela primeira; para inteira inteligência do que se há de dizer, é necessário supor com a melhor e mais bem fundada teologia, que quando o amor do Eterno Padre deu aos homens seu Filho: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum Unigenitum daret, não só no-lo não deu com liberdade de viver quanto e como quisesse; mas com preceito e obediência de morrer e padecer tudo o que padeceu por nós.

 

O amor todo é estimação. E quem haverá que vendo ao Filho de Deus lavar os pés aos homens com aquelas mesmas mãos em que o Padre tinha posto tudo, não lhe pareça que a olhos vistos fez mais estimação o Filho dos pés dos homens, que das dádivas do Padre?

 

Dos cristãos da primitiva Igreja diz S. Lucas, que tudo quanto tinham vendiam; e punham o preço aos pés dos Apóstolos: Afferebant pretia eorum, quae vendebrant, et ponebant ante pedes Apostolorum.

E por que lho punham aos pés, e não lhe entregavam nas mãos, se era o preço de tudo?

Para mostrar, diz S. Crisóstomo, que estimavam mais os pés dos Apóstolos, que tudo quanto devam, e quanto tinham.

Entregar-lho nas mãos, seria fazer estimação do que davam; pôr-lho aos pés, era protestar a veneração das pessoas: e como estimavam mais as pessoas que as dádivas, por isso lhas punham aos pés, e não lhas davam nas mãos:  Ponebant ante pedes Apostolorum.

Oh dádivas do Padre! Olhe pés dos homens! Oh amor e estimação de Cristo!

O Padre deu tudo quanto tinha ao Filho, e não lho pôs aos pés, senão nas mãos; porque estimou o que Lhe não Lho pôs aos pés, senão nas mãos; porque estimou o que Lhe dava, quanto a mesma dádiva merecia, pois era tudo quanto tinha Deus. E que este tudo do Padre, de que estavam cheias as mãos do Filho, o pusesse o Filho, e mais as mãos aos pés dos homens!

O que podia daqui inferir o discurso, se não tivesse mão nele a fé, é que prezou Cristo mais os pés dos homens, que as dádivas do Padre.

Mas o certo, e a verdade, é que não foi nem podia ser assim.

Amou e estimou o Filho sumamente as dádivas de seu Padre, tanto pelo que eram em si, como pelas mãos de quem vinham. Porém esta mesma estimação não desfaz, antes reforça mais o mesmo discurso, porque dele se infere estima com sobrestimação, e amor sobre amor.

Quando a Madalena pôs aos pés de Cristo os alabastros, os ungüentos, os cabelos, os olhos, as lágrimas, as mãos, a boca, e a si mesma, não foi porque não estimasse tudo isto, senão porque tudo isto era o que mais estimava.

E que conseqüência tirou dali, não outrem, senão o mesmo Cristo?

Quoniam dilexit multum.

De pôr tudo que mais estimava, e a si mesma, a seus pés, inferiu o Senhor o grande excesso com que amava.

E assim era.

Porque quando o que se preza muito em um amor põe aos pés do outro, então se prova que este segundo é maior. Logo, se assim o inferiu Cristo, por que não inferimos nós o mesmo?

Se tudo quanto o Padre pôs nas mãos do Filho, e as mesmas mãos, e a Si mesmo prostrado em terra, põe o Filho aos pés dos homens, como não há de parecer que os homens são os que mais estima, e os homens o que mais ama?

 

Do mistério humilde do Lavatório, passou o Senhor ao altíssimo do Sacramento, e aqui se declarou seu amor muito mais por parte dos homens.

E por que?

Porque para o Padre instituiu o Sacramento como sacrifício, para os homens instituiu o sacrifício como Sacramento: e posto que o mistério seja o mesmo, maior amor se ergue dele enquanto Sacramento do que enquanto sacrifício.

Como sacrifício consome-se; como Sacramento conserva-se: como sacrifício é ação transeunte; como Sacramento permanente: como sacrifício tem horas do dia certas; como Sacramento é de todo o tempo, de dia e de noite: como sacrifício não se aparta do altar, e de sobre a ara; como Sacramento sai às ruas, e entra em nossas casas: como sacrifício, enfim, tem por fim o culto e adoração do Padre; como Sacramento a presença, a assistência, e a união com os homens: vede a diferença do amor na mesma instituição, e na mesma mesa, que foi a mesa e o altar: Tibi ao Padre? Gratias agens. Discipulis, aos homens? Accipite, et comedite.

Ao Padre deu as graças, aos homens fez o banquete: ao Padre ofereceu-se, com os homens uniu-se.

 

Vai por diante a prática, vai-se desafogando o amor, e sempre em novos argumentos em favor dos homens.

Desenganados os Discípulos da partida, por parte da obediência ao Padre, forçosa, e por parte dos seus interesses, conveniente; outro motivo com que o benigníssimo Senhor os consolou, foi a promessa de que ainda O haviam de tornar a ver, se bem por breve tempo: Iterum modicum, et videbitis me, quia vado ad Patrem.

Da inteligência destas palavras duvidaram com tal admiração os Discípulos, que se perguntavam uns aos outros: Quid est hoc, quod divit nobis: modicum, et quia vado ad Patrem?

E finalmente se resolveu entre todos, que nenhum deles sabia nem podia entender o que o Senhor dizia: Nescimus quid loquitur.

Notável caso!

 

Uma parte dizia que Cristo Se partia para o Padre: Quia vado ad Patrem: a outra parte dizia que o tempo que Se detivesse na Terra com os Discípulos, havia de ser pouco: Modicum, et videbitis me:  e que o tempo desta demora, sendo tempo que dilatava a Cristo a ida para seu Padre, houvesse de ser pouco, e muito pouco ( que isto quer dizer modicum), esta era a dificuldade que os embaraçava, e se não deixava entender.

E por que?

Porque dela se inferia, por natural conseqüência, uma grande implicação no amor de Cristo, a qual depois se declarou ainda mais, mostrando a experiência que aquela demora ou tardança, foi de quarenta dias.

Não há coisa que mais alargue o tempo na ausência e na saudade, que a dilação: as horas se fazem anos, e os dias séculos.

 

O tempo define-se: Mensura primi mobilis: a medida do primeiro móvel: e o primeiro móvel neste mundo pequeno, que chamamos homem, é o coração.

Daqui vem, que, segundo os movimentos do mesmo coração, pode o mesmo tempo, com diferentes respeitos, ser longo e breve.

 

Esta foi na competência de um dia com outro dia, e de um amor com outro amor, esta foi a igualdade do dilexit do Padre: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret:  e esta a igualdade do dilexit  do Filho:  Suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.

Mas nesta mesma igualdade em que se não conhece vantagem, consistiu (como prometi) a vitória do amor de hoje.

E por que, ou como?

Porque Cristo, pela parte que tem de homem, é menor que o Padre, como Ele mesmo nos ensinou: Quia Pater major me est: e nas batalhas de menor a maior, quando o menor iguala o maior, o igualar é vencer.

Na luta que teve Jacob com o anjo, nem o anjo derrubou a Jacob, nem Jacob derrubou ao anjo: e contudo o texto sagrado não só uma senão muitas vezes celebra a vitória de Jacob, e por ela lhe mudou Deus o nome de Jacob em Israel, dizendo: Si contra Deum fortis fuisti, quanto magis contra homines praevalebis.

Pois se Jacob não venceu o anjo, e o anjo somente reconheceu que o não podia vencer: Cum videret quod eum superare non posset; porque se atribui a vitória a Jacob?

Diga-se que não foi vencido; mas não se diga que venceu. Antes porque não foi vencido, por isso mesmo se diz que venceu; porque nas batalhas de menor a maior, o não ser vencido é vencer.

Se a luta fora de homem a homem, ou de anjo a anjo, então era necessário derrubar um ao outro para ficar vencedor; porém como era de homem a anjo, e de menor a maior, a igualdade no menor foi vitória, e o não ser vencido vencer.

Mas quem era este anjo, quem era este Jacob, e qual foi esta batalha?

O anjo representava ao Padre, que por isso disse: Si contra Deum fortis fuisti: Jacob representava a Cristo, que muitas vezes na Escritura se chama Jacob, e a batalha era de amor, que por essa razão foi luta, que são abraços.

E como nesta competência amorosa nem o Padre pode vencer o Filho, nem o Filho vencer o Padre, bem se conclui da mesma igualdade do amor de ambos, que toda vitória ficou pelo dilexit de hoje. In finem: treslada S. Crisóstomo: In victoriam dilexit eos.

 

Senhor Jesus: já que hoje está vosso amor tão vencedor de tudo, vença também e triunfe destes corações, tão duros, tão ingratos, tão cegos. Abrandai, Senhor, esta dureza, convertei esta ingratidão, alumiai esta cegueira: trocai e transformais de uma vez a rebeldia destas vontades, para que só a Vós amem, só a Vós queiram, só a Vós desejem, só por Vós suspirem, só de Vós esperem, só em Vós vivam, só por Vós morram: até que chegue aquela última e feliz hora de passar convosco deste mundo ao Padre: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem; onde Vos vejam, onde Vos gozem; onde Vos amem sem fim: In finem dilexit eos”.

 

Aforismo de Nietzsche explica como se mente com toda a inocência

Em aforismo de Humano, demasiado humano, Friedrich Nietzsche faz algumas reflexões sobre a mentira que contribuem para uma compreensão mais ampla e profunda do atual momento político nesta terra brasillis.

O filósofo alemão começa indagando-se por que, na vida cotidiana, os homens normalmente dizem a verdade?

Certamente para espanto de muitos dos seus leitores, afirma que isto ocorre, em primeiro lugar, porque é mais cômodo:

“A mentira exige invenção, dissimulação e memória” – observa.

E comenta ser esta a razão por que, segundo Jonathan Swift, autor de As Viagens de Gulliver, quem conta uma mentira raramente nota o fardo que assume; pois para sustentar uma mentira ele tem que inventar outras vinte.

A segundo razão para a opção preferencial pela mentira vem de que – escreve Nietzsche – é vantajoso, em circunstâncias simples, falar diretamente “quero isto, fiz isto” e coisas assim; ou seja, porque a via da imposição e da autoridade é mais segura que a da astúcia.

 

Vou adiar um pouco a conclusão do aforismo para registrar que ele me veio à mente ao ler, no dia 21/5/2008, um post no blog do jornalista Ricardo Noblat em que este se revela indignado com a banalização da mentira no âmbito do Congresso Nacional, mais especificamente na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga denúncias de uso indevido de cartões corporativos.

Indignado, Noblat resumiu da forma que se segue o que rolou na reunião durante a qual foram ouvidos José Aparecido Nunes, ex-chefe da Secretaria de Controle Interno da Casa Civil da presidência da República, e André Fernandes, assessor do senador Álvaro Dias, personagens do episódio batizado na mídia como “dossiê FHC”:

 

“Dessa vez conseguiram a proeza de desmoralizar a mentira.

No passado, a mentira era tratada com respeito, solenidade, tapete vermelho, reverência, vênia. Ninguém saía por aí improvisando mentiras. Se o fizesse, pegaria mal – e as mentiras, de sua parte, não pegariam. Havia até um certo sentimento de admiração coletiva diante de quem mentia muito bem.

Tristes tempos esses em que a mentira acabou no esgoto”.

  

Em post que publicou algum tempo depois no mesmo dia, Noblat foi ainda mais brilhante na avaliação do espetáculo protagonizado por “um Zé Aparecido e um André”, que intitulou assim:

 

“Sai o “eu não sabia”. Entra o “eu não quero saber”.

 

Em suma, ele contou que André pediu cinco minutos de sessão secreta para fazer algumas “graves revelações” e os doze membros da bancada do governo na CPI disseram não.

 

Na síntese do próprio Noblat: “Por gasto, o “eu não sabia” perdeu a graça, admito. Eles inventaram o “eu não quero saber”.

 

De volta ao aforismo de Nietzsche, traduzido por Paulo César de Souza, proponho que se leia o que ele escreve em conclusão trocando a criança por um militante do PT, por exemplo:

 

“Mas se uma criança foi educada em circunstâncias domésticas complicadas, então manipula a mentira naturalmente, e involuntariamente sempre diz o que corresponde a seu interesse; um sentido para a verdade, uma aversão à mentira lhe é estranha e inacessível, e ela mente com toda a inocência”.

  

P. S. Aquele que mente com freqüência e de modo eficiente se expõe ao risco de esquecer que não há mérito em parecer inteligente por conta de ser indecente.

 

 

A pior consequência da revolta é tornar o sofrimento inútil

Escrevo também que o estúpido bem-intencionado causa tanto dano quanto o irresponsável lúcido; com a desvantagem de não saber disso.

Isto vale igualmente para o inculto e se aplica como uma luva ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

É compaixão o que sinto quanto constato através das freqüentes declarações estapafúrdias que hoje o caracteriza o quanto ele sofre por não ter estudado mais.

E constato que entre os formadores de opinião poucos são transigentes com os muitos equívocos dele que decorrem diretamente da falta de cultura.

Da falta de cultura efetiva e não da cultura inserida no conceito folclórico e eleitoreiro segundo o qual tudo é cultura e que não basta sequer para impor respeito à famosa “lagoa escura arrodeada de areia branca” localizada na Bahia, onde ele é componente subjacente de uma campanha oficial.

 

Incapazes de compreender que a necessidade de moradia para elas não é necessariamente mais importante do que a preservação da área onde está localizada a referida lagoa, na semana passada – e não é a primeira vez que isto acontece – dezenas de pessoas construíram barracos sobre as areias eternizadas nos versos escritos e cantados por Dorival Caymmi.

Mais interessados em iludir do que em instruir, os mentores da campanha da Secretaria da Cultura não se deram conta de que a tese de que tudo é cultura não leva o ignorante a respeitar aquilo que efetivamente é cultura.

Conforme se viu, para muitos a Lagoa do Abaeté, por exemplo, não é.

E foi preciso chamar a Polícia.

 

Decidi escrever este post após ler no site da Revista Consultor Jurídico, no último dia 20/5/2008, uma matéria sob o título “Lula diz que Justiça e MP emperram desenvolvimento”, na qual se informa que durante cerimônia de assinatura de atos relativos a obras do Programa de Aceleração de Crescimento na Baixada Santista ele “reclamou e pressionou o Judiciário, o Ministério Público e o Legislativo pela desburocratização e por agilidade no licenciamento ambiental de obras”.

Singelamente, vamos dizer assim, ele se queixou de que uma palavra errada num projeto pode atrasar a tramitação da obra em muitos meses, como se uma palavra certa não pudesse transformar os doze mil metros quadrados do Parque Metropolitano do Abaeté numa favela.

Minha solidariedade para com o sofrimento do Presidente que decorre diretamente da ignorância dele – afinal, talento sem cultura é ouro lá na mina – foi despertada pela frase final do último parágrafo da referida matéria, que é o seguinte:

“Para finalizar, o presidente Lula atacou as Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas, a Câmara dos Deputados e o Senado. Para o chefe do Excutivo brasileiro, “muitas vezes eles aprovam coisas achando que estão resolvendo e, na verdade, estão atrapalhando”. Só faltou dizer que o Executivo é o único que funciona e que este país nunca teve outro igual.”

 

Diz-me o que você faz com a cadeira…

Quem não pretende para si o custo de conviver com uma pessoa relaxada nos muitos sentidos associados a este adjetivo comece por excluir da lista estas pessoas incapazes de recolocar no lugar uma cadeira que utilizam numa lanchonete, restaurante, num bar.

 

É do mesmo tipo que estaciona o carro sobre as calçadas, impedindo a passagem de pedestres; que faz do seu próprio carro uma lixeira; deixa roupa íntima no banheiro; espalha resto de comida pela sala; entope o vaso sanitário e a pia…

 

Enfim, é do tipo que se vangloria de prender o elevador.

 

O amor dos homens, ou míngua, ou cresce, ou pára!

Tenho constatado que a maior parte das pessoas que passam por este Trevo do Talvez o faz predominantemente como conseqüência de buscar conteúdos relacionados a duas questões que podem ser sintetizadas da seguinte forma: De que forma lidar com o sentimento amoroso?  / O que fazer para me tornar efetivamente uma pessoa culta? Considerando que no conjunto dos chamados Sermões do Mandato escritos pelo padre António Vieira há muito das duas coisas, motivo-me a cumprir mais uma etapa do compromisso de publicar aqui a síntese que elaborei, conforme contei ao publicar o primeiro deles.

 

Sermão do mandato 4 – Pregado às onze horas da manhã na Misericórdia de Lisboa, em 1655.

 

Sciens quia Deo exvit, et ad Deum vadit: Cum dilexisset suos, infinem dilexit eos.

 

“Grande dia! Grande amor! Depois que o Eterno se fez temporal, também o amor divino tem dias.

O evangelista S. João querendo-nos declarar a grandeza e grandezas do mesmo amor neste dia, a primeira coisa que ponderou com tão alto juízo como o seu, foi ser um dia antes de outro dia: Ante diem festum Paschae.  Tanto pode acrescentar quilates ao amor a reflexão ou circunstâncias dos dias!

E que farei eu?

Dois dias hei de combinar também hoje, mas não o dia de antes com o dia de depois, senão o dia de depois com o dia de antes: e não livremente ou por eleição própria e minha, senão por obrigação forçosa dos mesmos dias.

Assim como depois de um longo círculo de anos se encontram e ajuntam dois planetas a fazer uma conjunção magna, assim no ano presente concorrem e se ajuntam hoje no mesmo dia os dois maiores mistérios e os dois maiores dias: o dia da Encarnação do Verbo, e o dia da partida do mesmo Verbo encarnado.

O dia da Encarnação do Verbo: Sciens quia a Deo exivi,  que foi o princípio do seu amor para com os homens:  Cumn dilexisset suos: e a partida do mesmo Verbo encarnado:  Et ad Deum vadit,  que foi o fim sem fim do mesmo amor:  In finem dilexit eos.

 

Cum dilexisset, dilexit.

 

Nestas palavras (como dizia) deixou o Evagelista indecisa, a nossa questão, porque não disse, como amasse mais, amou menos; nem como amasse menos amou mais; senão, como amasse, amou.

 

O amor dos homens, ou míngua, ou cresce, ou pára: o de Cristo nem pode minguar, nem crescer, nem parar, porque é, foi e será sempre amor perfeito, e por isso sempre o mesmo, e sem alteração nem mudança.

 

Os homens amamos os objetos pelo bem que têm; Deus ama-os pelo bem que lhes faz.

 

Sem temeridade, nem temor, digo e afirmo, que maiores foram os extremos do dia de hoje, que os do dia da Encarnação.

E por quê?

Porque se no dia da Encarnação foi grande extremo de amor descer Deus do Céu à Terra:  Descendit de coelis:  muito maior extremo foi no dia de hoje lavar Cristo os pés aos homens:  Coepit lavare pedes discipulorum.

E se foi grande extremo de amor no dia da Encarnação fazer-se Deus homem: Et homo factus est: muito maior extremo foi no dia de hoje deixar Cristo seu Corpo no Sacramento, para que o comessem os homens, como fez na Ceia: Et caena facta.

Estes serão os dois pontos do nosso discurso, em que ele descobrirá muito mais do que aparece no que está dito.

 

O que todos encarecem no dia da Encarnação, é humilhar-se Deus a Se fazer homem, mas é certo que este ato não foi de humildade; o lavar Cristo os pés dos homens, sim, é a maior humildade de todas.

E por que não foi humildade o fazer-Se Deus homem?

Porque Deus não é humilde, nem pode ser humilde.

Humildade essencialmente é o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição, e da própria miséria; e sendo Deus suma independência, suma perfeição, e suma felicidade, nem é nem pode ser humilde.

Como dizem logo todos os santos que Deus se humilhou, neste grande ato?

Porque Se humilhou por humilhação e não por humildade.

De el-rei Acab disse Deus ao Profeta:  Nonne vidisti humiliatum Achab?  Não viste humilhado a Acab?

E Acab não era humilde, nem tinha humildade: mas estava naquele caso humilhado, não por humildade senão por humilhação.

A este modo (mas por diviníssimo e santíssimo) Se humilhou também Deus, quando Se fez homem, porque até então nem era nem podia ser humilde. Porém no primeiro instante da Encarnação ou no segundo depois de encarnado (como querem outros teólogos) então começou também a ser humilde, e sumamente humilde, como hoje mostrou mais que nunca.

Onde se deve notar, que este grande extremo de humildade, depois da humilhação de Se fazer homem, não só foi conseqüência do novo estado, senão obrigação. Porque se Deus antes de ser humilde Se humilhou tanto que Se abateu a ser homem, segue-se que depois de ser humilde tinha obrigação de se humilhar muito mais.

Obrigado pois Deus a Se humilhar mais do que Se tinha humilhado; que havia de fazer?

Só lhe restava o que hoje fez. Ajoelha-se diante dos homens e lava-lhes os pés com suas próprias mãos, porque só prostrado aos pés dos homens Se poderia humilhar mais do que Se tinha humilhado, fazendo-Se homem.

Esta conseqüência, como forçosa, a que a humilhação do primeiro mistério obrigou e empenhou a Cristo para a humildade do segundo, reconheceu profeticamente David, quando disse: Abyssus abyssum invocat: que um abismo chama outro abismo.

Abismo já sabeis que é um pego imenso e profundíssimo, que como aquele de que fala a Escritura na primeira criação dos elementos:  Et tenebrae erant super faciem abyssi.

E que dois abismos foram estes, em que o primeiro chamou pelo segundo?

Não dissemos ao princípio que o dia da Encarnação se falava com o dia de hoje: Dies diei eructat verbum?

Pois quando estes dois dias se falaram, então chamou o mistério da Encarnação pelo mistério do lavatório dos pés, e estes foram os dois abismos.

O primeiro abismo foi a Encarnação do Verbo, porque fazendo-Se Deus homem, se abismou e sumiu de tal sorte a divindade na natureza humana que desapareceu totalmente, e por isso estando dentro nela, não aparecia.

O segundo abismo foi o lavatório dos pés, porque tendo-Se Cristo sumido na Encarnação, enquanto Deus, lançado depois aos pés dos homens, também Se sumiu ali, enquanto homem.

 

Profetizando Isaías o mistério da Encarnação do Verbo com palavras mais expressas e circunstâncias mais singulares que todos os outros profetas, disse, que uma Virgem conceberia e pariria um Filho, o qual se chamaria Emanuel: Ecce Virgo concipiet, et pariet Filium, et vocabitur nomen ejus Emmanuel.

Nesta última palavra repararam muito os pouco versados na frase da Escritura. Cristo, Senhor nosso, não se chamou Emanuel, chamou-se Jesus: como diz logo o profeta, que o Filho que nascesse de uma Virgem, se havia de chamar Emanuel?

Mas este reparo como digo, é por ignorância da frase hebréia.

Na língua hebraica assim como as coisas se chamam palavras, Verba, assim o chamar-se significa ser, e isso quer dizer vocabitur.

Da mesma frase usou o anjo no mesmo dia e mistério da Encarnação anunciando à Virgem que o que de suas puríssimas entranhas havia de nascer, se chamaria Filho do Altíssimo, senão: Filius Altissimi vocabitur: sendo assim, que Cristo por humildade não Se chamaria Filho do Altíssimo, senão: Filius hominis: Filho do homem.

Mas falaram por esta frase, assim o profeta como o anjo no mesmo caso, porque vocabitur quer dizer será.

Suposto pois que o chamar-se significa ser, e o nome se toma pelo significado; que quis significar o profeta quando disse que o Filho que nasceria de uma Virgem, se havia de chamar Emanuel?

Emanuel quer dizer: Nobis cum Deus: Deus conosco, e isto é o que anunciou e prometeu Isaías nesta famosa profecia, dando por nova aos homens, tão admirável como certa, que aquele mesmo Deus, cuja majestade Se conservou sempre tão retirada e longe de nós, sem jamais Se abalar nem sair do Céu, agora Se havia de humanar tanto, que Se fizesse homem e descesse à Terra para nela morar e estar conosco:  Nobiscum Deus.

 

Encarnou Deus por amor de nós e por amor de nossa saúde. Onde se vê claramente que o mistério da Encarnação teve dois motivos distintos: um motivo remédio, e outro motivo o amor, mas o amor primeiro que o remédio.

 

Se fazer homem, não foi tanto remédio de salvar os homens, quanto o amor e desejo de estar com eles: Nobiscum Deus.

Este foi o motivo mais efetuoso, este o afeto mais fino, esta a fineza mais subida de ponto, com que o amor divino no dia da Encarnação, e logo em seu princípio, mostrou o fim com que trouxera a Deus à Terra.

 

Por mais que vosso divino amor no dia da Encarnação se mostrasse tão fino e tão puramente amoroso, nem eu posso deixar de dizer, nem Ele pode negar, que no dia de hoje foi amoroso sobre amoroso, e amor sobre amor.

Por quê?

Porque naquele dia encarnastes para estar conosco: Nobiscum Deus; neste dia Vos sacramentastes, não só para estar conosco, senão também para estar em nós: conosco nesse altar onde Vos adoramos; e em nós entrando em nosos peitos, onde Vos recebemos.

 

São Lourenço Justiniano falando de Cristo Sacramentado com alusão ao texto de Isaías, disse elegantemente: Díspar modus, et idem Emmanuel: que assim como na Encarnação foi Emanuel, também é Emanuel no Sacramento, só com diferença de modo.

E qual é a diferença?

Muitas, como já disse; mas a principal e maior de todas é, que na Encarnação foi Emanuel, e Deus conosco, mas com liberdade de nos deixar, antes com pressupostos de o fazer assim, como ele mesmo disse: Exivi a Patre, et veni in mundum, iterum relinquo, et vado ad Patrem.

Porém no Sacramento é Emanuel, e Deus conosco, não só em liberdade para Se afastar de nós, mas com obrigação inviolável, fundada em sua própria promessa, de nunca jamais nos deixar, e estar conosco até o fim do mundo: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi.

Em suma, resumindo tudo a duas palavras: na Encarnação foi Emanuel, e Deus conosco em uma só terra; no Sacramento em toda a parte: na Encarnação para poucos; no Sacramento para todos: na Encarnação só para os presentes; no Sacramento para os presentes, e para os futuros: na Encarnação por tempo limitado e breve; no Sacramento sem limite de duração enquanto durar o mundo, e houver homens:  Usque ad consummationem saeculi.

 Logo não se pode negar, ainda na precisa semelhança de estar conosco, que muito mais fino, muito mais extremado, muito mais amoroso, muito mais amorável, muito mais amante, muito mais amigo, e muito mais amor se mostrou o de Cristo hoje, que no dia da sua Encarnação.

 

No dia da Encarnação, tomando Deus a carne da Virgem Santíssima, encarnou em uma só humanidade, que foi a de Cristo; e hoje dando-nos Cristo sua própria carne no Sacramento, encarnou em todos os homens, que somos nós os que comungamos.

É pensamento profundíssimo de S. João Damasceno, S. Pascásio, Ruperto e outros padres.

As palavras do santo, que os autores latinos comumente ou não referem, ou alegam mutiladas por efeito dos tradutores, tiradas do original grego, em que foram escritas, são estas: (Vamos por partes) Ex nostra (Deus) generatus est substantia:  O Verbo fazendo-Se homem, assim como fora gerado  ab aeterno da substância de Deus, assim na Encarnação foi gerado em tempo da nosso própria substância:  Sed nihil hoc (iniquies) ad omnes pertinet:  Mas dir-me-eis (insta Crisóstomo) que isto pertence somente a Cristo, e não a todos nós:  Imo adomnes

Digo, e torno a dizer, que a todos.

E por quê?

Nam si ad naturam nostram descendit, patet quod ad omnes: quod si ad omns: et ad unumquemque profecto.

Porque se Deus tomou a nossa natureza encarnando, segue-se que a mesma Encarnação se estendeu a todos, também a cada um.

Quando aqui cheguei, descontentou-me a razão e argumento de Crisóstomo; porque se Deus Se unira à natureza humana em comum, então se seguia bem, que a mesma união se comunicasse a todos os indivíduos: mas Deus não uniu a Si a natureza em comum, a qual não é assumptível, e só tomou e uniu à substância divina a humanidade de Cristo, que é singular, e não comum.

Explica-se Crisóstomo admiravelmente, passando do mistério da Encarnação ao do Sacramento: Singulis enim fidelibus per hoc mysterium se commiscet, et quos peperit, non aliis nutriendos tradit, sed ipse studiosissime alit, hac etiam re tibi persuadens carnem illam tuam assumpsisse.

É verdade que Deus na Encarnação não tomou a natureza humana em comum, senão uma humanidade particular; mas essa mesma humanidade, essa mesma carne unida à divindade, fê-la Cristo universal e comum, dando-a no Sacramento a todos os fiéis, e unindo-os realmente consigo: e como ficam unidos, e encarnados com Cristo, a mesma Encarnação do Verbo se estende e multiplica em todos nós.

 

A palavras de Ruperto também são dignas de se não passarem em silêncio: Assumpserat hominem in Deum, quando Verbum caro factum est ut per eum essemus in illo:sed nec dum illi admiscuerat, se per carnem suam nobis ut singuli, membra in illo, unum essemus corpus.

 Quer dizer: Quando Deus Se fez homem, foi para que por meio da carne do Verbo nos unisse a Si, e fôssemos a mesma coisa com Ele. Mas isto não se efetuou no ato da Encarnação, em que o corpo de Deus e os nossos eram diversos; mas ficou reservado para a instituição do Sacramento, em que unindo-se Cristo por meio da sua carne a cada um de nós, todos como membros seus ficamos um só corpo.

Baste de autoridades posto que tais e tão grandes, que elas bastavam.

Vamos às Escrituras e à experiência.

 

Só me podem opor e dizer os doutos, que todas as vantagens ou finezas, em que o amor de hoje parece vencer o amor da Encarnação, se hão de referir à mesma Encarnação, e ao amor daquele dia, porque a mesma Encarnação foi o princípio e fundamento de todas, pois se Cristo não encarnara, também Se não pudera consagrar, nem deixar no Sacramento. Respondo que não se segue tal coisa. E ouvireis agora o que porventura nunca ouvistes.

 

É verdade que o corpo e sangue que Cristo consagrou hoje, foi o mesmo que na Encarnação tinha tomado: mas consagrou-o por tal modo tão absoluto e tão independente da mesma Encarnação, que se dantes não houvera encarnado, encarnara então sem mãe nem genealogia, e existiria sacramentado.

Logo, ainda que o Senhor no dia de hoje nos deu a mesma carne e o mesmo sangue que tinha recebido no dia da Encarnação, nem por isso a grandeza e suposição daquela obra diminui nada as vantagens desta, porque de tal modo a supôs, como se a não supusera. Encarnado naquele dia sim, com grande amor: Cum dilexisset suos; mas sacramentado hoje com maior amor:  In finem dilexit eos.

 

Muito tempo há que devera ter acabado.

Amém”.