Arquivo para Junho, 2008

As visitas do príncipe Naruhito e uns haicais sobre o inverno no Sul do Brasil

 Repórter da Folha de Londrina, participei da cobertura jornalística da visita do príncipe Naruhito Denka ao Paraná, em 1982, especificamente a duas das quatro cidades onde esteve no dia 10 de outubro: Rolândia e Londrina. Faço este registro a propósito da sua presença no Brasil, desta vez para participar das comemorações do centenário da imigração japonesa.

Meu objetivo principal neste momento é publicar neste Trevo do Talvez, conforme disse que o faria, alguns haicais relacionados diretamente ao Inverno brasileiro, que geologicamente estará de volta a partir desta sexta-feira, 20, e que escrevi ao longo dos anos que morei no Sul do país, especialmente no Paraná. 

Tendo como pretexto a presença entre nós de Sua Alteza Imperial e como forma de louvar o elevado grau de civilidade do povo nipônico, decidi anteceder a publicação dos haicais da reprodução do relato de um incidente citado em vários jornais do Japão, conforme fui informado por integrantes de uma comissão encarregada de ir à sede do jornal onde eu trabalhava no dia seguinte à publicação da reportagem sobre a visita dele ao Paraná para apresentar um pedido formal de desculpas. 

Eis:  

“O almoço como sacrifício 

Os organizadores da visita do príncipe Naruhito Denka, especialmente os responsáveis pelo almoço que lhe foi oferecido na sede da Associação dos Funcionários Públicos Municipais em Londrina, esqueceram de incluir repórteres, fotógrafos e cinegrafistas encarregados da cobertura jornalística da visita do nobre japonês a Londrina e Rolândia entre pessoas que costuma fazer refeições em ambientes dignos.

Ambiente digno não significa necessariamente o mesmo ambiente considerado digno de abrigar um nobre durante um almoço; nem os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas esperavam, ou sequer julgaram-se no direito de tal atenção. O que se lamenta, e se lamenta profundamente, é que tenham sido convidados nestes termos:

“Se desejarem comer alguma coisa podem se dirigir à sala ao lado da cozinha”.

A sala indicada não estava preparada para receber qualquer pessoa para fazer uma refeição de uma maneira que possa ser classificada de digna. Tratava-se precisamente da sala de jogos da associação e foi ali que aqueles que não puderem suportar a fome tiveram que “comer” as “coisas” que lhes foram mal servidas, se é que se pode dizer que foram servidas. De pé ou sentados sobre mesas de sinuca, muitos se submeteram ao se pode classificar de “sacrifício de almoçar”. Outros preferiram o sacrifício efetivo de ficar com fome até a partida do príncipe, quando, num lugar realmente digno, comeram um sanduíche.”

 

E agora os haicais:

 

 

Céu cinza.

Pintando o Inverno,

um Ipê cor-de-rosa.

 

 

 

 

Imóvel, a névoa do Inverno envolve tudo;

impressionista, a luz do pôr-do-sol porto-alegrense

pinta à la Monet ao longo do Guayba.

 

 

Vestidas de rosa,

Azaléias avisam:

O Inverno voltou.

 

 

Maltrapilho,

mancando,

magro,

imundo,

um curativo branco cobre a orelha direita.

Sob chuva e frio,

passa um retrato vivo de Van Gogh.

 

 

Uma tarde cinza;

uma Borboleta amarela e preta

beija uma Azaléia rosa.

 

 

Rush de carro e gente;

o olhar foge, sobe e pega

no roxo do Jacarandá.

 

 

Em forma de chuva,

as Sibipirunas se despem;

metade do Inverno passou.

 

 

Cinamomos floridos,

Curitiba molhada…

Dê uma olhada!

 

 

 

 

Este é aquele mistério ou enigma grande do amor

Conforme prometido, chego ao último dos chamados Sermões do Mandato, cuja síntese eu elaborei a pretexto de mostrar a um ex-colega de trabalho a imensa afinidade entre a arte retórica de João Crisóstomo e António Vieira. Para que se compreenda o conteúdo do P. S. que se segue à publicação da síntese deste 6° Sermão é indispensável a leitura da introdução à síntese do 1° que se encontra na primeira página deste Trevo do Talvez.

 

Sermão do mandato 6 – Pregado em Roma, na igreja de Santo Antônio dos Portugueses,

no ano de 1670.

 

Scien Jesus venit ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem cum dilexisseet suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.

 

“Este é aquele texto saudoso e suavíssimo: este é aquele mistério ou enigma grande do amor, tantas vezes repetido nesta hora, tantas vezes e tão sutilmente interpretado, mas nunca assaz entendido.

Diz o evangelista S. João que se parte Cristo, e que nos ama. Que se parte: Ut transeat ex hoc mundo: que nos ama: In finem dilexit eos.

Mas se nos ama, como se parte? Se nos ama, como se ausenta de nós?

Mais diz o Evangelista. Não só diz que nos ama Cristo, e que se parte; não só diz que nos ama, e que se ausenta de nós, senão que nesta mesma hora em que se partiu, nesta mesma hora em que se ausentou, havendo-nos amado sempre tanto, então, ou agora nos amou mais: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo, cum dilexisset suos, infinem dilexit eos.

Se dissera isto outro Evangelista, não me admirara tanto. Mas João, a água do entendimento, e a fênix do amor? João, o secretário do peito de Cristo? João, aquele discípulo que entre todos soube melhor amar, e mereceu ser mais amado; que me diga se parte Cristo, que se ausenta, que nos deixa, que se vai de nós, e que nos ama? Que nos ama, e que agora nos amou mais? Não o entendo.

Se me dissera S. João que se ausentava Cristo, porque estava arrependido de nos amar: que se ausentava porque aqueles primeiros extremos do seu amor, o tempo, que acaba tudo, os acabara: se me dissera que obrigado de nossas más correspondências, que ofendido de nossos desprimores, que cansado de nossas ingratidões, que desenganado de nossa pouca fé, já nos aborrecia, ou já nos desamava, e que por isso deixa o mundo, e se ausenta dos homens: se isto me dissera S. João, sentira-o eu muito; mas conhecera a razão e a conseqüência.

Confessaria, e confessaríamos todos, que obrava Cristo como quem é, e que nos tratava como quem somos. Amou-nos sem o merecermos; ausenta-se, porque lhe merecemos. O amor o trouxe, o desamor o leva; por isso se vai, e nos deixa.

Mas que diga o Evangelista, constantemente, que não é desamor, senão amor, e que quando Cristo se ausenta de nós, então obrou a maior fineza, então subiu ao maior extremo, então chegou ao último fim, aonde podia chegar amando: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos?

O verdadeiro entendimento desta amorosa implicação, será a matéria do nosso discurso; e a mesma razão de duvidar nos dará a solução da dúvida. Veremos com assombro de todas as leis do amor, como o maior extremo do amor de Cristo para conosco foi o ausentar-se de nós.

É o que dizem as palavras do texto: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo: eis aí o ausentar-se de nós: Cum dilexisset, in finem dilexit eos, eis aí o maior extremo de seu amor. Parece paradoxo, mas é extremo.

Amou Cristo tanto aos homens, que os deixou, e se foi: parece paradoxo. Amou Cristo tanto aos homens, que chegou por eles a apartar-se deles: este é o extremo; e é isto o que diz o Evangelista.

Nos homens a hora da partida é o fim do amor: em Cristo o fim do amor foi a hora da partida: Sciens quia venit hora ejus, in finem dilexit eos.

Dizer menos, é descer; subir mais, não há para onde.

E como este foi o ponto mais alto onde pôde chegar o amor de Cristo, este será também o ponto único em que começará e acabará o nosso discurso.

Peçamos ao mesmo Amor, pelos merecimentos daquele coração que só o soube corresponder dignamente, nos assista nesta hora sua com a sua graça: Ave Maria.

 

Ut transeat ex hoc mundo, in finem dilexit eos.

Amou Cristo tanto os homens, que chegou por eles, a afastar-se deles.

Este é o meu assunto: e este digo que foi o maior extremo do amor de Cristo”.

 

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca: para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára.

Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho.

Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar?

Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar, mas se é excessiva, faz emudecer: a luz faz ver; mas se é excessiva, cega: a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata.

Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide: Fortis est ut mors dilectio: o amor, diz Salomão, é como a morte.

Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte?

O mesmo Salomão se explicou.

Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte: Fortis est ut mors dilectio: e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários.

É união e produz apartamentos.

 

O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos.

 

O amor, enquanto unitivo, é como a vida; enquanto forte, é como a morte. Enquanto unitivo, por mais distantes que sejam os extremos, ajunta-os: enquanto forte, por mais unidos que estejam, aparta-os.

Antes da Encarnação do Verbo, quais eram os extremos mais distantes? Deus, e o homem. E que fez o amor unitivo? Trouxe a Deus do Céu à Terra, e uniu Deus com os homens.

Depois da Encarnação, quais eram os extremos mais unidos? Cristo, e os homens. E o que fez o amor forte? Leva hoje a Cristo da Terra ao Céu: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem: e apartou a Cristo dos homens: Exivi a Patre, et veni in mundum: eis aí o amor unitivo: Iterum relinquo mundum, et vado ad Patrem: eis aí o amor forte.

É o que diz o Evangelista: Cum dilexisset, dilexit.Houve diferença nos tempos, mas não houve mudança no amor. Cristo unido com os homens, amor: Cum dilexisset: Cristo apartados dos homens, também amor, e maior amor: In finem dilexit eos.

Já temos mostrado ao amor, que pode ser amor, e grande amor o afastar-se. Agora abra mais os olhos o mesmo amor, e veja que não só é amor, e grande amor, senão o maior de todos: In finem.

 

Qual é a razão por que apartar-se Cristo de nós , e apartar-se quem ama de quem ama, é o maior extremo a que pode chegar o amor?

A razão é esta. Porque o amor do que se ama, prova-se pelo amor do que se deixa: e não pode deixar mais o amor, que chegar a deixar pelo amado ao mesmo amado.

A pedra-de-toque do amor é um amor com outro.

Quis Deus provar o amor de Abraão, tocou-o com o amor de Isaac, a quem amava como filho. Quis David provar o amor de Jônatas, tocou-o com o amor de Saul, a quem amava como pai.

Da mesma maneira quem quiser apurar os quilates do amor, toque o amor do que se ama com o amor do que se deixa, e logo conhecerá quão fino é.

Desde o primeiro amor que houve no mundo ficou estabelecida esta regra.

 

Quem deixa tudo pelo amado, deixa tudo: mas quem deixa pelo amado ao mesmo amado, ainda deixa mais; porque chega a deixar aquele, por quem tem deixado tudo.

 

Haverá ainda quem se oponha a este extremo de fineza? Haverá ainda quem se oponha a este extremo de amor? Ainda. Ainda se opõe e resiste o mesmo amor, defendendo-se com o escudo do Sacramento e com a espada da morte. Fortes armas! Mas também os há de render ainda o amor, ainda que tão fortes e tão finas.

Alega por parte do Sacramento o amor, e defende constantemente que foi maior fineza em Cristo deixar-se que o deixar-nos; o ficar conosco, que o apartar-se de nós.

 

Para Cristo se apartar de nós, e juntamente se deixar conosco, dividiu-se Cristo de si mesmo. Grande fineza! Grande maravilha!

Mas nesta prodigiosa divisão, o amor que fez a maravilha e a fineza, não foi o amor que deixou a Cristo no mundo, senão o amor que o levou do mundo: Ut transeat ex hoc mundo.

 

Temos rendido o braço do escudo: só nos resta o da espada, que é a morte. Muito confia nesta espada o amor; porque traz escrito e gravado nela: Majorem charitatem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis.

 

E para que julgue a mesma vista dos olhos (de que carece a morte e o amor) quanto maior fineza foi no amor de Cristo o apartar-se de nós, que o morrer por nós, ponhamos o Horto defronte do Calvário, e ajuntemos o teatro da despedida com o teatro da morte.

O teatro da última despedida, ou apartamento de Cristo, foi o Vale de Getsêmani coberto das sombras da noite, onde tudo aspirava amor, tudo silêncio, tudo tristeza, tudo saudade. Aqui se apartou o amoroso Senhor de seus Discípulos, não de todos juntamente, senão de uns primeiro, e depois dos outros.

Como o golpe lhe chegava tanto à alma, não se atreveu a levá-lo todo de uma vez, foi-o dividindo por partes.

Assim se apartou o Senhor; mas não digo bem: Avulsos est ab eis, diz S. Lucas: não se apartou, arrancou-se. Tão violentamente se apartava Cristo dos homens, que o apartar-se deles era arrancar-se.

 

Saia agora a morte com algum semelhante esclarecimento, se o tem, do muito que fizesse Cristo em a padecer; e diga o que dizem dela os Evangelistas.

Porventura chegou a dizer algum Evangelista, que quando Cristo morreu, se lhe arrancou a alma? Não por certo.

O Evangelista que mais disse, foi S. Mateus. E que disse?

Emisit spiritum.  Despiu a alma.

De sorte, que quando Cristo morre, despede a alma, e quando Cristo se despede, arranca-se dos homens. Tão fácil lhe foi morrer, tão difícil o apartar-se.

 

Confesse logo a morte com o testamento de seus próprios despojos, que muito mais sentiu Cristo o apartar-se de nós, que o morrer por nós; e que se o morrer nos homens é a maior prova do amor, em Cristo o ausentar-se foi a maior fineza.

E para que nem a morte, nem outrem por ela, tenha que replicar contra esta amorosa verdade, concluamos com uma justificação autêntica do secretário do mesmo amor, que dentro e fora do coração de Cristo foi presente a tudo: e acabemos por onde começamos: Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo: Sabendo o Senhor Jesus que era chegada a hora de partir deste mundo.

Esta hora de que fala o Evangelista, era a hora da morte.

Assim o declarou o mesmo S. João no capítulo sétimo, falando desta mesma hora: Nemo misit in illum manum, quia nondum venerat hora ejus.

E no capítulo oitavo tornou a declarar o mesmo: Et nemo apprehendit eum, quia nondum venerat hora ejus.

Pois se esta hora era a hora de morrer o Senhor e dar a vida pelos homens: por que não diz: sabendo que era chegada a hora de morrer: senão: sabendo que era a hora de ausentar?

Se o intento do Evangelista era encarecer o amor do fim: In finem dilexit eos:  declare o fim do amor pelo fim da vida, e diga que amou Cristo tanto os homens, que chegou a morrer por eles.

Mas para prova e encarecimento do amor, calar o nome da morte, e ostentar o da ausência e da partida?

Sim, porque como S. João tinha as chaves do coração de Cristo, sabia o lugar que tinha nele estes dois afetos, e o preço com que lá se avaliava um e outro extremo.

O preço da morte era muito alto, porque pesava tanto como a vida; mas o da ausência era muito mais subido, porque pesava tanto como aquele por quem se dava a vida.

Por isso diz, que quando chegou a hora de partir, então amou: e não quando chegou a hora de morrer; porque era muito mais dura para o coração de Cristo a mesma hora, enquanto a hora da ausência, que enquanto hora da morte.

A hora da morte era um fim que acabava a vida; a hora da ausência era o fim que consumava o amor: Ut transeat ex hoc mundo: In finem dilexit eos.

Concluindo temos logo (não a pesar, senão muito a prazer de Cristo morto, de Cristo Sacramentado, e de Cristo amante) que o chegar a apartar-se dos homens por amor dos homens, foi o último e mais subido extremos com que os amou: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos.

F I M

 

P. S. Para que não se me acusem, Carlos Olympio, de privá-lo do confronto por comodismo, reproduzo abaixo as principais citações que recolhi na biografia de João Crisóstomo por Felix Arrarás e que fazem parte do meu Diário.

 

“Há coisa mais triste do que um mestre que tenha que dizer aos seus discípulos, como único meio de salva-los, que não reparem na vida de quem lhes fala?”

 

“Se pecardes uma segunda vez, arrependei-vos uma segunda vez; quantas vezes pecardes, outras tantas vezes arrependei-vos, e vinde procurar-me, que eu vos curarei da vossa enfermidade”.

 

“Basta já, caríssimos, de nos enganarmos a nós mesmos, dizendo que é impossível chegar a ser o que São Paulo foi. No que tange à graça de fazer milagres, decerto não haverá outro Paulo, mas quanto à perfeição da vida, pode sê-lo quem quiser. E se não o somos isto se deve exclusivamente a que não queremos”.

 

Trecho do meu Diário à época da leitura / 14-01-99: João Crisóstomo também se deu conta de que a beleza pode prejudicar a eficiência da palavra; problema de que me dei conta lendo Platão.

 

Escreve Francisco Fauss: “Às vezes sofria ao perceber que os seus ouvintes ficavam na superfície da sua pregação, empolgados pela beleza e calor da palavra, mas sem penetrar-lhe a substância”.

“De que servem – queixava-se – os meus trabalhos, se os meus ouvintes não querem aproveitar-se das minhas palavras? Muitas vezes ocorreu-me a idéia de baixar uma lei que proibisse os aplausos e mandasse escutar em silêncio. Eu vos peço, concordai comigo e estabeleçamos agora mesmo esta lei: que a ninguém seja lícito aplaudir enquanto eu estiver falando (…), que todo empenho e fervor estejam colocados em receber o que se diz”.

Neste momento, – comenta Faus – irrompem de novo os aplausos dos fieis e João, desolado, desabafa:

“Por que aplaudis? Estou dando uma lei sobre isto e nem sequer consentir em escuta-la? Esta lei seria fonte de inúmeros bens e uma escola de virtude”.

 

Sim; claro que o aplauso ocorre involuntariamente até, como conseqüência da beleza, conforme Crisóstomo deve ter compreendido.

Daí poderia tecer considerações sobre a maior eficiência do escrito em forma de máxima, epigrama, facilmente memoriável.

É meu propósito no Suporte do Forte; nada me interessa mais que a eficiência do que escrevo.

 

5-2-04 Um estudo comparativo de João Crisóstomo com Antonio Vieira dará, certamente, uma bela e esclarecedora tese de doutorado.Não que julgue demérito deste ter se inspirado naquele.

 

“Cristo deu-te o poder de ser como Ele segundo as tuas forças. Não te assustes ao ouvires isto. O que deve espantar-te é não seres como Ele”.

 

“Abrir os olhos é coisa de Deus, escutar atentamente é coisa nossa; a fé é simultaneamente obra divina e obra humana”.

 

“Mais do que o próprio pecado, o que irrita Deus é que os pecadores não sintam dor alguma dos seus pecados”.

 

“Quando falta a nossa cooperação, cessa também a ajuda divina”.

 

“Mesmo que jejues, mesmo que durmas no chão, mesmo que, por assim dizer, te mates, ainda distas muito da imagem de Jesus de Nazaré”.

 

A propósito do Dia dos Namorados, um resumo em versos de um grande amor

Sou de opinião que, pior do que passar pela vida sem viver um grande amor, por não havê-lo encontrado, é deixá-la sem viver os pequenos, por serem pequenos.

Os poemas abaixo foram inspirados por um dos três que classifico de grande.

Confesso que em alguns momentos pensei em morrer como conseqüência de viver cada um deles, fato que agora encaro como absolutamente natural.

Afinal, foram grandes!

 

Apaixonada,

pintou pelos espelhos que me amava…

E viajou. 

 

Outro dia.

Tudo cinza.

Amanhece.

Teias de aranha

e a caixa dos Correios vazia.

Vazia.

 

Passa de meia-noite.

Passa um filme idiota na TV: Plim!Plim!

Veja em que deu você viajar.

 

Domingo.

Começa a tarde.

Como ovos cozidos,

sardinha Gomes da Costa

e pão.

E penso em você,

minha inexorável,

indelével,

inefável,

Inêsquecível

paixão.

 

Tua ausência…

O tempo a passar,

tão concreto quanto o ar.

 

Oh certas horas,

tortas horas,

de qualquer dia,

qualquer lugar!

Sem pedir licença,

a lembrança entra,

senta,

impõe silêncio

e põe-se a falar,

com humor,

do melhor do ex-amor.

 

Você faz falta

nos primeiros dias.

Nos segundos também.

 

 

Estou propondo a criação do dia dos amassadores e amassadoras

Explico: um dia para homenagear quem acha que não deixa de ser importante um relacionamento baseado nuns amassos.

Sugiro que seja o dia 11 de junho.

Princípio geral: uma relação de namoro pode evoluir para uma de amasso. E vice-versa!

Para ilustrar minha proposta tomei a liberdade de fazer uma interferência numa estampa de Utamaro.

Estou com saudade do Inverno em Curitiba, mas continuo morando em Salvador

 

Tanta saudade que há dias estou torcendo que chegue logo o dia 21 de junho para me sentir autorizado a publicar uns haicais que escrevi por lá. Tanta saudade que decidi me rebelar e antecipar a publicação do que se segue.

Uma carta de Rainer Maria Rilke para todas as pessoas enamoradas

Escrevo que a natureza cuida apenas do encontro de alguns amantes; cabe ao intelecto cuidar do amor. Tanto quanto acontece no caso da incompetência, plantado sobre a ignorância até o mais profundo dos amores fenece; antes de florescer.

Sei que aos mais românticos estes pontos de vista devem incomodar um pouco. Sei também que não é fácil contestá-los.

A propósito, acabo de ler uma coletânea de trechos de cartas do poeta Rainer Maria Rilke organizada por Ulrich Baer, traduzida por Milton Camargo Mota e publicada pela Martins Fontes com o seguinte título: Cartas do Poeta sobre a Vida – A sabedoria de Rilke.

A exemplo do que ocorre com milhões de pessoas pelo planeta afora, tenho pelo autor das Elegias de Duíno,  do romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge e dos Sonetos a Orfeu profunda admiração.

Admiração que fatalmente se estenderá a muitos dos visitantes deste Trevo do Talvez que lerem até o final a carta ou trecho de carta que se segue, datada de 29 de abril de 1904 e endereçada a Friedrich Westhoff, pessoa cuja relação com o poeta não é informada no livro e não me foi possível saber de outra fonte.

 

“É improvável que haja algo mais difícil do que amar alguém – essa tem sido minha experiência recorrente. É trabalho, labuta diária, lida diária, sabe lá Deus, não há outra palavra para isso. E a isso se acrescente que os jovens não estão sendo preparados para esse tão difícil amar. As convenções tentaram transformar essa relação mais complicada e extrema em algo fácil e frívolo e criaram a ilusão de que todos seriam capazes dela. Mas não é bem assim. O amor é difícil, e é mais difícil do que outras coisas porque, em outros conflitos, a própria natureza nos exorta a nos concentrar e nos contrair com todas as forças, enquanto há na intensificação do amor o estímulo para que nos entreguemos completamente. Mas realmente pode haver beleza nisto: entregar-se ao outro não como uma totalidade ordenada, mas casualmente, peça por peça, como por acaso se dá? Esse doar-se, que tanto se parece com um jogar fora e um dilacerar, pode ser algo bom, pode ser felicidade, alegria, progresso? Não, não pode… Quanto manda flores para alguém, primeiro você as arranja, não é verdade? Mas os jovens amantes lançam-se uns aos outros na impaciência e na pressa de sua paixão e absolutamente não notam a falta de consideração mútua presente nessa entrega desordenada. Só o notam, com espanto e mau humor, perante a desavença que toda essa desordem provoca entre eles. E, tão logo se instala a desunião, as coisas se tornam cada dia mais confusas; nenhum deles tem mais em torno de si algo inteiro, puro e incorrupto. E, no meio do desconsolo do dilaceramento, eles procuram manter a ilusão de sua felicidade (pois supõe-se que tudo isso seja em nome da felicidade). Ah, eles mal conseguem se lembrar do que julgavam ser felicidade. Em sua insegurança, cada um se torna mais injusto com o outro; aqules que queriam agrada um ao outro agora se tocam de maneira prepotente e inquieta. E, no esforço de escapar do estado insustentável e insuportável de sua confusão, eles cometem o pior erro que pode ocorrer ás relações humanas: tornam-se impacientes. Eles se empurram para chegar a um término, a uma decisão (como crêem) definitiva; tentam determinar de uma vez por todas sua relação, cujas mudanças surpreendentes os espantaram, de modo que daí em diante ela possa permanecer “para sempre” a mesma (como eles dizem). Esse é apenas o último erro nessa longa cadeia de equívocos entrelaçados. Nem mesmo o que está morto se deixa determinar definitivamente (pois ele se desintegra e se modifica em sua natureza); menos ainda algo vivente e vivo pode ser tratado peremptoriamente de uma vez por todas! Viver é, precisamente, transformar-se, e as relações humanas, que são um extrato da vida, constituem o que há de mais mutável; elas sobem e caem de minuto a minuto, e os amantes são pessoas para as quais nenhum momento se iguala ao outro em sua relação e seus toques, e entre os quais não ocorre nada de habitual nem nada que já existiu uma vez, mas apenas coisas novas, inesperadas, inauditas. Tais relações existem, e devem ser uma felicidade enorme, quase insuportável, mas elas só podem ocorrer entre seres abençoados com a fartura e entre pessoas que são, cada uma por si, ricas, ordenadas e concentradas; apenas dois mundos vastos, profundos e próprios podem uni-las. Os jovens – isto é evidente – não podem alcançar tal relação. Mas, se compreenderem a vida corretamente, podem aos poucos crescer em tal felicidade e preparar-se para ela. Quando amam, não devem esquecer que são iniciantes, desajeitados da vida, aprendizes do amor – eles devem aprender a amar, e isso requer (como para qualquer aprendizado) calma, paciência e concentração!”

 

Escrevo também que a doença que mais mata amor é descuido; mata até mais do que incapacidade intelectual de cuidar.