As visitas do príncipe Naruhito e uns haicais sobre o inverno no Sul do Brasil

 Repórter da Folha de Londrina, participei da cobertura jornalística da visita do príncipe Naruhito Denka ao Paraná, em 1982, especificamente a duas das quatro cidades onde esteve no dia 10 de outubro: Rolândia e Londrina. Faço este registro a propósito da sua presença no Brasil, desta vez para participar das comemorações do centenário da imigração japonesa.

Meu objetivo principal neste momento é publicar neste Trevo do Talvez, conforme disse que o faria, alguns haicais relacionados diretamente ao Inverno brasileiro, que geologicamente estará de volta a partir desta sexta-feira, 20, e que escrevi ao longo dos anos que morei no Sul do país, especialmente no Paraná. 

Tendo como pretexto a presença entre nós de Sua Alteza Imperial e como forma de louvar o elevado grau de civilidade do povo nipônico, decidi anteceder a publicação dos haicais da reprodução do relato de um incidente citado em vários jornais do Japão, conforme fui informado por integrantes de uma comissão encarregada de ir à sede do jornal onde eu trabalhava no dia seguinte à publicação da reportagem sobre a visita dele ao Paraná para apresentar um pedido formal de desculpas. 

Eis:  

“O almoço como sacrifício 

Os organizadores da visita do príncipe Naruhito Denka, especialmente os responsáveis pelo almoço que lhe foi oferecido na sede da Associação dos Funcionários Públicos Municipais em Londrina, esqueceram de incluir repórteres, fotógrafos e cinegrafistas encarregados da cobertura jornalística da visita do nobre japonês a Londrina e Rolândia entre pessoas que costuma fazer refeições em ambientes dignos.

Ambiente digno não significa necessariamente o mesmo ambiente considerado digno de abrigar um nobre durante um almoço; nem os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas esperavam, ou sequer julgaram-se no direito de tal atenção. O que se lamenta, e se lamenta profundamente, é que tenham sido convidados nestes termos:

“Se desejarem comer alguma coisa podem se dirigir à sala ao lado da cozinha”.

A sala indicada não estava preparada para receber qualquer pessoa para fazer uma refeição de uma maneira que possa ser classificada de digna. Tratava-se precisamente da sala de jogos da associação e foi ali que aqueles que não puderem suportar a fome tiveram que “comer” as “coisas” que lhes foram mal servidas, se é que se pode dizer que foram servidas. De pé ou sentados sobre mesas de sinuca, muitos se submeteram ao se pode classificar de “sacrifício de almoçar”. Outros preferiram o sacrifício efetivo de ficar com fome até a partida do príncipe, quando, num lugar realmente digno, comeram um sanduíche.”

 

E agora os haicais:

 

 

Céu cinza.

Pintando o Inverno,

um Ipê cor-de-rosa.

 

 

 

 

Imóvel, a névoa do Inverno envolve tudo;

impressionista, a luz do pôr-do-sol porto-alegrense

pinta à la Monet ao longo do Guayba.

 

 

Vestidas de rosa,

Azaléias avisam:

O Inverno voltou.

 

 

Maltrapilho,

mancando,

magro,

imundo,

um curativo branco cobre a orelha direita.

Sob chuva e frio,

passa um retrato vivo de Van Gogh.

 

 

Uma tarde cinza;

uma Borboleta amarela e preta

beija uma Azaléia rosa.

 

 

Rush de carro e gente;

o olhar foge, sobe e pega

no roxo do Jacarandá.

 

 

Em forma de chuva,

as Sibipirunas se despem;

metade do Inverno passou.

 

 

Cinamomos floridos,

Curitiba molhada…

Dê uma olhada!

 

 

 

 

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