Arquivo para Julho, 2008

Da relação entre o hábito de cuspir e o grau de civilização.

 Não recordo de ter registrado aqui neste Trevo do Talvez que Freud situa o ponto zero da civilização humana no dia em que, agredido fisicamente, um dos nossos ancestrais reagiu, não com outra agressão física, mas proferindo um palavrão.

Torço para que ao menos aqueles que exercem profissões compulsoriamente sujeitas a registros por imagens apressem ao máximo o estabelecimento de um novo marco no processo, banindo o hábito de cuspir em público.

Entre jogadores de futebol, não seria exagero dizer que ele predomina.

A alegação de que deixar de cuspir no decorrer de toda uma partida seria impraticável, ninguém engole. Assim, sugiro aos realmente interessados em corrigir esse repugnante hábito que nas horas vagas pratiquem um pouco de vôlei ou basquete em quadra de cimento.

Vejo poucas transmissões de partidas de futebol feminino, mas não recordo de uma cena de cusparada. E torço para que entre as brasileiras praticantes deste esporte se aplique o que observo entre as mulheres de maneira geral.

Ou seja: As mulheres brasileiras são mais civilizadas do que os homens; mesmo entre as mais humildes poucas cospem na rua.

 

P. S. Ainda a propósito de cuspir, numa época em que freqüentava sistematicamente a Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, que é uma das cidades mais civilizadas do Brasil, pensei em produzir um cartaz no qual escreveria o seguinte: NÃO PASSE CUSPE NO LIVRO

Tempo e distância: caros paliativos para a pobreza espiritual e cultural

Motivado pela leitura, nesta quarta-feira 23/07/2008, de uma das Cartas a Lucílio escritas pelo filósofo Lucius Annaeus Seneca (Córdova, 4 a.C. — Roma, 65 d.C.) e na expectativa de que passe por este Trevo do Talvez alguém interessado pela publicação de um livro meu cuja elaboração consumiu a maior e melhor parte dos meus últimos trinta anos, e a respeito do qual escrevi recentemente aqui um post intitulado Autor à procura de uma editora procura outro Gilberto Amado, decidi publicar um conjunto de textos extraídos dele em que trato da relação entre viagem e cultura, entendida esta no sentido que é entendida por Dietrich Schwanitz, por exemplo.

 

Eis:

 

Viajar é cultura, proclama em tom dogmático o inculto comodista falto de imaginação; a indústria do turismo cresce tanto justamente porque tanta gente acha que ver implica em saber, como se o restrito ato de ler bastasse sempre para aprender. Conforme observou o jornalista Daniel Piza, ocorre que certas viagens exigem repertório de vida e cultura para serem feitas e terem as conseqüências mais duradouras; ele escreve em Mistérios da Literatura que as experiências são voláteis quando não acompanhadas de informação e reflexão, de revisão e reformulação dos juízos – enfim, do trabalho mental. Para bem avaliar quão pouca é a sabedoria que decorre diretamente de viajar, acrescente a isto que, de acordo com Rainer Maria Rilke, cada experiência tem uma velocidade especial segundo a qual deve ser vivida, para que seja nova, profunda e frutífera.

 

Tempo e distância: caros paliativos para a pobreza espiritual e cultural. O tédio torna tudo bom, tudo bem no passado e longe daqui, temporariamente. Abordando este aspecto paliativo da distância, Fernando Pessoa escreve a seu amigo Mário de Sá Carneiro: Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem desembarque onde se esqueça.

 

Lustre o sapato; ilustre a cabeça.

 

Viajar é diversão, antes de ser cultura; faz a inversão o parco de leitura e o falto de imaginação. R. W. Emerson colocou esta questão assim: Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos. Escrevendo em 1876, Nietsche dizia que a doença moderna é um excesso de ‘experiências’. E com ironia aconselhava: Que todo mundo volte para casa em tempo, para não se perder nas experiências. Em outro momento ele comenta que, muitas vezes, os jovens se queixam de não terem tido nenhuma experiência, enquanto sofrem justamente por terem tido muitas. E exclama: É o cúmulo da irreflexão moderna!

 

Toda pessoa apenas inculta sabe ao menos um pouco do que perde por não estudar; nenhum vicioso inteligente desconhece inteiramente as comodidades das virtudes.

 

Vá ler, cara! Leia ao menos muro.

 

Da carta de Sêneca,

que li numa edição de bolso da L&PM,

extraí os seguintes trechos:

 

“Que benefício pode trazer uma viagem a quem quer que seja? Jamais controlou prazeres, conteve paixões, reprimiu impulso de raiva, refreou ímpetos amorosos, nunca livrou a alma de qualquer um de seus males. Uma viagem jamais emitiu um julgamento ou desfez um erro. Seu efeito se iguala ao que uma criança sente quando se depara com o desconhecido, ou seja, diverte por um breve tempo enquanto é novidade”.

*

“A viagem te dará o conhecimento dos povos, te fará observar diferentes formas de montanhas, locais que não são visitados pelos comuns, vales cavados por fontes incessantes, alguns rios que oferecem espetáculos naturais, assim como Nilo, com seu fluxo e refluxo no verão; assim como o Eufrates, que some por completo para ficar sob a terra e ali traçar o seu curso invisível e dali aparecer em grande correnteza; também como o Meandro, tema eterno dos poetas, que mistura suas curvas e, muitas vezes, perto de seu leito, curva-se, mais uma vez, antes de se fazer presente. No que diz respeito às demais coisas, a viagem não te fará melhor nem mais racional.

O campo de toda a atividade deve ser o estudo, e no meio dos sábios, para relembrar as verdades adquiridas e para descobrir novas. Assim, é dever retirar a alma de sua terrível escravidão, libertá-la. Enquanto ignorares o que deve ser evitado e deve ser procurado, o que é imprescindível e o que é supérfluo, o que é justo e o que é injusto, o que é honesto e o que não é honesto, jamais viajarás, será apenas um errante”.

*

“Se alguém quebrou ou torceu a perna e não pode andar de carro ou barco, chama o medito para endireitar a fratura ou o músculo torcido. Mas e essa alma, quebrada e deslocada em tantos lugares, acreditas que as mudanças de lugar poderão recuperá-la? O ferimento é muito grave para ser curado apenas com uma mudança de lugar.

A viagem não cria um médico nem um orador; não se consegue aprender nenhuma arte apenas porque estamos em determinado lugar. Então, a mais importante de todas as artes, a sabedoria, pode ser obtida em uma viagem? Nenhuma viagem, acredita, pode defender-te de tuas paixões, raivas, medos. Se fosse possível, toda a humanidade passaria em fila por ali. Tais males estarão junto a ti e te acompanharão por terras e mares enquanto estiveres carregando suas causas”.

 

 

P. S. Peço desculpas por não ter o livro em mãos para citar aqui suas tradutoras.

 

Uma formiga caiu de um barranco e quebrou uma perna

Ao amanhecer

 

Uma formiga caiu de um barranco e quebrou uma perna.

Não conseguia andar de tanta dor.

Começou a gritar por socorro.

Ninguém respondeu.

Começou a anoitecer.

A formiga lá.

Com receio de morrer.

Sozinha.

Morrendo de dor.

Faminta, com frio

e sem forças sequer para falar,

morreu ao amanhecer.

Um texto atualíssimo que expõe o absurdo de relacionar Nietzsche com genocídio de judeus

Escreva no Google Nietzsche + Nazismo e você vai se deparar com muita coisa tão absurda quanto injusta a respeito do filósofo alemão. Tanto absurdo e tanto desrespeito que me sinto no dever de transcrever na íntegra um aforismo de Humano, demasiado humano, que li na noite desta terça-feira 15/07/2008.

 

Intitulado O homem europeu e a destruição das nações, o aforismo foi traduzido por Paulo César de Souza para a Editora Schwarcz.

 

 

“O comércio e a indústria, a circulação de livros e cartas, a posse comum de toda a cultura superior, a rápida mudança de lar e de região, a atual vida nômade dos que não possuem terra – essas circunstâncias trazem necessariamente um enfraquecimento e por fim uma destruição das nações, ao menos das européias: de modo que a partir delas, em conseqüência de contínuos cruzamentos, deve surgir uma raça mista, a do homem europeu. Hoje em dia o isolamento das nações trabalha contra esse objetivo, de modo consciente ou inconsciente, através da geração de hostilidades nacionais, mas a mistura avança lentamente, apesar dessas momentâneas correntes contrárias: esse nacionalismo artificial é, aliás, tão perigoso como era o catolicismo artificial, pois é na essência um estado de emergência e de sítio que alguns poucos impõem a muitos, e que requer astúcia, mentira e força para manter-se respeitável. Não é o interesse de muitos (dos povos), como se diz, mas sobretudo o interesse de algumas dinastias reinantes, e depois de determinadas classes do comércio e da sociedade, o que impele a esse nacionalismo; uma vez que se tenha reconhecido isto, não é preciso ter medo de proclamar-se um bom europeu e trabalhar ativamente pela fusão das nações: no que os alemães, graças à sua antiga e comprovada qualidade de intérpretes e mediadores dos povos, serão capazes de colaborar. – Diga-se de passagem que o problema dos judeus existe apenas no interior dos Estados nacionais, na medida em que neles a sua energia e superior inteligência, o seu capital de espírito e de vontade, acumulado de geração em geração em prolongada escola de sofrimento, devem preponderar numa escala que desperta inveja e ódio, de modo que em quase todas as nações de hoje – e tanto mais quanto mais nacionalista é a pose que adotam – aumenta a grosseria literária (*) de conduzir os judeus ao matadouro, como bodes expiatórios de todos os males públicos e particulares. Quando a questão não for mais conservar as nações, mas criar uma raça européia mista que seja a mais vigorosa possível, o judeu será um ingrediente tão útil e desejável quanto qualquer outro vestígio nacional. Características desagradáveis, e mesmo perigosas, toda nação, todo indivíduo tem: é cruel exigir que o judeu constitua exceção. Nele essas características podem até ser particularmente perigosas e assustadoras; e talvez o jovem especulador da Bolsa judeu seja a invenção mais repugnante da espécie humana. Apesar disso gostaria de saber o quanto, num balanço geral, devemos relevar num povo que, não sem a culpa de todos nós, teve a mais sofrida história entre todos os povos, e ao qual devemos o mais nobre dos homens (Cristo), o mais puro dos sábios (Spinoza), o mais poderoso dos livros e a lei moral mais eficaz do mundo. E além disso: nos tempos mais sombrios da Idade Média, quando as nuvens asiáticas pesavam sobre a Europa foram os livres-pensadores, eruditos e médicos judeus que, nas mais duras condições pessoais, mantiveram firme a bandeira das Luzes e da independência intelectual, defendendo a Europa contra a Ásia; tampouco se deve menos aos seus esforços o fato de finalmente vir a triunfar uma explicação do mundo mais natural, mais conforme à razão e certamente não mítica, e de o anel da cultura que hoje nos liga às luzes da Antiguidade greco-romana não ter se rompido. Se o cristianismo tudo fez para orientalizar o Ocidente, o judaísmo contribuiu de modo essencial para ocidentalizá-lo de novo: o que, num determinado sentido, significa fazer da missão e da história da Europa uma continuação da grega.”

 

* Nota do tradutor: “grosseria literária”: litterarische Unart. Nietzsche está se referindo às manifestações de anti-semitismo na imprensa e na literatura da época.

 

Humano, demasiado humano foi publicado em 1878

Sobre nonada em Miguel de Cervantes Saavedra e em João Guimarães Rosa

 Em 1976, em meio a uma crise no meu primeiro casamento, fui aconselhado a procurar um psicanalista. Agradecido, fiz isto com muita tranqüilidade.

Após tomar conhecimento de um conjunto das minhas opiniões sobre as pessoas e as coisas, ele me perguntou:

 

- Já leu Dom Quixote?

- Não.

 

A primeira parte do livro de Miguel de Cervantes Saavedra eu li por volta de 1980, já separado da minha primeira companheira formal. A segunda, eu comecei a ler há duas semanas e estou me ocupando dela aqui em razão das comemorações do centenário de nascimento do autor de Grande Sertão: Veredas.

 

É que agora faço parte do grupo de admiradores de João Guimarães Rosa informados de que a palavra com a qual ele inicia sua obra principal – NONADA – não foi concebida por ele. Mais que isso, não se trata neste contexto sequer de um neologismo, coisa que ocorre em outro momento do livro na qual é empregada, conforme registrarei adiante.

 

Na segunda parte do Dom Quixote o vocábulo é empregado com o mesmo sentido que do meu ponto de vista ele tem na abertura de Grande Sertão, ou seja, quer dizer pura e simplesmente não é nada ou, dito à maneira dos brasileiros menos cultos, não é nada não.

 

Faz parte de uma fala do cavaleiro da triste figura onde ele descreve para sua sobrinha as quatro linhagens a que, segundo afirma, “se podem reduzir todas as que há no mundo”, em tradução de Sérgio Molina, para a Editora 34, que são as seguintes:

 

“Umas, que tiveram princípios humildes e se foram estendendo e dilatando até chegar à suma grandeza. Outras, que tiveram princípios grandes e os foram conservando e os conservam e mantém no ser que começaram. Outras que, se bem com princípios grandes, acabaram em ponta, como pirâmide, tendo diminuído e aniquilado seu princípio até chegar a NONADA, como é a ponta da pirâmide, que, comparada com sua base ou assento, não é nada.”

 

Dispenso-me de transcrever a descrição da quarta linhagem e repito a da terceira no original:

 

“Otros, que, aunque tuvieron princípios grandes, acabaron en punta, como pirámide, habiendo diminuído y aniquilado su principio hasta parar en nonada, como lo es la punta de la pirámide, que respeto de su basa o asiento no es nada.”

 

Como tudo o respeito por estudiosos como Roberto Charles Feitosa de Oliveira, para quem, na abertura do livro de Rosa o sentido de NONADA seria outro que não aquele que tem em espanhol, eu entendo que aí o vocábulo tem precisamente o mesmo sentido que tem em verso de Gregório de Matos (1636-96) – “vendo o pouco que duraste, / da vida foste um ‘nonada’, / nem foste rosa, nem nada, / Se tão depressa acabaste” (Nasce a Rosa e Nasce a Flor) por ele citado em artigo intitulado “No-nada. Formas brasileiras do niilismo”, ou seja, não é nada ou, conforme observei, não é nada não e ponto final. E, conforme vimos, nisto estamos de acordo com Sérgio Molina.

 

No citado artigo, Charles Feitosa afirma que em espanhol antigo “nonada” quer dizer simplesmente o mesmo que nada ou nenhuma coisa, como no famoso verso de Tereza d’Ávila (1515-82): “Tênia que decir muy poco o nonada”.

 

Assim sendo, não há por que concordar com ele quando faz restrição ao uso de “nothing” na versão inglesa do romance do Rosa e louva o tradutor da edição alemã, Curt Meyer-Clason, que “transformou NONADA em uma frase principal, com quatro palavras de uma sílaba cada uma, para tentar manter o impacto: “Hat nichts auf sich”. Ou seja, “nonada” é o que não importa, o que, literalmente, nada tem em si.”

 

E comenta: “Essa interpretação parece correta, exceto pelo fato de que o termo “nonada” não é um neologismo, mas um arcaísmo revisitado, como quase tudo na obra de Guimarães Rosa”.

 

Do meu ponto de vista, onde NONADA é um neologismo, na medida em que tem realmente um sentido novo, excepcional, metafísico e poético intraduzível é no contexto da seguinte frase do Grande Sertão: Veredas, frase que, em minha opinião, é um perfeito haicai:

 

“Atirei. Atiravam.

Isso não é isto?

Nonada. A aragem.”

 

 

P. S. Em Aurélio Buarque de Holanda o vocábulo NONADA é apresentado como uma forma arcaica de não, + nada, proveniente de non. O dicionarista relaciona-o com ninharia, informando que este tem origem no espanhol niñeria.

Antonio Houaiss apresenta-o como sinônimo de ninharia, insignificância.

Quanto à etimologia, repete Aurélio: não + nada.

Perdoe-me Rosa, mas elaborei uma síntese do seu Grande Sertão: Veredas!

 Quero aproveitar o clima festivo das comemorações do centenário de nascimento de Guimarães Rosa para confessar um crime: tomei a liberdade de sintetizar Grande Sertão: Veredas e colocar aquilo que vejo como essencial em apenas 140 páginas padrão Word, corpo 12.

A exemplo do que ocorreu com Vinícius de Moraes, entre outros, faço parte do grupo que detestou a linguagem do livro na primeira vez que se dispôs a lê-lo. A mim soou uma imitação barata do linguajar dos capiaus, pessoas das quais eu vivia cercado até os dez anos de idade, quando minha família se mudou de “São Paulo Moleque”, onde nasci, para Aracaju.

Passaram-se mais de 20 anos entre a primeira tentativa e a encantada leitura do livro magistral.

Foi ao dar início à segunda leitura, há dois anos, que o livro, embora sem perder sua magistralidade, me pareceu prolixo.

Decidi, então, elaborar uma síntese, sem colocar uma palavra minha. Apenas deletando tudo que me pareceu dispensável, na medida em que, do meu ponto de vista, não compromete a obra em qualquer sentido.

E tem, talvez, a vantagem de poder conquistar um maior número de leitores para ela.

Minha atitude de elaborar a síntese é, a rigor, uma tentativa de tornar viável a apresentação do livro como um monólogo em três espetáculos de teatro, em dias sucessivos, que me ocorreu ao longo da primeira leitura encantada. Pensei em Lima Duarte fazendo as vezes de Manuelzão.

Confessado o crime, ouso consultar os detentores dos direitos autorais do genial cordisburguense se teriam interesse em passar uma vista d’olhos no meu trabalho, colocando à parte o preconceito que ainda se cultiva pela obra no seu formato original com argumentos próprios ou emprestados de pessoas sobre as quais não se pode dizer que sejam insensíveis, como é o caso de Vinicius de Moraes.

E para dizer o quanto admiro toda a obra do Rosa, que li e reli, publico na sequência algumas das muitas preciosidades que mais me chamaram atenção.

 

Retratos de mulher por Guimarães Rosa

 

Deralda era um consolo.

Uma água de serra –

que brota,

canta

e cai

partida:

bela,

boa

e oferecida.      

 

In Dão-Lalalão

 

Toda moça é mansa,

é branca e delicada.

Otacília era a mais.

 

In Grande Sertão: Veredas

 

Tem mulheres de lindeza assim;

a gente sente a precisão

de tomar um gole de bebida,

antes de olhar outra vez – Dona Lalinha.

 

In Buriti

 

Nhorinhá – florzinha amarela

do chão que diz:

- Eu sou bonita!

 

In Grande Sertão: Veredas

 

Quando conheci Maria da Glória,

foi como se terminasse,

de repente,

uma grande saudade,

que eu não sabia que sentia.

 

In Buriti

  

“As ancas balançam,

e as vagas de dorsos,

das vacas e touros,

batendo com as caudas,

mugindo no meio,

na massa embolada,

com atritos de couros,

estralos de guapos,

estrondos e baques,

e o berro queixoso

do gado Junqueira,

de chifres imensos,

com muita tristeza,

saudade dos campos,

querência dos pastos

de lá do sertão…”

 

“Um boi preto, um boi pintado,

cada um tem sua cor.

Cada coração um jeito

de mostrar o seu amor”.

 

Passa na Sagarana

a boiada do Rosa

 

Haicais do Grande Sertão do Rosa

 

 

Atirei. Atiravam.

Isso não é isto?

Nonada. A aragem.

 

 

“Só tenho Deus, Joca Ramiro…

e você, Riobaldo…”

  ele declarou. (Diadorim)

 

 

 

Homem foi feito

para o sozinho?

Foi; mas eu não sabia.

 

 

Só como céu

e as nuvens lá atrás

de uma andorinha que passou.

 

 

Olhei para cima:

pegaram nas nuvens do céu

com mãos de azul.

 

 

 

 

Vai, viemos, viemos.

Esses dias em ondas.

Sei só as encostas que subi, a festo.

 

           

 

 

            “Paralisa-se-lhe o coração.”

 

            De Renard Perez, no perfil de Guimarães Rosa que integra a edição de Jardins e Riachinhos. Estranhei formulação tão rebuscada para falar da causa mortis do nosso desrebuscado cordiburguense e anotei: Morre Rosa!

 

            Rosa vem de rhodd, que significa vermelho.

 

P. S. Não pretendo atenuar a gravidade do crime que cometi, mas vou me permitir dizer que o considero menos grave do que o praticado por um curitibano – brasileiro legítimo, a despeito do sobrenome alemão – que se proclama orgulhoso de ter lido Grande Sertão: Veredas numa versão em inglês, dispensando o original. Fez-me pensar em muita gente lúcida de toda parte do planeta que lamenta não dominar o idioma português por se ver privada do prazer de melhor mergulhar na grande invenção do mineiro genial.

 

P. S. do P. S. Ao me referir a “gente lúcida” tinha em mente a seguinte declaração do escritor espanhol Julián Rios ao mais! da Folha de São Paulo, em 13/3/94: “O português do Rosa só vocês podem captar com antenas parababélicas”.

 

ATENÇÃO: No dia 2/9/2008 publiquei aqui no Trevo do Talvez as primeiras oito páginas da síntese do Grande Sertão: Veredas