Quero aproveitar o clima festivo das comemorações do centenário de nascimento de Guimarães Rosa para confessar um crime: tomei a liberdade de sintetizar Grande Sertão: Veredas e colocar aquilo que vejo como essencial em apenas 140 páginas padrão Word, corpo 12.
A exemplo do que ocorreu com Vinícius de Moraes, entre outros, faço parte do grupo que detestou a linguagem do livro na primeira vez que se dispôs a lê-lo. A mim soou uma imitação barata do linguajar dos capiaus, pessoas das quais eu vivia cercado até os dez anos de idade, quando minha família se mudou de “São Paulo Moleque”, onde nasci, para Aracaju.
Passaram-se mais de 20 anos entre a primeira tentativa e a encantada leitura do livro magistral.
Foi ao dar início à segunda leitura, há dois anos, que o livro, embora sem perder sua magistralidade, me pareceu prolixo.
Decidi, então, elaborar uma síntese, sem colocar uma palavra minha. Apenas deletando tudo que me pareceu dispensável, na medida em que, do meu ponto de vista, não compromete a obra em qualquer sentido.
E tem, talvez, a vantagem de poder conquistar um maior número de leitores para ela.
Minha atitude de elaborar a síntese é, a rigor, uma tentativa de tornar viável a apresentação do livro como um monólogo em três espetáculos de teatro, em dias sucessivos, que me ocorreu ao longo da primeira leitura encantada. Pensei em Lima Duarte fazendo as vezes de Manuelzão.
Confessado o crime, ouso consultar os detentores dos direitos autorais do genial cordisburguense se teriam interesse em passar uma vista d’olhos no meu trabalho, colocando à parte o preconceito que ainda se cultiva pela obra no seu formato original com argumentos próprios ou emprestados de pessoas sobre as quais não se pode dizer que sejam insensíveis, como é o caso de Vinicius de Moraes.
E para dizer o quanto admiro toda a obra do Rosa, que li e reli, publico na sequência algumas das muitas preciosidades que mais me chamaram atenção.
Retratos de mulher por Guimarães Rosa
Deralda era um consolo.
Uma água de serra –
que brota,
canta
e cai
partida:
bela,
boa
e oferecida.
In Dão-Lalalão
Toda moça é mansa,
é branca e delicada.
Otacília era a mais.
In Grande Sertão: Veredas
Tem mulheres de lindeza assim;
a gente sente a precisão
de tomar um gole de bebida,
antes de olhar outra vez – Dona Lalinha.
In Buriti
Nhorinhá – florzinha amarela
do chão que diz:
- Eu sou bonita!
In Grande Sertão: Veredas
Quando conheci Maria da Glória,
foi como se terminasse,
de repente,
uma grande saudade,
que eu não sabia que sentia.
In Buriti
“As ancas balançam,
e as vagas de dorsos,
das vacas e touros,
batendo com as caudas,
mugindo no meio,
na massa embolada,
com atritos de couros,
estralos de guapos,
estrondos e baques,
e o berro queixoso
do gado Junqueira,
de chifres imensos,
com muita tristeza,
saudade dos campos,
querência dos pastos
de lá do sertão…”
“Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
de mostrar o seu amor”.
Passa na Sagarana
a boiada do Rosa
Haicais do Grande Sertão do Rosa
Atirei. Atiravam.
Isso não é isto?
Nonada. A aragem.
“Só tenho Deus, Joca Ramiro…
e você, Riobaldo…”
– ele declarou. (Diadorim)
Homem foi feito
para o sozinho?
Foi; mas eu não sabia.
Só como céu
e as nuvens lá atrás
de uma andorinha que passou.
Olhei para cima:
pegaram nas nuvens do céu
com mãos de azul.
Vai, viemos, viemos.
Esses dias em ondas.
Sei só as encostas que subi, a festo.
“Paralisa-se-lhe o coração.”
De Renard Perez, no perfil de Guimarães Rosa que integra a edição de Jardins e Riachinhos. Estranhei formulação tão rebuscada para falar da causa mortis do nosso desrebuscado cordiburguense e anotei: Morre Rosa!
Rosa vem de rhodd, que significa vermelho.
P. S. Não pretendo atenuar a gravidade do crime que cometi, mas vou me permitir dizer que o considero menos grave do que o praticado por um curitibano – brasileiro legítimo, a despeito do sobrenome alemão – que se proclama orgulhoso de ter lido Grande Sertão: Veredas numa versão em inglês, dispensando o original. Fez-me pensar em muita gente lúcida de toda parte do planeta que lamenta não dominar o idioma português por se ver privada do prazer de melhor mergulhar na grande invenção do mineiro genial.
P. S. do P. S. Ao me referir a “gente lúcida” tinha em mente a seguinte declaração do escritor espanhol Julián Rios ao mais! da Folha de São Paulo, em 13/3/94: “O português do Rosa só vocês podem captar com antenas parababélicas”.
ATENÇÃO: No dia 2/9/2008 publiquei aqui no Trevo do Talvez as primeiras oito páginas da síntese do Grande Sertão: Veredas
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