Em 1976, em meio a uma crise no meu primeiro casamento, fui aconselhado a procurar um psicanalista. Agradecido, fiz isto com muita tranqüilidade.
Após tomar conhecimento de um conjunto das minhas opiniões sobre as pessoas e as coisas, ele me perguntou:
- Já leu Dom Quixote?
- Não.
A primeira parte do livro de Miguel de Cervantes Saavedra eu li por volta de 1980, já separado da minha primeira companheira formal. A segunda, eu comecei a ler há duas semanas e estou me ocupando dela aqui em razão das comemorações do centenário de nascimento do autor de Grande Sertão: Veredas.
É que agora faço parte do grupo de admiradores de João Guimarães Rosa informados de que a palavra com a qual ele inicia sua obra principal – NONADA – não foi concebida por ele. Mais que isso, não se trata neste contexto sequer de um neologismo, coisa que ocorre em outro momento do livro na qual é empregada, conforme registrarei adiante.
Na segunda parte do Dom Quixote o vocábulo é empregado com o mesmo sentido que do meu ponto de vista ele tem na abertura de Grande Sertão, ou seja, quer dizer pura e simplesmente não é nada ou, dito à maneira dos brasileiros menos cultos, não é nada não.
Faz parte de uma fala do cavaleiro da triste figura onde ele descreve para sua sobrinha as quatro linhagens a que, segundo afirma, “se podem reduzir todas as que há no mundo”, em tradução de Sérgio Molina, para a Editora 34, que são as seguintes:
“Umas, que tiveram princípios humildes e se foram estendendo e dilatando até chegar à suma grandeza. Outras, que tiveram princípios grandes e os foram conservando e os conservam e mantém no ser que começaram. Outras que, se bem com princípios grandes, acabaram em ponta, como pirâmide, tendo diminuído e aniquilado seu princípio até chegar a NONADA, como é a ponta da pirâmide, que, comparada com sua base ou assento, não é nada.”
Dispenso-me de transcrever a descrição da quarta linhagem e repito a da terceira no original:
“Otros, que, aunque tuvieron princípios grandes, acabaron en punta, como pirámide, habiendo diminuído y aniquilado su principio hasta parar en nonada, como lo es la punta de la pirámide, que respeto de su basa o asiento no es nada.”
Como tudo o respeito por estudiosos como Roberto Charles Feitosa de Oliveira, para quem, na abertura do livro de Rosa o sentido de NONADA seria outro que não aquele que tem em espanhol, eu entendo que aí o vocábulo tem precisamente o mesmo sentido que tem em verso de Gregório de Matos (1636-96) – “vendo o pouco que duraste, / da vida foste um ‘nonada’, / nem foste rosa, nem nada, / Se tão depressa acabaste” (Nasce a Rosa e Nasce a Flor) por ele citado em artigo intitulado “No-nada. Formas brasileiras do niilismo”, ou seja, não é nada ou, conforme observei, não é nada não e ponto final. E, conforme vimos, nisto estamos de acordo com Sérgio Molina.
No citado artigo, Charles Feitosa afirma que em espanhol antigo “nonada” quer dizer simplesmente o mesmo que nada ou nenhuma coisa, como no famoso verso de Tereza d’Ávila (1515-82): “Tênia que decir muy poco o nonada”.
Assim sendo, não há por que concordar com ele quando faz restrição ao uso de “nothing” na versão inglesa do romance do Rosa e louva o tradutor da edição alemã, Curt Meyer-Clason, que “transformou NONADA em uma frase principal, com quatro palavras de uma sílaba cada uma, para tentar manter o impacto: “Hat nichts auf sich”. Ou seja, “nonada” é o que não importa, o que, literalmente, nada tem em si.”
E comenta: “Essa interpretação parece correta, exceto pelo fato de que o termo “nonada” não é um neologismo, mas um arcaísmo revisitado, como quase tudo na obra de Guimarães Rosa”.
Do meu ponto de vista, onde NONADA é um neologismo, na medida em que tem realmente um sentido novo, excepcional, metafísico e poético intraduzível é no contexto da seguinte frase do Grande Sertão: Veredas, frase que, em minha opinião, é um perfeito haicai:
“Atirei. Atiravam.
Isso não é isto?
Nonada. A aragem.”
P. S. Em Aurélio Buarque de Holanda o vocábulo NONADA é apresentado como uma forma arcaica de não, + nada, proveniente de non. O dicionarista relaciona-o com ninharia, informando que este tem origem no espanhol niñeria.
Antonio Houaiss apresenta-o como sinônimo de ninharia, insignificância.
Quanto à etimologia, repete Aurélio: não + nada.
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