Motivado pela leitura, nesta quarta-feira 23/07/2008, de uma das Cartas a Lucílio escritas pelo filósofo Lucius Annaeus Seneca (Córdova, 4 a.C. — Roma, 65 d.C.) e na expectativa de que passe por este
Trevo do Talvez alguém interessado pela publicação de um livro meu cuja elaboração consumiu a maior e melhor parte dos meus últimos trinta anos, e a respeito do qual escrevi recentemente aqui um post intitulado Autor à procura de uma editora procura outro Gilberto Amado, decidi publicar um conjunto de textos extraídos dele em que trato da relação entre viagem e cultura, entendida esta no sentido que é entendida por Dietrich Schwanitz, por exemplo.
Eis:
Viajar é cultura, proclama em tom dogmático o inculto comodista falto de imaginação; a indústria do turismo cresce tanto justamente porque tanta gente acha que ver implica em saber, como se o restrito ato de ler bastasse sempre para aprender. Conforme observou o jornalista Daniel Piza, ocorre que certas viagens exigem repertório de vida e cultura para serem feitas e terem as conseqüências mais duradouras; ele escreve em Mistérios da Literatura que as experiências são voláteis quando não acompanhadas de informação e reflexão, de revisão e reformulação dos juízos – enfim, do trabalho mental. Para bem avaliar quão pouca é a sabedoria que decorre diretamente de viajar, acrescente a isto que, de acordo com Rainer Maria Rilke, cada experiência tem uma velocidade especial segundo a qual deve ser vivida, para que seja nova, profunda e frutífera.
Tempo e distância: caros paliativos para a pobreza espiritual e cultural. O tédio torna tudo bom, tudo bem no passado e longe daqui, temporariamente. Abordando este aspecto paliativo da distância, Fernando Pessoa escreve a seu amigo Mário de Sá Carneiro: Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem desembarque onde se esqueça.
Lustre o sapato; ilustre a cabeça.
Viajar é diversão, antes de ser cultura; faz a inversão o parco de leitura e o falto de imaginação. R. W. Emerson colocou esta questão assim: Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos. Escrevendo em 1876, Nietsche dizia que a doença moderna é um excesso de ‘experiências’. E com ironia aconselhava: Que todo mundo volte para casa em tempo, para não se perder nas experiências. Em outro momento ele comenta que, muitas vezes, os jovens se queixam de não terem tido nenhuma experiência, enquanto sofrem justamente por terem tido muitas. E exclama: É o cúmulo da irreflexão moderna!
Toda pessoa apenas inculta sabe ao menos um pouco do que perde por não estudar; nenhum vicioso inteligente desconhece inteiramente as comodidades das virtudes.
Vá ler, cara! Leia ao menos muro.
Da carta de Sêneca,
que li numa edição de bolso da L&PM,
extraí os seguintes trechos:
“Que benefício pode trazer uma viagem a quem quer que seja? Jamais controlou prazeres, conteve paixões, reprimiu impulso de raiva, refreou ímpetos amorosos, nunca livrou a alma de qualquer um de seus males. Uma viagem jamais emitiu um julgamento ou desfez um erro. Seu efeito se iguala ao que uma criança sente quando se depara com o desconhecido, ou seja, diverte por um breve tempo enquanto é novidade”.
*
“A viagem te dará o conhecimento dos povos, te fará observar diferentes formas de montanhas, locais que não são visitados pelos comuns, vales cavados por fontes incessantes, alguns rios que oferecem espetáculos naturais, assim como Nilo, com seu fluxo e refluxo no verão; assim como o Eufrates, que some por completo para ficar sob a terra e ali traçar o seu curso invisível e dali aparecer em grande correnteza; também como o Meandro, tema eterno dos poetas, que mistura suas curvas e, muitas vezes, perto de seu leito, curva-se, mais uma vez, antes de se fazer presente. No que diz respeito às demais coisas, a viagem não te fará melhor nem mais racional.
O campo de toda a atividade deve ser o estudo, e no meio dos sábios, para relembrar as verdades adquiridas e para descobrir novas. Assim, é dever retirar a alma de sua terrível escravidão, libertá-la. Enquanto ignorares o que deve ser evitado e deve ser procurado, o que é imprescindível e o que é supérfluo, o que é justo e o que é injusto, o que é honesto e o que não é honesto, jamais viajarás, será apenas um errante”.
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“Se alguém quebrou ou torceu a perna e não pode andar de carro ou barco, chama o medito para endireitar a fratura ou o músculo torcido. Mas e essa alma, quebrada e deslocada em tantos lugares, acreditas que as mudanças de lugar poderão recuperá-la? O ferimento é muito grave para ser curado apenas com uma mudança de lugar.
A viagem não cria um médico nem um orador; não se consegue aprender nenhuma arte apenas porque estamos em determinado lugar. Então, a mais importante de todas as artes, a sabedoria, pode ser obtida em uma viagem? Nenhuma viagem, acredita, pode defender-te de tuas paixões, raivas, medos. Se fosse possível, toda a humanidade passaria em fila por ali. Tais males estarão junto a ti e te acompanharão por terras e mares enquanto estiveres carregando suas causas”.
P. S. Peço desculpas por não ter o livro em mãos para citar aqui suas tradutoras.
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