Imenso azul:
um barquinho de ouro,
navega a lua nova.
Determinado a conquistar fama, o inexperiente confunde simplicidade com superficialidade e, com seu equívoco, contribui para a banalização e desprestígio de muitas formas de arte.
É o que acontece entre nós relativamente à mais notável forma poética concebida pelos japoneses: o Haicai.
Aparentemente é fácil o simples; daí tanto Haicai que não suscita nada. Tanto Haicai que apenas entedia o leitor.
Da mesma forma que ocorre relativamente à vida, o simples em arte é o mais difícil.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) tinha na conta de pensador alguém que sabe como tornar as coisas mais simples do que elas são.
A simplicidade – teoriza o escultor Auguste Rodin (1840-1917) – é a condição primordial da felicidade e da beleza; a facilidade – ensina o pintor Wasily Kandinsky (1866-1944) – não se obtém sem esforço.
A regra geral é esta: se não custa fazer, não há prazer; a natureza não se deixa enganar.

Matsuo Bashô - Yamadera, Japão
Escrever um bom Haicai custava muito até a Matsuo Bashô (1644-94), um mestre nesta forma poética. Tanto que das centenas que publicou apenas vinte por cento são efetivas obras de arte, de acordo com avaliação de um dos mais respeitáveis dos seus admiradores no Ocidente, Reginald Horace Blyth (1898 – 1964).
Além de simplicidade, Haicai requer síntese. Equivalentes da simplicidade e síntese que caracterizam os provérbios populares. Tão difíceis de serem atingidas que Macedônio Fernández (1874-1952) o filósofo argentino amigo de Jorge Luis Borges (1899-1986), sustentava a seguinte tese:
“É garantia de que um homem seja gênio a invenção de um provérbio; o provérbio inventado individualmente é um vino viejo improvisado, a velhice do novo, muito difícil e extraordinariamente vantajosa”.
Conseqüência natural destas e de outras dificuldades, numa antologia de haicaístas brasileiros organizada por Koji Sakaguchi e editada por Massao Ohono em 1990, vi muito bicho que não conheço, várias “Lagartas com asas” e estas Borboletas:
Começa a ventar:
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.
luzes acesas
vozes amigas
chove melhor
Tão longa a jornada
e a gente cai, de repente,
no abismo do nada.
Borboletas criadas, respectivamente, por estas três mulheres: Neusa Peçanha, Alice Ruiz e Helena Kolody.
Os que traduzem para o português Haicais escritos originalmente em japonês bem que poderiam se dispensar de aplicar a mesma métrica para idiomas tão distintos. Não sei contar sílaba poética, mas tenho a impressão de que não foi submissão a regra métrica que levou o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) a traduzir Bashô assim:
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
para ver a lua.
Mesmo que não seja o caso deste, entendo que submissão a regra métrica contribui muito para a baixa qualidade artística da avalanche de Haicais publicados por aqui.
Predominam aqueles que, comparados com Peixe vivo, é Peixe morto: falta-lhes movimento.
Em grau variável, e que não raro determina seu valor, o melhor Haicai geralmente inclui algo entre o contraste e o inesperado; é principalmente este componente que lhe dá movimento, lhe confere vida.
Até imagem falta a boa parte dos Haicais brasileiros.
Haicai que requer ilustração não é propriamente Haicai, é legenda; síntese sem imagem e movimento é mera descrição poética, se tanto.
Facilmente compreensível a dificuldade de conciliar simplicidade e síntese, obtendo imagem e movimento, quando o instrumento de trabalho é o idioma português, espanhol ou inglês, por exemplo.
Além de mais rico em poder de expressão do que estes, o idioma japonês conta com a escrita ideogrâmica, que favorece enormemente o haicaísta: a própria escrita mostra em certa medida aquilo a que ela se refere.
Tem-se dito, aliás, que a mente dos artistas japoneses é um aparato fotográfico cuja objetiva é o olho.
Mau poeta todo mundo é ou pode tornar-se. Aqueles que, além disso, são ingênuos imaginam que Issa (1763-1827), Buson (1716-83) ou Bashô escreveram exatamente aquilo que alguém traduziu e publicou no Brasil sob seus nomes: coisas insípidas, superficiais, feias, burras até. Geralmente recolhidas entre aquilo que produziram de melhor.
E foi esse tipo de tradução que mais proliferou.
Como é fácil, por ser feio, como é simplório, não simples, como não encerra a sabedoria e beleza do original, todo mau poeta é capaz de escrever algo equivalente no respectivo idioma nativo.
Melhor seria, talvez, que toda tradução fosse livre ou literal. Afinal, é tão intricado traduzir Haicai japonês que até mesmo Bashô em mãos de Bandeira fica não-bom em obra-prima:
Quimonos secando
Ao sol. Oh aquela manguinha
da criança morta!
Para exemplificar o efeito da submissão a regras, escolhi ao acaso na citada antologia – 100 Haicaístas Brasileiros – os dois de Lyad de Almeida, natural de Niterói, nascida em 1922, que publica Haicai desde 1961:
Favela. A lua
faz das latas do barracos
finas pratarias.
Finados.
Sacrifício das flores
para embelezar a morte.
Têm imagem; falta beleza.
Simplicidade e síntese; sem movimento.
Atingiria meu objetivo se escolhesse os dois escritos por Afrânio Peixoto (1876-1947), baiano de Lençóis, apresentado como “o precursor” do Haicai no Brasil.
Além de serem, do meu ponto-de-vista, não-obras-de-arte, incluem título, elemento estranho ao Haicai japonês.
Guilherme de Almeida (1890-1969), também citado, parece que tinha a pretensão de introduzir, além de título, mais uma regrinha ao Haicai daqui: a da rima.
Em volta, Primavera.
Riqueza de não ser dono de nada,
contentamento na solidão.
Alegria de ajudar as Lagartas
na crise da metamorfose;
prazer de cuidar delas crisálidas
para haver mais Borboletas no Verão.
Na época em que escrevi isto eu morava numa casa na periferia de Curitiba. E me vem à mente para repetir que não é fácil transmitir sinteticamente emoção em grau de beleza que mereça a classificação de poética.
Com 17 sílabas é difícil falar do belo em português.
Não é fácil em idioma algum, mas em chinês e japonês é incomparavelmente mais fácil do que em português ou inglês.
Um exemplo:
Waga koi wa
Matsu o shigure no
Somekanete
Makuzu-ga-hara mi
Kaze sawagu nari
My Love is like autumn shower
which failed to tint (with red)
the evergreen pine.
My heart trembles with despair,
at the melancholy sounds of
the autumn wind ruffling the ivy
leaves of the Miyagino plain.
Meu amor é como a chuva de Outono,
que cai avermelhando o pinheiro sempre verde.
Meu coração treme de desespero:
o melancólico vento de Outono agita as ervas,
que deixo nos campos de Miyagino.
O poema é do chinês Jichin e a tradução livre para o inglês foi feita por Shigetaka Keneco e Setsuko Yoshino; a formulação em português é minha.
O objetivo é mostrar na prática o quanto é relativamente condensado o idioma chinês, pai do japonês. E no caso dos Haicais a dificuldade da tradução aumenta se existe o propósito de observância a uma métrica coerente com a sensibilidade de pessoas que até no funcionamento dos hemisférios cerebrais é o avesso, em vários aspectos, dos brasileiros.
Tentar minimizar a relativa precariedade de recursos do nosso idioma ou suprir capacidade de expressão introduzindo título ao Haicai é inaceitável, porque deturpa esta genial forma poética.
Num Haicai óbvia e desnecessariamente intitulado Metamorfose, também incluído na antologia de Sakaguchi, Paulo Lopes da Silva, baiano de Itacaré, pretende transmitir a poesia de uma cena que presenciei algumas vezes no Paraná.
Escreveu isto:
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
“Lagarta com asas” é expressão que vi empregada por um crítico num estudo sobre estampas chinesas e japonesas, para referir-se àquilo que não logrou ser arte.
Conforme confessei, não sei contar sílaba poética; por isso não poderia dizer se Silva escreveu conforme a regra métrica, ou não. O que sei é que seu Haicai não traduz poeticamente a cena do vôo primal de um lepidóptero; ao menos de duas espécies que nasceram lá em casa e que descrevi assim:
Termina a metamorfose.
Presa à casca da crisálida,
passa o dia,
deixa-se completar.
A hora é aquela de passarinho ir dormir:
por instantes,
uma forte tensão vibra as asas
e a Borboleta inventa a arte de voar!