Arquivo para Setembro, 2008

Quem não é capaz de viver só não sabe o que é ser livre

Para encher a cabeça III

 

            Esta é terceira vez que ocupo espaço neste Trevo do Talvez com um post sob o título Para encher a cabeça. A propósito do conteúdo do conjunto de textos escolhidos – uns lúdicos, outros sisudos – repito o que escrevi na abertura do primeiro: Você enche sua cabeça de futilidades ou de coisas significativas; vazia ela não fica.

 

            Véspera de mais um final de semana, aqui vão outras futilidades e outras coisas significativas, todas recolhidas aleatoriamente em meu Diário.

 

Do pampa

 

            É o céu e um traço,

            o céu e o pampa.

            E tem esses entardeceres!”

 

            Do pintor Iberê Camargo,

            descrevendo o interior do Rio Grande do Sul,

            explicando a origem da tristeza dos seus quadros.

 

            Que a felicidade não se compra, você já sabe; não pense que ela consiste em fazer compra.

 

Do som

           

            “A grande afinidade é o som” – disse-me hoje (1-9-90) em sonho uma mulher.

           

            “A voz é metade da pessoa” – diz em Os Desvalidos, Francisco José Costa Dantas.

           

            “O efeito inspirador do som invisível que emociona os corações dos homens, unindo-os, é um enigma que perdura desde os tempos mais remotos” – diz o I Ching no hexagrama Entusiasmo.

           

            “A voz é a flor da beleza” – diz Zenão, citado nos Ensaios de Montaigne.

 

Do saber inútil

 

            O motorista estaciona o Fiat na frente do edifício residencial cinco horas da manhã, não encontra a esperá-lo a pessoa que busca, aciona a buzina e, voltando-se para os ocupantes do veículo, diz com empáfia de pseudo professor:

 

            - Fazer isso é errado; o certo é descer, ir lá na portaria e chamar pelo interfone!

 

            Pronto: é assim que o torpe se livra da culpa, preservando o prazer da preguiça.

 

Da ilusória moderação

 

            Uma casinha ao pé da serra não é difícil; o difícil é contentar-se com uma casinha ao pé da serra.

 

Você tem medo de que?

                       

            - Tem sapo lá dentro, menino!

           

            - Ele não tem medo de bicho, não.

           

            - Não?

           

            - Só de Borboleta.

           

            Conversa entre duas mulheres num ponto de ônibus,

            na periferia de Curitiba.

           

 

Sobre a arte de escrever Haicai e as conseqüências de achar que o simples corresponde ao fácil

Imenso azul:

um barquinho de ouro,

navega a lua nova.

 

Determinado a conquistar fama, o inexperiente confunde simplicidade com superficialidade e, com seu equívoco, contribui para a banalização e desprestígio de muitas formas de arte.

 

É o que acontece entre nós relativamente à mais notável forma poética concebida pelos japoneses: o Haicai.

 

Aparentemente é fácil o simples; daí tanto Haicai que não suscita nada. Tanto Haicai que apenas entedia o leitor.

 

Da mesma forma que ocorre relativamente à vida, o simples em arte é o mais difícil.

 

Friedrich Nietzsche (1844-1900) tinha na conta de pensador alguém que sabe como tornar as coisas mais simples do que elas são.

 

A simplicidade – teoriza o escultor Auguste Rodin (1840-1917) – é a condição primordial da felicidade e da beleza; a facilidade – ensina o pintor Wasily Kandinsky (1866-1944) – não se obtém sem esforço.

 

A regra geral é esta: se não custa fazer, não há prazer; a natureza não se deixa enganar.

 
 

 

 

Matsuo Bashô - Yamadera, Japão

Matsuo Bashô - Yamadera, Japão

 

 

 

Escrever um bom Haicai custava muito até a Matsuo Bashô (1644-94), um mestre nesta forma poética. Tanto que das centenas que publicou apenas vinte por cento são efetivas obras de arte, de acordo com avaliação de um dos mais respeitáveis dos seus admiradores no Ocidente, Reginald Horace Blyth (1898 – 1964).

 

Além de simplicidade, Haicai requer síntese. Equivalentes da simplicidade e síntese que caracterizam os provérbios populares. Tão difíceis de serem atingidas que Macedônio Fernández (1874-1952) o filósofo argentino amigo de Jorge Luis Borges (1899-1986), sustentava a seguinte tese:

 

“É garantia de que um homem seja gênio a invenção de um provérbio; o provérbio inventado individualmente é um vino viejo improvisado, a velhice do novo, muito difícil e extraordinariamente vantajosa”.

 

Conseqüência natural destas e de outras dificuldades, numa antologia de haicaístas brasileiros organizada por Koji Sakaguchi e editada por Massao Ohono em 1990, vi muito bicho que não conheço, várias “Lagartas com asas” e estas Borboletas:

 

Começa a ventar:

o velho apanha o casaco,

o menino, a pipa.

 

luzes acesas

vozes amigas

chove melhor

 

Tão longa a jornada

e a gente cai, de repente,

no abismo do nada.

 

Borboletas criadas, respectivamente, por estas três mulheres: Neusa Peçanha, Alice Ruiz e Helena Kolody.

 

Os que traduzem para o português Haicais escritos originalmente em japonês bem que poderiam se dispensar de aplicar a mesma métrica para idiomas tão distintos. Não sei contar sílaba poética, mas tenho a impressão de que não foi submissão a regra métrica que levou o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) a traduzir Bashô assim:

 

Quatro horas soaram.

Levantei-me nove vezes

para ver a lua.

 

Mesmo que não seja o caso deste, entendo que submissão a regra métrica contribui muito para a baixa qualidade artística da avalanche de Haicais publicados por aqui.

 

Predominam aqueles que, comparados com Peixe vivo, é Peixe morto: falta-lhes movimento.

 

Em grau variável, e que não raro determina seu valor, o melhor Haicai geralmente inclui algo entre o contraste e o inesperado; é principalmente este componente que lhe dá movimento, lhe confere vida.

 

Até imagem falta a boa parte dos Haicais brasileiros.

 

Haicai que requer ilustração não é propriamente Haicai, é legenda; síntese sem imagem e movimento é mera descrição poética, se tanto.

 

Facilmente compreensível a dificuldade de conciliar simplicidade e síntese, obtendo imagem e movimento, quando o instrumento de trabalho é o idioma português, espanhol ou inglês, por exemplo.

 

Além de mais rico em poder de expressão do que estes, o idioma japonês conta com a escrita ideogrâmica, que favorece enormemente o haicaísta: a própria escrita mostra em certa medida aquilo a que ela se refere.

 

Tem-se dito, aliás, que a mente dos artistas japoneses é um aparato fotográfico cuja objetiva é o olho.

 

Mau poeta todo mundo é ou pode tornar-se. Aqueles que, além disso, são ingênuos imaginam que Issa (1763-1827), Buson (1716-83) ou Bashô escreveram exatamente aquilo que alguém traduziu e publicou no Brasil sob seus nomes: coisas insípidas, superficiais, feias, burras até. Geralmente recolhidas entre aquilo que produziram de melhor.

 

E foi esse tipo de tradução que mais proliferou.

 

Como é fácil, por ser feio, como é simplório, não simples, como não encerra a sabedoria e beleza do original, todo mau poeta é capaz de escrever algo equivalente no respectivo idioma nativo.

 

Melhor seria, talvez, que toda tradução fosse livre ou literal. Afinal, é tão intricado traduzir Haicai japonês que até mesmo Bashô em mãos de Bandeira fica não-bom em obra-prima:

 

Quimonos secando

Ao sol. Oh aquela manguinha

da criança morta!

 

Para exemplificar o efeito da submissão a regras, escolhi ao acaso na citada antologia – 100 Haicaístas Brasileiros – os dois de Lyad de Almeida, natural de Niterói, nascida em 1922, que publica Haicai desde 1961:

 

Favela. A lua

faz das latas do barracos

finas pratarias.

 

Finados.

Sacrifício das flores

para embelezar a morte.

 

Têm imagem; falta beleza.

Simplicidade e síntese; sem movimento.

 

Atingiria meu objetivo se escolhesse os dois escritos por Afrânio Peixoto (1876-1947), baiano de Lençóis, apresentado como “o precursor” do Haicai no Brasil.

 

Além de serem, do meu ponto-de-vista, não-obras-de-arte, incluem título, elemento estranho ao Haicai japonês.

 

Guilherme de Almeida (1890-1969), também citado, parece que tinha a pretensão de introduzir, além de título, mais uma regrinha ao Haicai daqui: a da rima.

 

Em volta, Primavera.

Riqueza de não ser dono de nada,

contentamento na solidão.

Alegria de ajudar as Lagartas

na crise da metamorfose;

prazer de cuidar delas crisálidas

para haver mais Borboletas no Verão.

 

Na época em que escrevi isto eu morava numa casa na periferia de Curitiba. E me vem à mente para repetir que não é fácil transmitir sinteticamente emoção em grau de beleza que mereça a classificação de poética.

 

Com 17 sílabas é difícil falar do belo em português.

 

Não é fácil em idioma algum, mas em chinês e japonês é incomparavelmente mais fácil do que em português ou inglês.

 

Um exemplo:

 

Waga koi wa

Matsu o shigure no

Somekanete

Makuzu-ga-hara mi

Kaze sawagu nari

 

My Love is like autumn shower

which failed to tint (with red)

the evergreen pine.

My heart trembles with despair,

at the melancholy sounds of

the autumn wind ruffling the ivy

leaves of the Miyagino plain.

 

Meu amor é como a chuva de Outono,

que cai avermelhando o pinheiro sempre verde.

Meu coração treme de desespero:

o melancólico vento de Outono agita as ervas,

que deixo nos campos de Miyagino.

 

O poema é do chinês Jichin e a tradução livre para o inglês foi feita por Shigetaka Keneco e Setsuko Yoshino; a formulação em português é minha.

 

O objetivo é mostrar na prática o quanto é relativamente condensado o idioma chinês, pai do japonês. E no caso dos Haicais a dificuldade da tradução aumenta se existe o propósito de observância a uma métrica coerente com a sensibilidade de pessoas que até no funcionamento dos hemisférios cerebrais é o avesso, em vários aspectos, dos brasileiros.

 

Tentar minimizar a relativa precariedade de recursos do nosso idioma ou suprir capacidade de expressão introduzindo título ao Haicai é inaceitável, porque deturpa esta genial forma poética.

 

Num Haicai óbvia e desnecessariamente intitulado Metamorfose, também incluído na antologia de Sakaguchi, Paulo Lopes da Silva, baiano de Itacaré, pretende transmitir a poesia de uma cena que presenciei algumas vezes no Paraná.

Escreveu isto:

 

A lagarta preta

Batendo as asas, se erguendo

Vira borboleta.

 

Lagarta com asas” é expressão que vi empregada por um crítico num estudo sobre estampas chinesas e japonesas, para referir-se àquilo que não logrou ser arte.

 

Conforme confessei, não sei contar sílaba poética; por isso não poderia dizer se Silva escreveu conforme a regra métrica, ou não. O que sei é que seu Haicai não traduz poeticamente a cena do vôo primal de um lepidóptero; ao menos de duas espécies que nasceram lá em casa e que descrevi assim:

 

Termina a metamorfose.

Presa à casca da crisálida,

passa o dia,

deixa-se completar.

A hora é aquela de passarinho ir dormir:

por instantes,

uma forte tensão vibra as asas

e a Borboleta inventa a arte de voar!

Onde o ciúme não brotar, não existe amor; mas ciúme não é flor que convenha cultivar.

É um anacronismo conferir direito a quem se dispensa de conter ciúme; como se aqui fosse meritório até matar.

 

Foi este o primeiro dos fragmentos de um livro da minha autoria em fase final de elaboração que me vieram à mente depois de ler no site da Revista Consultor jurídico um artigo da procuradora de justiça Luiza Nagib Eluf intitulado A paixão e o crime, datado de 7 de janeiro de 2003.

 

Ceguei ao artigo a partir da notícia do lançamento, nesta terça-feira (23/9/2008) em São Paulo, de um novo livro escrito por ela – Matar ou Morrer – que tem como pano de fundo a morte de Euclides da Cunha.

 

Meu interesse pelo autor de Os Sertões não perde para o que tenho pelo sentimento que definimos pela palavra ciúme nos seus mais diversos aspectos, entre eles o focado pela procuradora de justiça paulista.

 

Sou partidário do princípio formulado pela Marquesa de Sévigné, segundo o qual “tudo compreender é tudo perdoar”.

Marie de Rabutin-Chantal, Marquesa de Sévigné (1626-96)

Marie de Rabutin-Chantal, Marquesa de Sévigné (1626-96)

 

 

É fundamental, porém, não confundir perdoar com desculpar.

 

Tudo tem perdão, desculpa, não; o que não tem desculpa é o que requer punição, para favorecer a evolução, no sentido da plena civilização.

 

Tudo desculpar é assumir condição de omisso no erro, de cúmplice no mal.

 

A leitura do parágrafo que se segue, do já referido artigo da procuradora Luiza Eluf, permite avaliar a complexidade da questão jurídica relacionada com homicídios movidos por ciúme ou, de forma mais genérica, por “paixão”, conforme ela escreve.

 

“Luiz Ângelo Dourado, especializado em psicologia criminal, entende que o homicida passional é, acima de tudo, um narcisista. Ele passa a vida enamorado de si mesmo; elege a si próprio, ao invés de aos outros, como objeto de “amor”. Não possui autocrítica e exige ser admirado, exaltado pelas qualidades que não tem. Não acontecendo assim, sente-se desprezado, morto, destruído, liquidado. Contra isso, luta com todas as armas, podendo até matar para evitar o colapso de seu ego. Reage contra quem teve a audácia de julgá-lo uma pessoa comum, que pode ser traída, desprezada, não amada.”

 

Muito consciente de que, a exemplo de qualquer um, estou sujeito a morrer daqui a pouco, não pretendo aqui mais do que tornar público o quanto antes um conjunto dos fragmentos do meu livro com reflexões sobre ciúme, na expectativa de contribuir para a redução, mínima que seja, dos números dramáticos mencionados na abertura do artigo, todo ele muito instrutivo:

 

“Um levantamento feito pela organização não governamental “União de Mulheres de São Paulo”, em 1998, com base em dados das Delegacias de Polícia, concluiu que pelos menos 2.500 mulheres são mortas por ano, no país, vítimas de crimes passionais.”

 

Eis o conjunto de fragmentos do meu livro, conforme a disposição de momento:

 

Onde o ciúme não brotar, não existe amor; mas ciúme não é flor que convenha cultivar.

 

Dos sofrimentos ligados ao ‘amor-paixão’, um dos mais difíceis de suportar é o que decorre do ciúme involuntário; ciúme proposital é uma faceta sádica da galanteria, é próprio dos amores menores.

 

Comparável ao pior do que imaginou aquele que nunca amou com paixão, dificilmente suportável é a dor que decorre de ser excluído, sem incontestável razão, de qualquer dos programas de diversão do parceiro de um amor sensual em processo de ‘cristalização’.

 

Ciúme de modo geral é zelo desmedido, antes de se tornar tirania indesculpável. Tão apropriada ao caso, talvez seja decorrência deste sentimento mais esta lição de Montaigne: Quem menos se irrita ou se apaixona é quem melhor dirige o jogo, e com maiores probabilidades de êxito.

 

Umas das mais comuns entre as mais inconveniente das atitudes dos apaixonados é pretender tornar o prazer que se experimenta obrigação de quem o desperta.

 

O ciumento é, antes de tudo, um chato.

 

Baseado no fato de amar, o ciumento arvora-se ao direito de limitar a liberdade do outro em nome do seu próprio bem-estar. La Bruyère amplia a compreensão desta questão ao se referir a pessoas que, depois de ter renunciado aos prazeres por conveniência, por relaxamento ou por doença passam a condená-los nos outros, e caracteriza também como ciúme esta atitude de pretender que um bem que perdemos não estivesse disponível para ninguém mais.

 

Gostar não confere direito nem justifica desrespeito.

 

É um anacronismo conferir direito a quem se dispensa de conter ciúme; como se aqui fosse meritório até matar.

 

Amor é liberdade: prendeu, perdeu!

 

Tão difícil quanto saber a quem coube a primazia é avaliar a quem mais custa manter a monogamia entre aqueles que compartilham amores menores; exceção à parte, poligamia ou infidelidade sexual é incompatível com o mútuo ‘amor-paixão’, e boa parte do que se denomina adultério é exercício da liberdade por que homens e mulheres têm o dever de lutar. – A propósito, sabe-se que a monogamia é rara entre os mamíferos, quase desconhecida entre os primatas e parece a alguns estudiosos, entre eles David Barash, uma invenção relativamente recente de certas culturas humanas. Biógrafo de Jung, Frank Mc Lynn revela que o psicanalista suíço defendia o amor livre, e comenta que ele foi bastante franco com Freud a respeito, afirmando taxativamente que o êxito matrimonial implicava na licença da infidelidade. Também pregando em causa própria, Nelson Rodrigues dizia que a fidelidade devia ser uma virtude facultativa. Dorothy Parker, por sua vez, apresentou para toda essa questão a seguinte explicação: Avidamente promíscuo, o homem é polígamo; interesseiramente fiel, a mulher é monógama.

 

Menos que medida da paixão, a dedicação ao ciúme é expressão de fraqueza e do pior egoísmo.

 

Em relacionamento afetivo, a intenção de prender é um passo para perder; nenhum benefício do amor ou da amizade compensa o sacrifício da liberdade.

 

Todo relacionamento afetivo implica em maior ou menor grau de comprometimento da liberdade pessoal; a paixão bem sucedida depende da eficiência e do custo da administração de cada concessão.

 

Ciúme não afere amor; fere.

 

Separação:

dormir, morrer…

Acordar pra quem,

viver pra quê?

 

Pretender que não se esgotem os relacionamentos amorosos é uma forma comum de inviabilizá-los; admitida a regra da exceção, realmente não passa de mito o amor imortal. Sendo assim, conforme escreve Aristóteles, se você anda repetindo muito ‘eu preciso tanto de você’ ou, ‘você é a razão da minha vida’, cuide-se.

 

A doença que mais mata amor é descuido; mata até mais do que incapacidade intelectual de cuidar.

 

Pode-se afirmar que efetivamente o amor morreu quando aquele que era seu objeto torna-se para nós um estranho.

… essencialmente, felicidade é quantidade de sofrimento compreendido.

Sobre uma história zen

Utagawa Hiroshige (1797-1858)

Utagawa Hiroshige (1797-1858)

 

Depois de procurar algumas vezes, localizei no início dos anos 90 uma história zen que me marcou profundamente e que foi importante, diria mesmo fundamental, para a atitude que assumi quando, em Curitiba, no dia 20 de maio de 1989, mergulhei no Nada.

 

Isto é, passei pela “experiência numinosa” referida pelo psicanalista Carl Gustav Jung, popularmente conhecida entre nós como “estalo” de Vieira, e que entre os budistas é denominada iluminação.

 

Vieira, para quem ainda não sabe, é o padre jesuíta António Vieira, nascido em Lisboa e falecido em Salvador, notabilizado por seus sermões.

 

A propósito, elaborei uma síntese dos seis conhecidos por Sermões do Mandato, que publiquei neste Trevo do Talvez a título de homenagem pelos 400 anos do nascimento dele, que se completaram em fevereiro deste ano.

 

Devo registrar que até hoje me surpreendo por ter ampliado a história zen em minha memória, conforme se verá ao compará-la com o resumo que se segue, baseado no meu Diário:

 

Certo dia, na China ou Japão, um monge budista solicitou ao seu superior uma audiência particular com o superior do Mosteiro, um iluminado bastante idoso, circunstâncias que requeriam motivos excepcionais para que fosse ela concedida.

 

Algum tempo depois, no início da manhã e sem aviso prévio, o monge foi conduzido à presença do Mestre, que de pronto lhe perguntou o que desejava.

 

- Estou aqui porque tenho pensado seriamente em desistir de buscar minha iluminação.

 

- Mas por que?

 

- Fazem uns dez anos que ingressei neste mosteiro, depois de renunciar a uma vida confortável; tenho observado rigorosamente todas as normas, seguido as orientações que recebo; faço minhas preces e medito diariamente, trabalho… Enfim, tenho feito tudo que me dizer ser necessário para alcançar a iluminação e até agora, nada. Estou cansado; desisto. Volto para minha vida de antes.

 

Sereno, como é próprio de um homem experiente, o Mestre simplesmente perguntou:

 

- Você já tomou seu mingau?

 

- Sim; tinha acabado de tomar no momento em que fui chamado para este encontro.

 

- Então vá lavar a tigela!

 

Até tomar conhecimento desta história eu ansiava por outro tipo de felicidade. Fora da Terra – talvez se pudesse dizer. A partir da sua leitura me dei conta de que procurava uma fantasia. E me conscientizei aos poucos de que fantasia não constitui felicidade. Depois da experiência que denominei mergulho no Nada tal entendimento se tornou convicção absoluta. A partir daí passei a lavar minha “tigela”. E me convenci com serenidade de que terei que fazer isto até a morte, como coisa natural.

 

Isto eu propriamente não sabia até a experiência psicológica em Curitiba, a despeito de ter lido e memorizado a história que acabo de resumir.

 

É esta coisa aparentemente tão simples que a maior parte não consegue compreender, ou se recusa a tentar compreender, preferindo alimentar a fantasia.

 

Ser algo banal é o que torna a descoberta tão difícil.

 

Concluindo, eis aqui a história, tal qual li pela primeira vez, e que faz parte de uma conferência do Dr Daisetz Teitaro Suzuki, pioneiro na divulgação do zen budismo no Ocidente, publicada em Zen Budismo e Psicanálise – Cultrix p. 40:

 

Um monge perguntou, certa vez, a Joshu Jushin (778-897):

“Que é o meu Eu?”

Disse Joshu:

“Você terminou seu mingau da manhã?”

- Sim, já terminei.

Voltou Joshu:

- Então lave sua tigela.

 

P. S. Para não me expor ao risco de transmitir a qualquer pessoa uma idéia vaga sobre meu entendimento atual a respeito de felicidade, entendi como indispensável transcrever um fragmento sobre este tema, componente de um livro que me ocupa há alguns anos e que se encontra em fase final de elaboração: Mil vezes mais do que prazer usufruído, essencialmente, felicidade é quantidade de sofrimento compreendido.

Riscos inerentes à forma de se expressar empregada por La Rochefoucauld

Denota presunção tomar a si próprio como referencial da forma mais adequada da espécie humana se comportar quem quer que, de propósito ou não, opte por um tipo de formulação largamente empregado por François de La Rochefoucauld:

Duque de La Rochefoucauld (1613-80)

Duque de La Rochefoucauld (1613-80)

“Não achamos de bom senso quem não é de nossa opinião”.

 

Dizer isto é ver em todo mundo um sectário.

 

Refletindo de modo mais abrangente, é enorme o risco que se corre de chegar ao final da leitura das Máximas e Reflexões dele convencido de que o ser humano é hipócrita por natureza.

 

Até Roland Barthes encontrou dificuldade para se recuperar do abalo que a leitura lhe causou, conforme de lê na orelha de uma primorosa edição da Editora Imago, com tradução de Leda Tenório da Motta:

 

“Das 561 máximas de que se compõe o célebre livrinho, pode-se dizer que é relativamente insignificante o número daquelas que não giram em torno da hipocrisia; o Sr La Rochefoucauld acaba por convencer os incautos de que a rigor não existem virtudes, mas vícios dissimulados; que as paixões nobres não passam de máscaras para se praticar comodamente o mal. Em suma: de acordo com ele, ser bom é menos que uma exceção na espécie humana; é uma anomalia”.

 

Ao optar por uma forma de expor suas idéias em que se coloca como personagem da ação, ele aumenta seu poder de convencimento; apresenta-se ele próprio como paradigma do hipócrita.

 

Considerando que tanto para o bem qual para o mal a força do exemplo é igual…

 

É tal a ênfase que La Rochefoucauld confere à questão da hipocrisia que ao final da leitura é difícil encontrar alguém que não esteja propenso a duvidar, mais que da sinceridade alheia, dos seus próprios sentimentos, esquecido de que estes são, por natureza, instáveis; que entre a coragem e a covardia existem mais estados do que segundos um dia.

 

P. S. Que ninguém depreenda do escrito acima que a leitura do muito denso livrinho não é importante para a formação das pessoas efetivamente interessados em se tornarem dignas de serem consideradas cultas. O que se pretende aqui é justamente advertir para o inconveniente da linha de raciocínio por ele adotada ao elaborar muitas de suas máximas e reflexões.

 

Adoráveis, inesperadas mulheres …

Gabrielle Bonheur Chanel (1883-1971) Coco Chanel

Gabrielle Bonheur Chanel (1883-1971) Coco Chanel

 

Adoráveis,

inesperadas

mulheres

que surgem

na frente

da gente,

de repente

na rua,

parecidas

vindas

de páginas

de revistas

de trinta e tantos

anos atrás,

ou da Lua,

tanto faz.

Considerações sobre as conseqüências da denominação da partícula atômica que explicaria a origem do Universo

Tenho a impressão de que a iniciativa de denominar o bóson de Higgs (ver Nota) “partícula de Deus” é uma concessão dos idealizadores da construção do acelerador e colisor de partículas atômicas LHC – Large Hadron Collider, na sigla em inglês* – para garantir os recursos necessários à sua construção.

 

Afinal, algo parecido com U$ 10 bilhões não se acha em fundo de quintal.

Acelerador e colisor de particulas atômicas

Acelerador e colisor de partículas atômicas

 

 

Se considerarmos que no plano metafísico o infinitamente grande é literalmente igual ao infinitamente pequeno, a preservação da idéia de existência de uma entidade denominada Deus como sendo responsável pela criação do Universo estará assegurada qualquer que seja o resultado do experimento.

 

Eu diria que isto ocorrerá especialmente no caso de se comprovar que o bóson de Higgs é explicação suficiente para a origem de tudo que temos em volta. O fracasso reforçará o prestígio das mil formas de Deus que a humanidade se habituou a repetir como explicação bastante para a concepção de tudo.

 

Entre aqueles que olham para o LHC como farta fonte de emprego e renda, há mais gente torcendo pela decepção do que pela solução da questão suscitada pelos raciocínios do físico britânico Peter Higgs. Foi ele que previu, em 1964, a existência das partículas que levam seu nome, trabalhando idéias de Philip Warren Anderson, físico norte-americano.

 

Para se convencer disso basta ler os três parágrafos que se seguem, parte de uma reportagem assinada por Marcelo Ninio e Igor Zolnerkevic, publicada no jornal Folha de São Paulo em 11/09/2008:

 

“Entre os resultados mais aguardados está a descoberta do bóson de Higgs, a “partícula de Deus”, que daria massa a todas as demais.

 

A descoberta, que pode levar até três anos devido à complexidade do processamento dos dados coletados, confirmaria o Modelo Padrão, teoria que usa partículas e forças para explicar o mundo microscópico. Para os cientistas envolvidos no projeto, entretanto, sejam quais forem as suas descobertas, o LHC representará uma revolução para a física.

 

“Se o Modelo Padrão não for confirmado acho que teremos um resultado ainda mais fascinante, pois será preciso buscar outros para explicar o Universo”, disse o alemão Karl Jacobs, físico do Atlas, o maior dos quatro detectores do LHC.”

  

Nota: Bósons são partículas de spin inteiro para a qual vale a estatística de Bose-Einstein [Aos bósons não se aplica o princípio de exclusão de Pauli; são exemplos de bósons os fótons, as partículas alfa e os píons.]

Spin é o momento angular intrínseco de uma partícula que toma valores característicos para tipos diferentes de partículas [O spin possui valores quantizados restritos a múltiplos inteiros ou semi-inteiros da constante de Planck dividida por 2 pi = 3,1416]

 

* Hádron é o nome genérico das partículas elementares que se relacionam através de interação forte.

 

Fonte: Dicionário Houaiss

Para corrigir uma injustiça praticada contra Erthos Albino de Souza

Sobre revisão

 

Parece-me injusto que seja negada a Erthos Albino de Souza a condição de co-autor da segunda edição da ReVISÃO DE KILKERRY assinada por Augusto de Campos; e por me parecer injusto, parece-me hipócrita o fato de que o livro seja dedicado a ele, “pelo muito que fez por Kilkerry”.

Até Freud desconfiaria deste adendo à dedicatória, mas eu sei a razão dele.

E pelo que sei, entendo que o mais justo seria reconhecer a co-autoria.

No mínimo, o equivalente de uma Nota que Anne Steveson colocou na sua biografia de Sylvia Plath, publicada entre nós pela Editora Rocco:

“Ao escrever esta biografia recebi grande ajuda de Olwyn Hughes, agente literária do espólio de Sylvia Plath. As contribuições de Olwyn Hughes ao texto tornaram-no quase uma obra de dupla autoria. Sou grata em particular por seu trabalho relacionado com os quatro últimos capítulos e os poemas de Ariel de outubro de 1962”.

 

ATENÇÃO: Redigi a nota acima em algum momento do início dos anos 90 e somente agora tenho condições de torná-la pública. Como não quero me expor ao risco de privar o Sr Augusto de Campos de corrigir a injustiça que aponto, faço isto imediatamente, motivado pelo fato de me deparar casualmente com o site dele, onde a obra está listada.

 

Um romance com a resposta para a seguinte questão: Seria eu artista?

Quem tem dúvida sobre sua própria condição de artista pode desfazê-la facilmente a partir da leitura de Tonio Kröger, o pequeno romance de Thomas Mann. Importante para minha formação, eu o li em algum momento do início dos anos 80 e, como de hábito, transcrevi alguns dos trechos que me pareceram mais importantes.

 

Ocupado em elaborar um novo post para este Trevo do Talvez, deparei-me com as anotações e decidi transcrevê-las aqui, tal como foram por mim datilografadas ainda nos anos 80. Pretendo que sejam capazes de conquistar interesse pela leitura integral do livrinho magistral.

O que pretende ser?

O que pretende ser?

 

 

Anotações sobre Tonio Kröger: um arremedo de resenha

 

            - O que pretende ser?

            - Trago em mim – respondia Tônio Kroeger – possibilidades para mil existências, mas tenho no íntimo o conhecimento de, no fundo, serem tudo coisas impossíveis.

            Deixou sua cidade. Tinha crescido e ficara inteligente, compreendera o que se passava com ele e estava cheio de escárnio pela existência grosseira e baixa que por tanto tempo o segurara no seu meio.

            Entregou-se ao poder do espírito e da palavra. Aguçou o olhar, fazendo-o compenetrar-se das grandes palavras que enchem o peito do homem, descobriu-lhe as almas dos homens e a sua própria, deu-lhe clarividência e mostrou-lhe o fim que está atrás das palavras e atos. Mas o que ele via era isto: comicidade e miséria – comicidade e miséria.

            Então veio a solidão, com o tormento e o orgulho da cognição, porque não se sentia bem no círculo dos inocentes com alma alegre e obscura e estes, por sua vez, sentiam-se perturbados pelo sinal na sua testa.

            Mas a alegria na palavra e nas formas se tornou cada vez mais doce para ele, pois costumava dizer que o conhecimento da alma somente nos faria infalivelmente tristonhos, e o contentamento da expressão não nos conservasse acordados e alegres…

           

            “É preciso que se seja algo fora da humanidade ou desumano, que se esteja para a humanidade numa relação estranhamente distante e indiferente, para ser-se capaz de interpretar ou mesmo sentir-se tentado a isso, interpretar para apresentar de modo efetivo e com gosto. O dom para o estilo, forma e expressão já pressupõe esta fria e descontente relação com a humanidade. Pois o sentimento são e forte – isto está confirmado – não tem gosto. Morre o artista quando se torna homem e começa a existir.

            A literatura não é profissão alguma, e sim uma maldição – que saiba disso. Quando é que começa a se fazer sentir esta maldição? Cedo, terrivelmente cedo. Em um tempo quando facilmente ainda se pode viver em paz e harmonia com Deus e o mundo. Você começa a se sentir marcado, num contraste misterioso com os outros, os comuns, os cordeiros; o abismo da ironia, da descrença, da oposição, da cognição, do sentimento, que o separa dos homens, torna-se mais e mais profundo, está isolado e daí em diante não há mais entendimento. Que destino! Suponho que o coração esteja suficientemente vivo, e continuou suficientemente amoroso, é um sentimento terrível… Sua consciência incendeia-se porque, entre milhares, sente a marca na sua testa, e percebe que a ninguém escapa.

            Um artista, um verdadeiro artista, não um para quem a arte é sua profissão civil, mas um predestinado e amaldiçoado, este você nota com pouca perspicácia entre a multidão. O sentimento de separação e estranheza, de saber-se reconhecido e observado, algo ao mesmo tempo régio e embaraçoso, é notado em seu rosto.

            Nos traços de um duque que, em trajes civis, passa pela multidão, pode-se ver algo semelhante.

            Mas aqui não ajuda o civil. Ponha um disfarce, uma máscara, vista-se como um adido de embaixada ou um tenente da guarda em férias. Mal precisa levantar os olhos e dizer uma palavra e todos saberão que você não é humano, mas algo estranho, admirável, diferente…

            Mas que é o artista? Perante nenhuma outra pergunta a comodidade e a preguiça de conhecimento da humanidade patentearam-se tão rígidas. “Isso é dom”, diz com humildade, a boa gente que está sob efeitos de um artista, porque efeitos alegres e elevados, na sua opinião benévola, devem ser incondicionalmente também de origem alegre e elevada; ninguém desconfia de que aqui talvez se trate de algo extremamente ruim, de um “dom” extremamente duvidoso… Sabemos que os artistas se sentem facilmente ofendidos – bem, também se sabe que com pessoas de boa consciência e de sólida personalidade, isto geralmente não se dá…

            Veja, nutro contra o tipo de artista, no fundo de minha alma – em sentido figurado -, a inteira desconfiança que todos os meus honrados antepassados, na acanhada cidade, teriam demonstrado a qualquer saltimbanco e artista aventureiro.

            Conheço um banqueiro, um comerciante grisalho, que possui o dom de escrever novelas. Faz uso deste seu dom nas horas de folga e seus trabalhos são, às vezes, excelente. Apesar – digo “apesar” – desta sublime disposição, este homem não é inteiramente honrado; ao contrário, já cumpriu uma grande sentença e por motivos decisivos. Sim, pode-se dizer que foi na prisão que reconheceu o seu dom e suas experiências como preso foram a base fundamental de todas as suas produções. Poder-se-ia, com alguma audácia, chegar à conclusão de  que é preciso ter estado em alguma prisão para se tornar poeta. Mas não se impõe a suspeita de que suas experiências na prisão estivessem, intimamente, menos ligadas às raízes e origens de seu dom artístico, do que aquilo que o levou para lá? Um banqueiro que escreve novelas é raro, não é? Mas um banqueiro, honrado e respeitado e não-criminoso, que escreve novelas – isso não existe…

            Nenhum problema, neste mundo, é mais angustioso que o do dom artístico e seu efeito humano. Pegue a obra mais admirável do típico e, portanto, mais poderoso artista, peque uma obra tão mórbida e profundamente ambígua como Tristão e Isolda, e observe o efeito que esta obra tem sobre o homem jovem, são, com sentimentos fortes e normais. Verá elevação, fortificação, cálido e honesto entusiasmo, talvez o impulso para pessoalmente criar algo “artístico”… O bom amador! Dentro de nós, artistas, a coisa é muito diferente do que ele, com seu “cálido coração” e “honesto entusiasmo” posso imaginar.

            Não se deixar vencer pela tristeza do mundo; observar, perceber, mesmo a maior angústia, e estar de bom humor, sentindo-se absolutamente elevado sobre a abominável invenção do ser – sim, certamente! No entanto, apesar de todos os regozijos da expressão, a coisa toma conta de você. Tudo compreender quer dizer tudo perdoar? Não sei ao certo. Existe algo que eu chamo de nojo do conhecimento.

            O estado do qual basta a um homem penetrar uma coisa para se sentir enojado a ponto de querer morrer (e sem nenhuma disposição para perdoar) é o caso de Hamlet, do dinamarquês, desse literato típico. Ele sabia o que era isto: ser destinado ao conhecimento sem ter nascido para isso.

            Divisar, ainda através do véu de lágrimas do sentimento, reconhecer, perceber, observar e, sorrindo, ter que por de lado o que observou, ainda no momento em que as mãos se entrelaçam, os lábios se encontram, onde o olhar humano, cego pela sensação, se quebra – é infame, é vil, é revoltante… Mas de que adianta revoltar-se?

            Ah! sim, a literatura cansa!

            Amo a vida – isto é uma confissão. Aceite-a e guarde-a – eu nunca fiz a ninguém. Disseram, escreveram mesmo e fizeram imprimir que odeio, ou temo, ou desprezo, ou detesto a vida. Gostei de ouvi-lo, lisonjeou-me; mas nem por isso é menos falso. Amo a vida.

            Não a “vida”, como se apresenta em eterno contraste ao espírito e à arte – não como visão de grandeza sangrenta e beleza selvagem, não como o extraordinário se apresenta a nós, extraordinários; porém, a normalidade, o decoro, a amabilidade é o reino de nossas saudades, é a vida na sua tentadora banalidade! Longe está de ser um artista, minha querida, cuja última e mais profunda exaltação é o requinte, o excêntrico, o satânico, que não conhece a saudade pelo inofensivo, simples e vivo, por um pouco de amizade, dedicação, intimidade e felicidade humana – a saudade secreta e consumidora pelas delícias do trivial!… Um amigo humano! Acredita que me tornaria orgulhoso e feliz de possuir um amigo entre os homens? Mas até então só tive amigos entre demônios, espíritos baixos e espectros mudos na sua ignorância, isto quer dizer: entre literatos.

            É absurdo amar-se a vida e, no entanto, emprenha todos os artifícios em puxá-la para o nosso lado, conquistá-la para as sutilezas e melancolias e toda a doentia nobreza da literatura. O reino da arte cresce e o da saúde e inocência decresce sobre a terra. O que ainda sobra disto devia ser conservado com o maior zelo, e não se deve seduzir para a poesia aqueles que preferem ler livros sobre cavalos, com ilustrações!”

 

Nota: Se não estou enganado, li o romance numa edição da Editora Abril; não anotei o nome do tradutor.

… que me preencha de novo e de sonhos de novo

Vincent van Gogh (1853-1890)

Vincent van Gogh (1853-1890)

Ah outra mulher

que me preencha de novo

e de sonhos de novo;

uma mulher pra quem cantar

“Porque foste na vida

a última esperança

encontrar-te me fez criança…”

numa mesa de bar.

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