Entre os estudos do meu interesse permanente há algumas décadas destaco os relacionados com o funcionamento do cérebro dos seres humanos.
A parte principal deste post é transcrição quase literal de um texto que elaborei no dia 9 de maio de 1993 a partir de anotações recolhidas no meu Diário.
Embora não tenha condições de assegurar que, de lá para cá, a fundamentação científica das observações nele referidas tenha sofrido qualquer alteração, estou certo de que essencialmente continuam válidas.
Faço esta advertência especialmente em razão da banalização do conteúdo da Revista Super Interessante, que cito, ocorrida a partir de algum momento em torno do ano 2000.
Sobre o cérebro
Acabo de ler uma reportagem sobre o funcionamento do cérebro que me permite extrair conclusões sobre, por exemplo, a felicidade, tal como esta era vista por Freud: realização de profundos desejos de infância.
Sinapse é termo para expressar a relação de contato entre os dendritos – prolongamentos – das células nervosas. [“Local de contato entre neurônios, onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra” – conforme o Dicionário Houaiss, que consulto em 7/10/2008]
Informa-se na reportagem que as informações fazem surgir dendritos, o que resulta em maior número de sinapses.
A relação com inteligência é óbvia, mas o que me interessou particularmente foi o papel do afeto como fator de otimização das sinapses, pois encontro aí a explicação para o papel relevante dos profundos desejos de infância na questão básica da felicidade: a realização pessoal.
Um dos entrevistados para a reportagem de Lúcia Helena de Oliveira – Revista Super Interessante n° 12 – o neurologista Saul Cypel, afirma que a existência de mais sinapses em determinadas áreas cerebrais justificaria uma facilidade maior para lidar com um assunto do que com outro:
“Alguém que cresceu ouvindo música – explica – provavelmente desenvolveu mais sinapses na área do cérebro responsável por esse tipo de percepção. Daí, tende a ter talento para a música”.
A autora da reportagem desenvolve a seguir o seguinte raciocínio:
“Se a habilidade pode ser, fisiologicamente, questão de prática, não se pode esquecer de outro ingrediente fundamental à plasticidade das células nervosas: a emoção, algo que em neurologuês pode ser descrito como um mero conjunto de reações químicas na massa cinzenta. O sistema nervoso tende a formar as tão importantes conexões entre as suas células ali onde existe uma dose concentrada de afeto”.
Cita, então, o exemplo da sensibilidade auditiva dos pais, que os faz despertar ao menor choramingo do bebê e explica:
“A emoção fixa as sinapses; assim, toda informação relacionada àquela criança merece atenção do cérebro”.
Informa a seguir que o número de sinapses é diretamente proporcional ao afeto seja qual for o objeto deste, concluindo com a mais importante das informações que colheu:
“É o afeto que ajuda a determinar a importância e a permanência de um registro na memória”.
Eis a explicação fisiológica da relevante questão do destino dada por Freud em termos psicológicos.
Para mim isto deixa evidenciada a razão da atenção especial que eu dedico à filosofia: ouvir meus irmãos mais velhos falar a respeito dos sábios gregos e romanos me encantava.
P. S. Médicos americanos pediram a voluntários que resolvessem problemas de raciocínio abstrato e concluíram que o cérebro daqueles que se saíram melhor no texto consumia um terço a menos de energia. Isso leva à suspeita de que quanto mais neurônios conectados, menor o esforço do sistema nervoso para raciocinar.
Volto a 7/10/2008
Este P. S. ao texto elaborado em 9/5/93 não está datado e não recordo agora se a fonte da informação é a citada revista.
Cabe registrar ainda que, conforme já disse no título de um post deste Trevo do Talvez, embora eu entenda que a FELICIDADE humana consiste, essencialmente, na quantidade de sofrimento compreendido (*), concordo com Freud que a realização de profundos desejos de infância é indispensável a uma condição digna do vocábulo FELICIDADE.
Para falar a respeito disso tudo de forma sintética e abrangente, limito-me a transcrever três fragmentos de um livro meu em fase final de elaboração:
Indiferentes a critérios de valor, é na infância que elegemos o que fazer para nossa realização pessoal: eis a razão pela qual tanta gente, embora cercada de admiração ou inveja, não sabe o que é satisfação.
Vocação é aspiração que decorre do conjunto dos mais significativos desejos de infância; realização pessoal é satisfação de um ou mais desses desejos. Na opinião de Sigmund Freud (1856-1939) esta satisfação constitui a própria felicidade. O poeta Manuel Bandeira (1886-1968) consolidou a compreensão desta inter-relação durante visita ao jardim da carioca Hermelinda Flora dos Santos Lemos, personagem de uma crônica que ele intitulou Flora e na qual escreveu: Sempre tive inveja de quem nasceu com vocação para alguma coisa. Trabalhar naquilo para que se tem vocação é a grande felicidade. Quem nasce com isso, nasce armado para suportar e vencer todos os contratempos, todas as agruras da vida. Vocação para a pintura, como Portinari, vocação para a música, como Villa-Lobos. Vocação para as plantas, como Dona Flora. – Nietsche expressa de forma tão contundente quanto profunda o significado de uma vocação, escrevendo que uma profissão é a espinha dorsal da vida.
Mais que qualidade, é a quantidade de desejos que torna tão difícil a realização pessoal; é digna de compaixão a criança que tem por Babá uma televisão.
(*) Entender é estar certo de ter dado ou tomado conhecimento; compreender é desfrutar do entendimento.