Arquivo para Outubro, 2008

Um breve passeio pela Primavera de Curitiba, através de anotações em Diário: 1990

Estou na Biblioteca. Rodin me ensina a contemplar a natureza. Ele descreve o céu no momento em que se forma uma tempestade e escreve: “É preciso também a dor para que o espírito expanda o pensamento”.  30/8/90

 

Entre o vizinho do vermelho

Terminal de Transporte Campina do Siqueira – Avenida Padre Anchieta

Terminal de Transporte Campina do Siqueira – Avenida Padre Anchieta

 

e a véspera do branco,

quanto rosa!

Quanto encanto

entre Camélias e Azaléias

por todo canto.

 

Nunca fui rico, mas posso compreender certas dores dos ricos; certas falsas alegrias. 4/9/90

 

Sob Sibipirunas sem folhas,

um céu de azul suave, sem nuvens.

Sobre uma manhã de domingo.

 

Vivas, as flores dos Ipês

começam a cair.

Ah, quanto haicai só aqui!

 

Praça Tiradentes

 

Esta noite sonhei conversando com um Sapo sobre as dificuldades que ele enfrenta e disse-lhe que nossa situação talvez seja pior: afinal, temos a capacidade de projetar nossa vida e constatar que o sofrimento lhe é inerente até o final. 15/9/90

 

Pôr-do-sol colorido, calor:

no céu, sinais de tempestade;

na Macieira, flor.

 

Com quantos vôos se faz um ninho de João-de-Barro? 21/9/90

 

Quem passa e olha,

quem nunca olhou,

sob chuva fina,

uma Acerácea em flor?

 

Em silêncio se soltam,

em silêncio morrem,

as flores do Ipês.

 

Não encontro com quem conversar; em volta, gente armando. 28/9/90

 

Por mais cansado,

mais triste que me sinta:

fascínio de Glicínia!

 

Claro que as aparências enganam; claro que enganam quem não aprendeu a ver. Curitiba é um perfeito laboratório para o aperfeiçoamento da percepção: Oh, quanta gente bonita, produzida e vazia! 29/9/90

 

Sabe que os filhos esperam.

À caça de insetos na praça,

passa outra vez o Sabiá.

 

O prazer de quem lê multiplica o do autor por mil. 3/10/90

 

O ônibus demora:

uma mulher colhe

e come amora.

 

Meio-dia; o ninho quase pronto, o João-de-Barro descansa. 5/10/90

Cuidai dos ônibus imundos, prefeito reeleito João Henrique Carneiro!

“Um estudo sobre os hábitos de higiene nos ônibus, feito com apoio de uma bolsa do Programa de Vocação Científica (Provoc), está sendo desenvolvido no Laboratório de Helmintoses do Instituto René Rachou (IRR), unidade da Fiocruz em Minas Gerais.

Com a orientação de um pesquisador e a disposição e dedicação de um estudante do Ensino Médio, o trabalho mostrou a contaminação por parasitos nos ônibus urbanos.

Mais de um milhão de pessoas usam os transportes públicos em Belo Horizonte todos os dias, conforme dados da BH-Trans. Foram encontrados ovos de Ascaris sp. (a popular lombriga), Enterobius sp. (o oxiúrus) e Hymenolepis sp. (conhecida como tênia anã).”

Davison Araújo

O estudante Felipe Leão Murta colhe material para pesquisa Foto: Davison Araújo

 

 

Este é o primeiro parágrafo de uma reportagem da Agência Fiocruz de Notícias assinada por Elizabeth Fleury, intitulada Estudo mostra contaminação por parasitos no transporte público.

O estudante a que ela se refere é Felipe Leão Murta, do Colégio Técnico da UFMG.

Os interessados no texto completo o encontram neste endereço:  www.fiocruz.br

Para o objetivo a que me proponho aqui o parágrafo transcrito é suficiente.

 

E meu objetivo é dirigir um apelo ao prefeito reeleito de Salvador, João Henrique Carneiro, para que faça alguma coisa no sentido de evitar que um grande número de pessoas entre aquelas que o reelegeram contraiam doenças que podem ser facilmente evitadas com água e sabão.

 

Não julgo ninguém despreparado por não fazer aquilo que considero apropriado.

Sendo assim, não quero nem saber as razões porque nem ele, nem três dos outros candidatos que disputaram a eleição e aos quais me dirigi, tanto através de e-mail, encaminhados às respectivas assessorias, quanto através de posts neste Trevo do Talvez, deixaram de acatar minha sugestão no sentido de que assumissem compromisso de assegurar ônibus menos imundos dois meses após tomar posse.

Ao me dirigir a eles eu estava convencido de que com tal compromisso poderiam garantir centenas, talvez milhares de votos.

 

Essencialmente, estou interessado em fazer alguma coisa no sentido de assegurar aos habitantes de Salvador que se utilizam do sistema de transporte coletivo menos risco de se infectar com Ascaris, Enterobius ou Hymenolepis, entre outros animais de nomes tão exóticos quantos estes mencionados na reportagem de Elizabeth Fleury.

A solidão aproxima da morte ensinando a viver; estar plenamente vivo é estar pronto para morrer.

Para encher a cabeça IV

 

Pela quarta vez, recolho em meu Diário um conjunto de anotações e com elas produz mais um post com este título. Para que se faça idéia do conteúdo das mesmas, repito a máxima que escrevi na abertura dos anteriores: Você enche sua cabeça de futilidades ou de coisas significativas; vazia ela não fica.

 

Personagem do conto O Negro Bonifácio, do gaúcho João Simões Lopes Neto, a descrição de Tudinha me fez lembrar as melhores de mulheres por outro João, o Guimarães Rosa, algumas das quais por mim reproduzidas neste Trevo do Talvez. O fato não surpreende, pois que se trata justamente do ancestral literário do excelente escritor mineiro.

 

Senão vejamos:

Generosa e altiva, Tudinha parecia um Jerivá

Generosa e altiva, Tudinha parecia um Jerivá

 

 

“Alta e delgada, parecia assim um jerivá ainda novinho, quando balança a copa verde tocada de leve por um vento pouco, da tarde. Tinha os pés pequenos e as mãos mui bem torneadas; cabelo cacheado, as sobrancelhas finas, nariz alinhado.

Mas o rebenqueador, o rebenqueador…, eram os olhos!

Os olhos da Tudinha eram assim a modo olhos de veado-virá, assustado: pretos, grandes, com luz dentro, tímidos e ao mesmo tempo haraganos… pareciam olhos que estavam sempre ouvindo…, ouvindo mais, que vendo…

Face cor de pêssego maduro; os dentes brancos e lustrosos como dente de cachorro novo; e os lábios da morocha deviam ser macios como treval, doces como mirim, frescos como polpa de guabiju…

E apesar de arisca, era foliona e embuçalava um cristão, pelo só falar, tão cativo…”

 

Como se não bastasse, não lhe faltava “buenaça e entono”, ou seja, era generosa e altiva.

*

A propósito de Guimarães Rosa, recolho no meu Diário 7/9/2006 duas citações de O Burrinho Pedrês, um dos melhores contos do cordisburguense:

 

“… riscava o chão com o reborbo do casco desferrado…

E abria os olhos, de vez em quando,

para os currais, de todos os tamanhos,

em frente do casarão da fazenda.

Dois ou três deles mexiam, de tanto boi.

Alta, sobre a cordilheira de cacundas sinuosas,

oscilava a mastreação de chifres”.

 

 “Saudade em boi, eu acho que ainda dói mais do que na gente”.

 

Do instruir-se

 

- Pra que você estuda tanto?

 

- Para não fazer esse tipo de pergunta!

 

O que é esperto?

           

Autodenominam-se ‘trecheiros’ os andarilhos pobres que integram a paisagem dos ermos das estradas de toda parte; tacitamente, compõem uma sociedade cuja preservação está baseada na observância do seguinte princípio, conforme um deles me contou: “Ninguém consegue desativar os espertos.”

 

Considero esperto o inteligente indecente.

 

O andarilho

 

- Está indo pra onde?

        

- Vou lá no trevo de São João Del Rey.

 

- Fazer o que?

 

- Amanhã eu volto.

        

“O Inferno. Atualmente em restauração.”

 

Aviso afixado numa sala de exposições do Museu do Carmo,

em Ouro Preto-MG, nos anos 80.

 

Casal na pior

 

- Estou farta!

- Farta de que?

- Farta tudo!

 

Da discriminação

 

Em qualquer campo de atividade é raro que se reconheça o mérito daquele que não tem “nome”, nem dinheiro, nem padrinho; e quando ocorre fazê-lo, até parece que o punem, de tanto que o obrigam a trabalhar.

 

Do movimento e do silêncio

 

Àqueles que se comprazem em identificar fatos ou facetas reconhecidamente relevantes omitidas numa argumentação qualquer, e nisso fundamentar desde a crítica mais séria até a fofoca mais vil, não custa lembrar que existem apenas duas formas de expressar através do corpo centenas de pensamentos de uma só vez: através do movimento e do silêncio.

É justamente o fato de expressar tanto que torna tão hermética a linguagem do balé, por exemplo.

Quanto ao silêncio…

 

… ao vê-la partir me senti estranhamente sozinho

Tenho lido muito sobre Charles Baudelaire nos últimos dias. Especificamente os muitos fragmentos a respeito dele e da sua obra reunidos por Walter Benjamin no inacabado Passagens.

Sempre que penso no autor de Flores do Mal a primeira coisa que me vem à mente é o soneto intitulado A uma passante. Por conseqüência, o arremedo de poema que se segue, escrito em Porto Alegre nos anos 90 a partir de uma situação real, no qual cito uns versos do magistral soneto, em tradução de Guilherme de Almeida.

Retrato de Mulher com Chapéu - Amedeo Modigliani (1884-1920)

Retrato de Mulher com Chapéu - Amedeo Modigliani (1884-1920)

 

 

Foi o chapéu gracioso

sobre longos cabelos cor de vinho;

foi o contraste da jaqueta preta

com a pele marfim;

ou foi aquele olhar

repleto de carinho,

de uma cor que me escapou,

a despeito de contemplar,

quando ela olhou para mim?

Não sei, não adivinho.

O que sei é que ao vê-la partir

me senti estranhamente sozinho;

assim como se não tivesse sido aquela

a primeira vez que a vi.

A primeira e… Ai!… Única, certamente.

Foi então que ela me lembrou

a fascinante passante

do soneto de Baudelaire,

cuja leitura me consolou:

“Fugitiva beldade,

de um olhar que me fez nascer segunda vez,

não mais te hei de rever senão na eternidade?”

 

 

Das dificuldades inerentes à mudança de opinião e sua relação com felicidade

Conheço por experiência própria a dor que decorre da decepção associada a um político carismático: fui vítima de acreditar em Jânio Quadros.Jânio da Silva Quadros (1917-92)

Não esqueço como foi difícil mudar minha opinião a respeito dele.

Isto me ajuda a compreender a popularidade de que continua desfrutando o Lula e, por conseqüência, a votação obtida, graças a ele, por muitos candidatos do partido dele no dia 5/10.

A relação que tem por determinante o carisma, ou seja, um natural e forte poder de fascinar, equivale literalmente a uma paixão amorosa.

Sendo assim, aplica-se a quem é afetado por alguém carismático o que escreveu Balzac, tendo em mente os apaixonados:

“Raciocinar onde cabe sentir é próprio das almas medíocres”.

Os políticos comuns jamais me interessaram.

Decepção com partido político eu desconheço inteiramente, pois nunca me filiei a partido algum, do que quer que seja.

Comparada com a de centenas de pessoas, minha situação é, sem dúvida, confortável, conforme tenho constatado a partir do noticiário em torno dos resultados já conhecidos das eleições municipais e de comentários em blogs por essa Internet afora.

Tudo isto me motiva a abordar aqui a seguinte questão:

Quanto custa mudar de opinião, de maneira geral?

Discorro sobre ela em um livro meu em fase final de elaboração.

Tomei a decisão de transcrever aqui alguns dos fragmentos onde abordo este tema, na expectativa de que possam contribuir para reduzir o grau de sofrimento de muitos eleitores decepcionados tanto com o resultado do pleito quanto com o caráter do eleito.

Reduzir o grau de sofrimento e, concomitantemente, resgatar e ampliar e aprofundar um quantum da felicidade deles.

Sim, eu escrevi da felicidade.

Afinal, conforme escrevo em meu livro e já escrevi aqui neste Trevo do Talvez, mil vezes mais do que prazer usufruído, ESSENCIALMENTE, felicidade é quantidade de sofrimento compreendido. (*)

 

            A gente muda de opinião conforme amplia a capacidade de compreender; onde o tolo só vê incoerência germina evolução e saber. Um homem que se vangloria de jamais mudar de opinião é um homem que se obriga a andar sempre em linha reta, um simplório que acredita em infalibilidade – afirma Balzac através de um personagem inescrupuloso, qualificação que não afeta necessariamente a sensatez do comentário. – Em  endereçado a um amigo, Vauvenargues trata de toda esta questão com mais abrangência e profundidade: Seria uma grande servidão se sempre se fosse obrigado a escrever como se fala, ou a fazer como se escreve. É preciso permitir aos homens serem um pouco inconseqüentes, a fim de poderem voltar à razão que abandonaram e à virtude quando a tiverem traído. Escreve-se todo o bem que se pensa, e faz-se todo aquele que se pode; e quando se fala da virtude ou da glória, deixa-se levar pelo assunto sem se lembrar da própria fraqueza; isso é muito razoável. – Escrevendo a respeito do marquês de Lafayette, Charles de Rémusat afirma que a fidelidade às opiniões é uma coisa bonita, mas corre o risco de se converter em imobilidade. E comenta: Não convém que o espírito seja tão inflexível como a consciência.

 

            É certo que não devemos nos deixar escravizar pelo princípio da coerência, mas isto não corresponde a mudar o discurso segundo a conveniência.

 

            É difícil mudar de opinião principalmente porque geralmente tal atitude requer, antes de tudo, mais conhecimento no sentido oposto àquilo que se considera momentaneamente certo.

 

            Ninguém é obrigado a concordar com nada, mas para discordar deve argumentar; é isto respeitar opinião.

 

            Discordar de algo afirmando simplesmente eu não concordo revela, em si, uma das seguintes coisas: prepotência, ignorância ou incompetência. De acordo com Montaigne, a obstinação e a convicção exagerada são a prova mais evidente de estupidez. Objetivo e sintético, Sérgio Milliet ensina: Não se objeta contra os medíocres. Citado em defesa de Schopenhauer, Lichtenberg pergunta: Se uma cabeça e um livro se chocarem, dando um som oco, será sempre por causa do livro?

 

            Opinião sem fundamento lógico é, na melhor das hipóteses, capricho; portanto, dispensa contestação.

 

            A forma mais eficiente de destruir conceitos equivocados é fazê-lo estabelecendo outros claramente acertados; de acordo com Montaigne, quem, para provar o que sustenta, se revela arrogante, mostra que a razão não é seu forte. Vem daí Nietzsche escrever que teimosia é firmeza de caráter adulterada pela estupidez. A propósito, é importante ter em mente que, conforme comenta La Rochefoucauld, é antes por orgulho que por falta de luzes que tantas vezes nos opomos com opinião às opiniões mais acatadas: deparamo-nos com os primeiros lugares tomados no partido certo e não queremos ocupar os últimos.

 

            Aquele que funda aquilo de que fala em seu próprio orgulho faz apenas barulho.

 

(*) Entender é estar certo de ter dado ou tomado conhecimento; compreender é desfrutar do entendimento.

 

 

Qual pulga pula mais alto, a de canino ou a de felino?

Acabo de ler (10/10) que os franceses Marie-Christine Cadiergues, Christel Joubert e Michel Franc conquistaram o Ig Nobel de Biologia 2008 por descobriram que pulgas que vivem em cães pulam mais alto do que as que vivem em gatos.

 

Em homenagem ao trio, antecipo a publicação de uma anotação do meu Diário que selecionei para compor mais um conjunto da série intitulada Para encher a cabeça, que venho publicando neste Trevo do Talvez.

 

   Da fama

 

- E dizem também que ele atirava bem!

- Atirava como ninguém.

- Como ele treinava?

- Pegava uma pulga, esperava ela pular e…

 

P. S. Talvez alguém que passa por aqui tenha interesse em saber que dois brasileiros abocanharam o famoso laurel pela primeira vez este ano, façanha que los irmanos argentinos já curtem há algum tempo.

O que fizeram nossos compatriotas e quem são eles?

Astolfo Gomes de Mello Araújo e José Carlos Marcelino (da Universidade de São Paulo) demonstraram como tatus podem atrapalhar escavações em sítios arqueológicos

Sobre o funcionamento do cérebro e o conceito freudiano de felicidade

Entre os estudos do meu interesse permanente há algumas décadas destaco os relacionados com o funcionamento do cérebro dos seres humanos.

A parte principal deste post é transcrição quase literal de um texto que elaborei no dia 9 de maio de 1993 a partir de anotações recolhidas no meu Diário.

Embora não tenha condições de assegurar que, de lá para cá, a fundamentação científica das observações nele referidas tenha sofrido qualquer alteração, estou certo de que essencialmente continuam válidas.

Faço esta advertência especialmente em razão da banalização do conteúdo da Revista Super Interessante, que cito, ocorrida a partir de algum momento em torno do ano 2000.

 

Sigmund Freud (1856-1939)Sobre o cérebro

 

Acabo de ler uma reportagem sobre o funcionamento do cérebro que me permite extrair conclusões sobre, por exemplo, a felicidade, tal como esta era vista por Freud: realização de profundos desejos de infância.

Sinapse é termo para expressar a relação de contato entre os dendritos – prolongamentos – das células nervosas. [“Local de contato entre neurônios, onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra” – conforme o Dicionário Houaiss, que consulto em 7/10/2008]

Informa-se na reportagem que as informações fazem surgir dendritos, o que resulta em maior número de sinapses.

A relação com inteligência é óbvia, mas o que me interessou particularmente foi o papel do afeto como fator de otimização das sinapses, pois encontro aí a explicação para o papel relevante dos profundos desejos de infância na questão básica da felicidade: a realização pessoal.

Um dos entrevistados para a reportagem de Lúcia Helena de Oliveira – Revista Super Interessante n° 12 – o neurologista Saul Cypel, afirma que a existência de mais sinapses em determinadas áreas cerebrais justificaria uma facilidade maior para lidar com um assunto do que com outro:

“Alguém que cresceu ouvindo música – explica – provavelmente desenvolveu mais sinapses na área do cérebro responsável por esse tipo de percepção. Daí, tende a ter talento para a música”.

A autora da reportagem desenvolve a seguir o seguinte raciocínio:

“Se a habilidade pode ser, fisiologicamente, questão de prática, não se pode esquecer de outro ingrediente fundamental à plasticidade das células nervosas: a emoção, algo que em neurologuês pode ser descrito como um mero conjunto de reações químicas na massa cinzenta. O sistema nervoso tende a formar as tão importantes conexões entre as suas células ali onde existe uma dose concentrada de afeto”.

Cita, então, o exemplo da sensibilidade auditiva dos pais, que os faz despertar ao menor choramingo do bebê e explica:

“A emoção fixa as sinapses; assim, toda informação relacionada àquela criança merece atenção do cérebro”.

Informa a seguir que o número de sinapses é diretamente proporcional ao afeto seja qual for o objeto deste, concluindo com a mais importante das informações que colheu:

“É o afeto que ajuda a determinar a importância e a permanência de um registro na memória”.

Eis a explicação fisiológica da relevante questão do destino dada por Freud em termos psicológicos.

Para mim isto deixa evidenciada a razão da atenção especial que eu dedico à filosofia: ouvir meus irmãos mais velhos falar a respeito dos sábios gregos e romanos me encantava.

 

P. S. Médicos americanos pediram a voluntários que resolvessem problemas de raciocínio abstrato e concluíram que o cérebro daqueles que se saíram melhor no texto consumia um terço a menos de energia. Isso leva à suspeita de que quanto mais neurônios conectados, menor o esforço do sistema nervoso para raciocinar.

 

Volto a 7/10/2008

 

Este P. S. ao texto elaborado em 9/5/93 não está datado e não recordo agora se a fonte da informação é a citada revista.

Cabe registrar ainda que, conforme já disse no título de um post deste Trevo do Talvez, embora eu entenda que a FELICIDADE humana consiste, essencialmente, na quantidade de sofrimento compreendido (*), concordo com Freud que a realização de profundos desejos de infância é indispensável a uma condição digna do vocábulo FELICIDADE.

 

Para falar a respeito disso tudo de forma sintética e abrangente, limito-me a transcrever três fragmentos de um livro meu em fase final de elaboração:

 

            Indiferentes a critérios de valor, é na infância que elegemos o que fazer para nossa realização pessoal: eis a razão pela qual tanta gente, embora cercada de admiração ou inveja, não sabe o que é satisfação.

 

            Vocação é aspiração que decorre do conjunto dos mais significativos desejos de infância; realização pessoal é satisfação de um ou mais desses desejos. Na opinião de Sigmund Freud (1856-1939) esta satisfação constitui a própria felicidade. O poeta Manuel Bandeira (1886-1968) consolidou a compreensão desta inter-relação durante visita ao jardim da carioca Hermelinda Flora dos Santos Lemos, personagem de uma crônica que ele intitulou Flora e na qual escreveu: Sempre tive inveja de quem nasceu com vocação para alguma coisa. Trabalhar naquilo para que se tem vocação é a grande felicidade. Quem nasce com isso, nasce armado para suportar e vencer todos os contratempos, todas as agruras da vida. Vocação para a pintura, como Portinari, vocação para a música, como Villa-Lobos. Vocação para as plantas, como Dona Flora. – Nietsche expressa de forma tão contundente quanto profunda o significado de uma vocação, escrevendo que uma profissão é a espinha dorsal da vida.

 

            Mais que qualidade, é a quantidade de desejos que torna tão difícil a realização pessoal; é digna de compaixão a criança que tem por Babá uma televisão.

 

(*) Entender é estar certo de ter dado ou tomado conhecimento; compreender é desfrutar do entendimento.

Entre formas lógicas e sonhos poéticos penso em você, paixão tão querida.

Do Amor

Aurélio, vocábulo vir:

“O amor vem da compreensão recíproca; e essa força, que é tudo, vem de um nada” – Emílio de Menezes, Últimas Rimas.

 

Entre as formas de falar do sentimento amoroso  com as quais me deparei entre viagens e leituras ao longo dos últimos 30 anos e que, por motivos os mais variados, anotei em meu Diário, destaco o capítulo LV do Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para melhor compreensão, vai antecedido de um parágrafo do capítulo anterior.

 

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

Para mim é um perfeito equivalente desta declaração da Heloisa de Abelardo:

“Ó meu único!”

 

Lembrei dele a propósito da passagem do centenário da morte do seu autor, Machado de Assis, e decidi publicá-lo aquí no Trevo do Talvez na expectiva de que contribua para a conquista de mais leitores para sua tão vasta quanto importante produção literária, da qual destaco o primeiro capítulo de Dom Casmurro, tão bem escrito que poderia ser impresso em bronze.

 

Na sequência, vão alguns grafitos, tal e qual foram escritos em paredes e muros do Paraná.

 

 

Capítulo LIV – A Pêndula

 

            “…, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva”.

 

 

Capítulo LV – O Velho Diálogo de Adão e Eva

 

Brás Cubas

 

………………..?

 

Virgília

 

……………….

 

Brás Cubas

 

……………………………………………………………………………………………….

 

Virgília

 

…………………….!

 

Brás Cubas

 

………………………………………

 

 

Virgília

 

…………………………………………………………………

………………………?……………………………………….

…………………………………………………………………

 

Brás Cubas

 

…………………………………………………

 

Virgília

 

………………….

 

Brás Cubas

 

………………………………………………………………….

………………………………………………………………….

……………………………………..!………………………….

………!…………………………………………………………

………………………………………………………………….!

 

Virgília

 

………………………………………………………………….?

 

Brás Cubas

 

……………….!

 

Virgília

 

………………..!

 

 

Grafitos

 

“Ele sem juiso, ela louca demais”

 

Curitiba (Sic)

 

“O coração sempre  arraza a razão”

 

Curitiba (Sic)

 

“Justos, não sou o que você espera, mas sou mais”

 

Curitiba

 

“Nunca vou esquecer os momentos imortais que passei com você”

 

Paranaguá-PR

 

“Jô, teus olhos me fascinam”

 

Cizinho / Curitiba

 

“Rabelo, peço perdão por te amar”

 

Curitiba

 

“E desculpe o modo que me expressei, mas amor é amor”

 

Londrina-PR

 

 “Entre espaços em branco,

pensamentos confusos,

delírios sensíveis.

Entre formas lógicas e sonhos poéticos

penso em você, paixão tão querida.”

 

Londrina-PR