Arquivo para Novembro, 2008

Quando será que o TSE vai decidir cobrar a multa que aplicou a Lula por propaganda irregular?

Conforme notícia publicada pela Folha de São Paulo – 26/11/08 – o prefeito reeleito de Curitiba, Beto Richa, foi condenado a devolver R$ 603 mil ao erário por fazer promoção pessoal com recursos públicos, há três anos.

Corrigido, o valor pode chegar a R$ 880 mil.interrogacao

Motivo: ter incluído em propaganda oficial o anúncio de cumprimento de uma promessa da campanha de 2004.

Segundo a decisão, isso poderia ser feito em espaço publicitário do partido dele, mas não em publicidade paga com recursos do município.

Na defesa enviada à Justiça, Richa disse que era sua obrigação prestar contas à população sobre atos à frente da prefeitura.

Veiculada em rádio e TV em 2005, a peça publicitária mostrava Richa festejando a redução da tarifa do transporte coletivo aos domingos – uma promessa da campanha de 2004.

Na decisão sobre o uso da peça publicitária para fins pessoais, o juiz Rodrigo Otávio do Amaral disse que “o réu Carlos Alberto Richa deveria fazê-lo com recursos particulares ou políticos-partidários, mas nunca se utilizar de verba pública para a sua autopromoção”.

 

Cabe recurso, informa a Folha.

 

E eu fico à vontade para escrever que se o recurso foi bem providenciando é possível que ele se junte a Lula e contribua para abalar ainda mais a credibilidade do Tribunal Superior Eleitoral, cujos membros têm feito de conta que não há nada de errado com as urnas eletrônicas, apesar do que aconteceu este ano no Maranhão, isto para me limitar a um Estado da Federação.

 

Sobre o caso do Lula, lembrei que havia esboçado em maio deste ano um post para este Trevo do Trevo, que considero oportuno publicar agora, tal como arquivei.

 

Eis:

 

Decisão sobre multa aplicada a Lula será crucial para o novo presidente do TSE

 

Estou muito curioso em saber se Carlos Ayres de Brito, ministro do Supremo Tribunal Federal e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, é da mesma estatura do seu conterrâneo Gumercindo de Araújo Bessa..

Ou seja, se ele é realmente bom a Bessa, para empregar a conhecida expressão, cuja origem estaria diretamente relacionada ao ilustre advogado sergipano.

Uma afirmação da independência do tribunal que ele estará presidindo por dois anos se dará com a confirmação ou não da multa aplicada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por prática de propaganda eleitoral antecipada nas eleições de 2006.

No último dia 20/05 o TSE suspendeu pela quarta vez o julgamento de recurso apresentado pelo presidente da República, imagino que alegando inocência.

O processo teve origem na contestação, por um partido político, da distribuição, em janeiro de 2006, de mais de um milhão de exemplares de uma cartilha em forma de jornal tablóide com o título Brasil, um País de Todos.

De acordo com o relator, ministro José Delgado, a cartilha fazia “louvores às realizações do governo federal, sem objetivo de orientação educacional, informação ou comunicação social”, constituindo-se assim em propaganda fora do prazo.

Elementar que a questão realmente importante não é o valor da multa – tema central dos debates mais recentes – porém sua efetiva aplicação.

O que me preocupa é a hipótese de uma decisão inocentando o Presidente da República, pois se isto acontecer será difícil que daí por diante o Tribunal imponha o devido respeito ao princípio legal em questão.

Sem contar conseqüências que teria para o ministro José Delgado.

 

P. S. José Delgado já não é ministro do TSE, tendo saído em razão da idade ou por ter completado o mandato de dois anos, não sei informar com precisão.

A título de homenagem a Bob Burnquist pela façanha na megarampa de Sampa

O poema eu escrevi há uns cinco anos em Curitiba, mais precisamente no Jardim das Américas, observando uma muito querida turma de skatistas da Praça Bento Muçurunga.

 

Decidi publicá-lo aqui no Trevo do Talvez para aplaudir a façanha de Bob Burnquist na megarampa do Sambódromo do Anhembi, neste domingo 23/11/2008.

 

A foto eu captei no MSN e não consegui identificar o autor, a quem agradeço, certo de que não me cobrará direitos autorais. skate-2a1

 

  

Esporte do kacête

dança perigosa

sobre pedra

sobre pau

sobre aço

sobre o braço

se cair

se quebrar o Skate

Escala de tempo retórica e sua correspondente prática

Eu acordo cedoNove e poucotempo-2

 

Não demoroVinte minutos a meia hora

 

Demoro no máximo meia horaNo mínimo, uma

 

Já voltoHora e meia

 

Ligue antesDeixou recado saindo

 

Chego cedoDe manhã, pouco antes das dez, à tarde, pouco antes das quatro, à noite, quase dez.

 

Estou chegandoMeia hora

 

Eu lhe pego às oitoPode acordar às nove

 

Estou no meio do caminhoVai botar a culpa no trânsito

 

Garanto que não me atrasoAtraso médio de 40 minutos

 

Eu não costumo me atrasarUma hora e vinte, em média

 

Me dá mais dois diasAnote outra semana

 

Garanto que não esqueçoVai dizer que não lembrou

 

Estamos providenciandoJá foi esquecido

 

No meio da semana a gente conversaQuinta à noite ou sexta-feira de manhã

 

Deixe para o final da semanaO encontro será segunda ou terça-feira

 

Vamos deixar para outro diaUm mês

 

Depois eu vejoEntre um mês e 45 dias

 

A partir de segunda-feiraÉ prudente perguntar o mês

 

Fica para outra ocasiãoAno que vem

 

Proibição da prática de tortura nos EUA servirá de lição para o Brasil

Fez muito bem o presidente eleito dos Estados Unidos nesta segunda-feira, 17, reconhecendo que os norte-americanos vinham praticando tortura em Guantánamo. Tomara que ele consiga fazer com que parem de praticar em qualquer lugar.

“Não voltaremos a torturar”

Barack Obama: “Não voltaremos a torturar”

 

 

Em 19 setembro de 2003 publiquei em um espaço jornalístico aqui na Internet um artigo sobre este tema.

 

Tanto pela declaração de Barack Hussein Obama sobre a intenção de fechar a prisão ilha de Cuba, – “É para garantir que não voltaremos a torturar” – quanto pela discussão que se trava no momento aqui no Brasil em torno de propostas de reforma na Lei da Anistia, considerei oportuno publicá-lo aqui no Trevo do Talvez.

 

Eis o artigo, na íntegra, inclusive o título:

 

Banalização da prática de tortura nos EUA

serve de lição para o Brasil

 

Os Estados Unidos têm recorrido à tortura em casos de investigação de atos terroristas de tal modo e com tal freqüência que, apreensivo, seu advogado mais célebre atualmente, Alan Dershowitz, acaba de propor a “regularização” dessa prática, “de modo que os interrogatórios possam ser conduzidos de maneira menos cruel possível”, conforme declarou em entrevista à revista Veja desta semana.

 

- Sugeri isso não por concordar com a tortura, mas para que a sociedade tenha controle do que está acontecendo nas prisões onde se encontram os acusados de terrorismo – cuidou de justificar.

 

Para nós brasileiros o debate sobre o que vem ocorrendo em matéria de desrespeito aos direitos humanos no país mais rico do planeta é muito oportuno. Motivadas pela morte do comerciante chinês Chan Kim Chang, depois de ser torturado num presídio da cidade, cerca de 40 mil pessoas ocuparam as ruas do Rio de Janeiro no último domingo, 14, em passeata de protesto contra a prática desse crime que nossa legislação classifica entre os hediondos, ou seja, aqueles inafiançáveis, cujas penas de prisão são cumpridas em regime fechado.

 

Comparada com a defesa pura e simples da prática de tortura, de que ele foi acusado, a atitude do advogado norte-americano exposta na entrevista à repórter Gabriela Carelli não deixa de ser louvável. Tão louvável quanto indicativa dos esforço que será necessário para reverter a tendência de banalização desse crime em todo o planeta a partir dos Estados Unidos, cujo atual presidente se arvora à condição de füher – guia, em português – da humanidade.

 

- A tortura e a violação de liberdades civis estão fazendo muito mal a este país. Portanto, quero deixar bem claro que não fiz apologia da tortura. Defendi outra coisa. A tortura está sendo utilizada por nossas autoridades, e elas não dão sinais de que esteja dispostas a parar com essa prática. Então, que se estabeleçam regras democráticas para o uso da coerção física nos interrogatórios de acusados de terrorismo. Esse método só poderia ser utilizado, a meu ver, com autorização judicial, e só em casos extremos.

 

Conforme se depreende facilmente da primeira parte dessa declaração do Sr Dershowitz, a questão interessa a qualquer ser humano, pois o que está em jogo não é apenas a imposição de sofrimento a um determinado grupo de pessoas, mas a própria felicidade de qualquer um, na medida em que ser livre é condição sine qua non de ser feliz.

 

Quanto ao estabelecimento daquilo que o famoso advogado chama “regras democráticas para o uso da coerção física”, e da condicionante a elas associada, o melhor é imaginar que acabamos de ler um trecho inédito do romance O Processo, de Franz Kafka.

 

O problema é que vocês tomaram o rumo errado.

 

Foi mais ou menos nestes termos que o psicanalista suíço Carl Gustav Jung resumiu o prognóstico desastroso que fez dos norte-americanos, no final da década de 1940, e que vem se confirmando de forma impressionante.

 

Detalhadamente exposto num conjunto de entrevistas que se tornou conhecido como “filmes de Huston, por terem sido gravadas em película cinematográfica, sua leitura facilita a compreensão do que vem ocorrendo por lá e contribui para que entre nós se enterre de vez a máxima de Juracy Magalhães, segundo a qual “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

 

Engana-se redondamente quem imagina que a severa restrição às liberdades civis na  terra de All Capone começaram em 11 de setembro de 2001, conforme se tenta fazer crer enfatizando-se a relação de causalidade com o ataque praticado em Nova Iorque. Ela está relacionada com o “rumo errado” percebido por Jung há mais de meio século.

 

Uma pesquisa recente mostrou que os Estados Unidos têm o maior índice de encarceramento do mundo. Um em cada grupo de 37 norte-americanos está ou esteve preso.

 

Indagado pela repórter da Veja sobre o significado dessa estatística, o defensor de Mike Tyson no caso de estupro que levou o boxeador à prisão disse que ela reflete, em primeiro lugar, o fato dos norte-americanos considerarem crimes atitudes que em outros países são faltas tidas como irrelevantes.

 

- Por exemplo, o uso de drogas, mesmo as leves, e certos crimes sexuais. Há Estados aqui em que sexo homossexual dá cadeia. A lei permite em alguns Estados prender alguém apenas porque está fumando.

 

Ao mencionar a pobreza como segunda causa de tanto encarceramento, Dershowitz comentou que se uma em cada 37 pessoas foi para a cadeia, uma em cinco são o que ele denomina “afro-americanos”, dispensando-se com o eufemismo de racismo. A terceira causa seria o fato de que as estatísticas de encarceramento dão votos aos políticos, associada à escolha de juízes e promotores por eleição.

 

Conclusão do advogado do país que tem entre seus símbolos uma gigantesca estátua da deusa da Liberdade: “Temos um péssimo sistema de Justiça”.

 

Excluída a questão do terrorismo, do qual estamos, por enquanto, livres, os problemas que nós brasileiros enfrentamos no combate à criminalidade não diferem muito dos norte-americanos. Menos civilizados em conjunto do que eles, além do encarceramento em larga escala e da prática sistemática de tortura, temos nos deparado com uma quantidade de mortes só explicável a partir da suposição de uma oficiosa política de extermínio.

 

O problema na Bahia é tão grave que nesta quinta-feira, 18, chegou a Salvador uma relatora especial da Organização das Nações Unidas – ONU, Asma Jahangir, enviada ao Brasil para apurar denúncias de execuções sumárias.

 

Com permanência prevista de três dias, incluindo uma viagem a Santo Antonio de Jesus, ela tem encontros agendados com o governador Paulo Souto, autoridades do sistema de segurança pública e dirigentes de entidades de defesa dos direitos humanos.

 

De acordo com relatório da organização brasileira Centro de Justiça Global, a atuação dos grupos de extermínio no Estado cresceu 291,55 % nos últimos dez anos, contra 39,79 % em São Paulo e 41,21 % no Rio de Janeiro.

 

No ano 2000 foram registradas na Bahia 146 mortes com características de extermínio. Em 2001, as ocorrências saltaram para 312 vítimas e no ano passado 302 execuções sumárias colocaram o Estado na quinta posição do trágico ranking nacional.

 

Assim, seria um avanço relativamente aos Estados Unidos se o Governo Federal efetivar o compromisso que acaba de assumir, através do Secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, de fazer um grande mutirão, envolvendo o Judiciário e Governos estaduais, para agilizar os processos que apuram denúncias de tortura por parte de policiais e agentes penitenciários.

 

Uma pesquisa realizada pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos em tribunais de três Estados mostra que 60 % dos processos classificados como tortura acabam enquadrados como lesão corporal. Outros 20 % são enquadrados como abuso de autoridade e os 20 % restantes como maus tratos.

 

Além de penas brandas, o resultado, conforme observou o Secretário Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, é que, para a Justiça, não existe tortura no Brasil, “já que nunca ninguém foi condenado por esse crime”.

 

Avanço ainda mais significativo seria a aprovação, pelo Congresso Nacional, do projeto de lei denominado Estatuto do Desarmamento, que esteve ameaçado de perder o regime de urgência na votação para o lobby da indústria bélica, o que provocou a passeata de domingo, no Rio de Janeiro, caracterizada como protesto contra a prática de tortura.

 

O projeto original prevê a anulação de todos os portes de armas em vigor no país no prazo de 90 dias e a realização de um referendo nacional, em outubro de 2005, para que a população decida se o comercio de armas no país será proibido. O parecer da relatora na comissão da Câmara encarregada da sua apreciação ameniza as restrições ao porte de armas e descarta o plebiscito, mas isto não significa que o texto dela será o único submetido a votação no plenário.

 

O Brasil não está em guerra, mas só no ano passado 40 mil pessoas foram mortas por armas de fogo, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas.

 

Segundo pesquisa citada por defensores do desarmamento, no município do Rio de Janeiro as armas de fogo são a primeira causa de morte de jovens do sexo masculino (65 %) superando os acidentes de carro, as doenças e as causas naturais.

 

 

P. S. Quem já ouviu falar em escalpo e teve oportunidade de assistir filmes como No tempo das diligências, relacionado com os índios apaches, ou Enterrem meu coração na curva do rio, a respeito do líder dos siouxsie, Touro Sentado, terá mais condições de compreender as observações que se seguem de Carl Gustav Jung. Trata-se de um fragmento de Passagens, de Walter Benjamin, que li neste domingo, 30/11/2008.

 

“Na fantasia dos americanos acerca do herói, o caráter do índio representa um papel fundamental… Somente as iniciações indígenas conseguem competir com a agressividade e a crueldade de um rigoroso treinamento americano… Em tudo o que o americano realmente deseja aparece o índio; na extraordinária concentração em um objetivo determinado, na tenacidade da perseguição e na firmeza com a qual suporta as mamaiores dificuldades manifestam-se plenamente todas as virtudes legendárias do índio”.

 

C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932 ( “Seele und Erd” – “Alma e terra” ) 

Bahia escapa da Terceira Divisão, mas, infelizmente, nada garante que um dia sairá da Segunda

Fiquei contente por saber que a vitória sobre o CRB afasta matematicamente o risco do torcedor do Bahia voltar a amargar em 2009 o vexame de ver o time integrar a Série C do Campeonato Brasileiro de Futebol, a Terceira Divisão.

 

De outra parte, só tenho a lastimar que se confirme por mais um ano a previsão que fiz no título de um artigo inédito de 2003, escrito no dia seguinte à derrota para o time do Cruzeiro que o levou de volta à Série B: Segunda Divisão pode ser para sempre.bahia

 

Ao longo da minha vida – tenho 58 anos – não fui mais de 20 vezes a um estádio de futebol. Uma delas, no dia 14 de dezembro de 2003. Desta feita o que me motivou a fazê-lo foi o receio de presenciar uma tragédia. Tinha plena consciência de que isto poderia ocorrer e, como jornalista, eu me senti no dever de estar na Fonte Nova.

 

O resto dessa história está contado no artigo do dia 15/12/2003, a seguir.

 

Segunda Divisão pode ser para sempre

 

Tenho a impressão de que alguém do Esporte Clube Bahia com poder de persuasão junto aos jogadores garantiu a eles que o juiz da partida contra o Cruzeiro não teria coragem de marcar pênalti num jogo que para os mineiros não representava mais do que a perspectiva de satisfazer a vaidade dos 100 pontos com 100 gols, enquanto que para os baianos poderia significar o rebaixamento para a Segunda Divisão do campeonato brasileiro de futebol, condição que pode ser para sempre.

 

Sou de um tempo em que o carnaval de Salvador começava timidamente no início da tarde de sábado entre barracas armadas em torno do monumento a Castro Alves e acontecia entre a Praça da Sé e o Campo Grande. Rememoro este fato para registrar que foi nesta época que me encantei com o hino do Bahia, pulando atrás de um trio elétrico no trecho da Avenida Sete onde se localiza o Colégio das Mercês, defronte ao qual eu morava.

 

Sofri tanto na condição de torcedor do Botafogo do Rio de Janeiro que antes da idade adulta decidi dizer não a esta paixão nacional. De lá para cá me permito apenas nutrir simpatia descompromissada com alguns clubes de futebol de algumas partes do Brasil. Sem deixar de priorizar o time da estrela solitária, sou Confiança em Sergipe, Vitória na Bahia, Cruzeiro em Minas Gerais, Santos em São Paulo, Atlético no Paraná e Grêmio no Rio Grande do Sul.

 

Sou Vitória, mas não sou anti-Bahia por uma razão muito simples: gosto de ver esta cidade de São Salvador alegre e sei que parte da alegria desta cidade está atrelada ao desempenho dos jogadores do chamado “tricolor de aço”.

 

Por isso, ao longo de toda a semana que passou me empenhei em conseguir o dinheiro do ingresso para assistir ao jogo deste domingo no estádio da Fonte Nova, nas proximidades do qual estou morando há quase um ano.

 

Assegurei o capital do ingresso na sexta-feira e no domingo saí para comprar pão prestando atenção a tudo que via ou ouvia relacionado com o jogo, cujo resultado poderia ser desastroso para o time de torcida mais numerosa na Bahia e no Nordeste, uma das mais numerosas do Brasil.

 

“O Bahia morreu! Eu vou acompanhar hoje a morte do Bahia!” – gritou com emoção um torcedor do tricolor uniformizado, passando por mim de volta do mercado com meu pacote de pão.

 

Eram pouco mais de nove horas e só voltei a sair de casa perto do meio-dia. Parei no bar do Valdir, no Campo da Pólvora, que se deliciou com o desabusado epigrama de um rubro-negro tão assumido quanto ele:

 

“Quero que o Bahia desça e que meu p… cresça!”

 

Anotei o epigrama, fui comprar meu ingresso, fui almoçar e entrei na Fonte Nova às 14 horas. Fiz parte do primeiro milhar de espectadores que a essa hora estava por lá.

 

A mística do número 13 ganhou força pelo lado negativo quando, aos 13 minutos de jogo, Paulino fez pênalti, que o juiz marcou, Alex bateu e Emerson não pegou. Quanto ao juiz, aplicou a regra elementar:

 

Derrubar na área é pênalti.

 

Quanto ao jogador do Cruzeiro, fez o que sabe: gol. Quanto ao goleiro Emerson, não teve sucesso na tarefa mais difícil entre as reservadas aos goleiros.

 

Valdomiro meteu a mão na bola dentro da área aos 16 minutos: outro pênalti.

 

Alex bateu, Emerson não pegou, gol.

 

Aos 22 o mesmo Valdomiro derrubou outro adversário na área: terceiro pênalti.

 

Alex bateu, Emerson não pegou, gol.

 

Chiquinho derrubou outro adversário na área aos 37 minutos e a história se repetiu com os mesmo atores.

 

Aos 11 minutos do segundo tempo Alex deu a entender que tomou para si a tarefa de cumprir a meta que Wanderley Luxemburgo estabeleceu de fazer 100 gols no campeonato.

 

Craque que é, passou por Emerson e colocou a bola na rede pela quinta vez.

 

A propósito, Fábio Caraciolo escreveu no jornal A Tarde que “o jogo na Fonte Nova foi um passeio da raposa”.

 

Se raposa é Alex, foi mesmo.

 

A meta dos 100 pontos no campeonato que Wanderley tinha em mente já estava assegurada há muito tempo, quando outro jogador do time mineiro estabeleceu em 7 o marcador.

 

Conclusão: o Bahia está na Segunda Divisão.

 

Desejo que não fique por lá.

 

 

P. S. Em 18/08/2008: Tenho acompanhando a trajetória do Bahia na disputa da série B do Campeonato Brasileiro. Estou preocupado com a possibilidade de ver meu vaticínio confirmado por mais um ano.

Em tempo: guardo comigo o canhoto do ingresso do jogo de 2003 e tenho muitas razões para pensar que restam poucos.

 

A ficha técnica:

 

BAHIA

Emerson; Valdomiro, Gustavo Castro e Accioly; Paulinho (Ramos), Otacílio, Cícero, Preto e Chiquinho; Cláudio e Didi

Técnico: Edinho Nazareth

 

CRUZEIRO

Gomes, Maurinho, Cris, Edu Dracena e Leandro; Maldonado, Recife (Felipe Mello), Wendell (Zinho) e Alex; Márcio Nobre (Alex Dias) e Mota

Técnico: Wanderley Luxemburgo

 

Local: Estádio da Fonte Nova, em Salvador

Juiz: Evandro Rogério Roman

Cartões amarelos: Valdomiro, Paulinho

Gols: Alex, aos 13min, 17min, 27min e 38min, do primeiro tempo, e aos 21min do segundo tempo; Felipe Mello, aos 10min, e Mota, aos 23min, do segundo tempo.

Não é ciúme o principal determinante dos crimes passionais; é insatisfação amorosa.

“O amor insatisfeito se transforma em raiva.”

 

Desde que tomei conhecimento desta observação feita por Plotino em um dos seus tratados, deixei de considerar o ciúme como principal determinante de crimes passionais.

Licópolis, Egito 205 – Roma, Itália 270

Plotino: Licópolis, Egito 205 – Roma, Itália 270

 

 

Como se sabe, este é o entendimento que predomina até mesmo entre estudiosos do assunto, tanto no âmbito da Psicologia quanto do Direito.

 

O problema é, portanto, mais grave, porquanto de solução mais difícil, mesmo com apoio psicológico. Conseqüentemente, torna a punição dos crimes passionais questão mais complexa do que quando o determinante é…

 

Apenas ciúme.

 

A condição de quem não encontra satisfação para seu amor me parece menos suportável até do que a mais dramática entre as relacionadas diretamente com ciúme, tanto por ser esta, em princípio, intermitente, quanto por geralmente incluir momentos de completa satisfação do sentimento amoroso.

 

Instruído por Plotino, tenho em mente a pessoa que não encontra satisfação para este sentimento de modo absoluto.

 

Não corresponder à expectativa do objeto do seu amor ou este objeto ser, pura e simplesmente, inacessível, resulta em sofrimento tão grande que ocorre a transformação do sentimento que o provoca em seu oposto, conforme a observação do filósofo.

 

Daí o crime de morte como tentativa de se livrar, tal como ocorre de forma relativamente mais deplorável quando o assassino é…

 

Apenas ciumento.

A violência decorre, antes de tudo, da seguinte equação: recorre à cabeça, falta argumento, faz ameaça.

Trabalho na perspectiva de que nós brasileiros e estrangeiros de qualquer parte do planeta possamos evoluir tanto que dentro de algumas décadas nos tornemos capazes de atingir no campo do Direito Penal o patamar dos Persas 400 anos antes da era cristã, quando estabeleceram pena até para a ingratidão.

Mulher chorando - Pablo Picasso

Mulher chorando - Pablo Picasso

 

 

 

A reflexão me ocorreu em meio à leitura de uma extensa reportagem sobre atos de violência física praticados por homens contra mulheres de ponta a ponta do Brasil, com destaques lastimáveis para o Estado de Pernambuco e o Distrito Federal.

 

Enquanto não se oferece mais escola é imprescindível disponibilizar mais prisões.

 

Apenas por isso, bem vinda a Lei Maria da Penha.

 

Apenas por isso, sim, porque a mudança do quadro constrangedor detalhado na reportagem assinada por Cecília Melo e publicada no site Contas Abertas virá somente a médio ou longo prazo se houver melhoria significativa na qualidade da educação disponibilizada em todos os segmentos da população, especialmente aqueles mais carentes de tudo e que são justamente os mais numerosos.

 

Vou me permitir um parêntesis:

 

Um presidente da República apenas treinado para parecer preparado para o pleno exercício do cargo é, em si mesmo, um entrave a um projeto educacional mais abrangente e eficiente.

Temporariamente, nosso caso inclui essa dificuldade a mais.

Que o diga o senador Cristovam Buarque!

 

De volta.

 A leitura da reportagem do Contas Abertas  me trouxe á mente o registro de que, na opinião de Freud, o primeiro ser humano que vociferou uma maldição em vez de empunhar uma arma contra seu adversário foi o descobridor da civilização.