
"Não há volúpia sem vertigem" Anatole France (1844-1924)
A exemplo de bilhões de pessoas em todas as parte do planeta, tenho acompanhado o noticiário sobre isso a que se tem denominado genericamente Crise das Bolsas de Valores. Por coincidência, neste final de semana a seqüência da leitura da coletânea de fragmentos de Walter Benjamin intitulada Passagens me colocou diante do conjunto que trata de Prostituição e Jogo, e nele me deparei com informações que considero essenciais à plena compreensão (*) do que vem ocorrendo no mercado de capitais.
Tendo em vista o imenso sofrimento aí envolvido, e considerando que, do meu ponto de vista, mil vezes mais do que prazer usufruído, essencialmente, felicidade é quantidade de sofrimento compreendido, me senti no dever de elaborar um post com uma síntese do que li.
Antes de tudo, a citação de trecho de um artigo de Paul Lafargue (1842-1911)
Eis:
“É impossível esperar que um burguês algum dia consiga compreender os fenômenos de distribuição das riquezas. Pois, à medida que se desenvolve a produção mecânica, a propriedade se despersonaliza e se reverte com a forma coletiva impessoal da sociedade anônima, cujas cotas terminam por rodopiar no turbilhão da bolsa de valores… Alguns perdem…, outros ganham, de uma maneira que se assemelha tanto ao jogo, que os negócios da bolsa de valores são efetivamente chamados de ‘jogo’. O desenvolvimento econômico moderno como um todo tende a transformar, cada vez mais, a sociedade capitalista em um enorme cassino internacional, onde os burgueses ganham e perdem capitais em conseqüência de acontecimentos que lhes permanecem desconhecidos… O ‘inescrutável’ reina na sociedade burguesa como num antro de jogo… Sucessos e fracassos, cujas causas são inesperadas, geralmente desconhecidas e aparentemente regidas pelo acaso, predispõem o burguês a adquirir uma mentalidade de jogador… O capitalista, cuja fortuna está aplicada em valores mobiliários, submetidos a oscilações de preço e dividendos cujas causas desconhece, é um jogador profissional. O jogador, porém, … é um ser altamente supersticioso. Os freqüentadores assíduos do antros de jogo possuem sempre fórmulas mágicas para exorcizar o destino; um deles murmura uma oração a santo Antonio de Pádua ou a qualquer outro espírito celestial; um segundo aposta apenas quando uma determinada cor ganhou; um terceiro segura com a mão esquerda uma pata de coelho etc. O inescrutável social envolve o burguês, como o inescrutável envolve o selvagem”. Die Ursachen des Gottesgraubens, Die Neue Zeit, XXIV, n° 1, Stuttgart, 1906.
Em tempo: Lafargue é identificado pelos editores brasileiros de Passagens como se segue: “Socialista radical e escritor francês; amigo íntimo de Marx e Engels. Um dos fundadores do Partido Operário Francês (1879), editou, com Jules Guesde, Le Citoyen, de 1881 a 1884. Rejeitou compromisso com o governo capitalista.”
Para quem ainda não sabe o que é jogar, deixemos Anatole France explicar, conforme citado por Benjamin em fragmento da página 539.
Eis:
“Tentar a sorte não é uma volúpia medíocre. Experimentar – num segundo – meses, anos, toda uma vida de temor e de esperança não é um prazer sem embriaguez. Eu não tinha nem dez anos quando o Sr Grépinet, meu professor da nona série, leu-nos em aula a fábula do Homem e do Gênio. No entanto, lembro-me dela melhor do que se a tivesse ouvido ontem. Um gênio dá a um menino um novelo de linha e lhe diz: ‘Este é o fio dos seus dias. Pega-o. Quando quiseres que seu tempo passe, puxa o fio: seus dias passarão rápidos ou lentos conforme você desenrolar o novelo, rápida ou lentamente. Enquanto você não tocar o fio, permanecerá na mesmo hora da sua existência.’ O menino pegou o fio; puxou-o primeiro para tornar-se um homem, depois para desposar a noiva que amava, depois para ver crescerem seus filhos, para conseguir os empregos, os salários, as honras, para superar as preocupações, evitar os aborrecimentos, as doenças que vêm com a idade, enfim, ai de mim! Para terminar uma velhice insuportável. Ele tinha vivido quatro meses e seis dias desde a visita do gênio. Pois bem! O que é o jogo senão a arte de viver num segundo as mudanças que o destino geralmente só produz ao longo de muitas horas e mesmo de muitos anos; a arte de acumular num só instante as emoções esparsas na lenta existência dos outros homens, o segredo de viver toda uma vida em alguns minutos, enfim, o novelo de linha do gênio? O jogo é um corpo-a-corpo com o destino… Joga-se a dinheiro – dinheiro, quer dizer, a possibilidade imediata, infinita. Talvez a carta que se vira ou a bolinha que corre dê ao jogador parques e jardins, campos e vastos bosques, castelos elevando ao céu suas torres pontiagudas. Sim, esta pequena bola que rola contém em si hectares de boa terra e telhados de ardósia, cuja chaminés esculpidas se refletem no Loire; ela encerra os tesouros da arte, as maravilhas do gosto, jóias prodigiosas, os corpos mais belos do mundo, e mesmo almas – que se pensava não fossem venais –, todas as decorações, todas as honras, toda a graça e todo o poder da Terra… E você quer que não se jogue? Se pelo menos o jogo desse apenas esperanças infinitas, se mostrasse apenas o sorriso de seus olhos verdes, talvez não o amássemos tão ardorosamente. Mas ele tem unhas de diamante, é terrível; proporciona, quando lhe apraz, a miséria e a vergonha; é por isso que o adoramos. A atração do perigo subjaz a todas as grandes paixões. Não há volúpia sem vertigem. O prazer misturado com o medo embriaga. E o que há de mais terrível que o jogo? Ele dá e tira; suas razões não são absolutamente as nossas razões. Ele é mudo, cego e surdo. Pode tudo. É um deus… Tem seus devotos e seus santos que o amam pelo que ele é, não pelo que promete, e que o adoram quando os atinge. Se os despoja cruelmente, atribuem a falta a sim mesmos, não a ele: ‘Joguei mal’, dizem. Eles se acusam e não blasfemam.” Le Jardin d’Épicure, Paris.
Conforme se leu, para bem compreender a crise financeira em curso é fundamental conhecer um pouco da psicologia do jogador.
Tão semelhantes uma Bolsa de Valores e um Cassino que em versos escritos em 1839 e dirigida aos deputados na forma Petição à Câmara para liberação do jogo, um certo Louis Bourlier, ex-funcionário de uma ferme des jeux (concessão de jogos) em Paris, diz o seguinte, conforme fragmento à página 543:
“No átrio da Bolsa, como no de nossa casa,
Joga-se, e afronta-se os golpes da sorte:
Vermelho e negro no Trinta e um, alta e baixa na Bolsa,
São de perda e de ganho igualmente a fonte.
…
Ora, se o jogo da Bolsa é tão semelhante ao nosso,
Por que permitir um? Por que proibir o outro?”
Como se arruinar na Bolsa?
A resposta se encontra num fragmento da página 544, todo ele também uma citação.
Eis:
Extraído de M. J. Ducos (de Gondrin): Comment on se Ruine à la Bourse, Paris, 1858: “Não querendo de forma alguma atacar direitos legítimos, não tenho nada a dizer contra as operações sérias de Bolsa, para as quais os agentes de câmbio foram exclusivamente criados. Minha crítica visa particularmente as corretagens de mercados fictícios … e os reportes usurários.” (p. 7) “Não há sorte no jogo da bolsa, por mais feliz que seja, que possa resistir às comissões exorbitantes dos agentes de câmbio… Às margens do Reno, há dois estabelecimentos de jogo (Homburg e Wisbaden) onde se joga o trinta e quarenta, adiantando uma pequena … comissão de 62 ½ cêntimos por 100 francos. É … a trigésima segunda parte da comissão dos agentes de câmbio e da taxa dos reportes reunidas. No trinta e quarenta aposta-se no vermelho ou no negro, como na Bolsa se aposta na alta ou na baixa, com a diferença de que, no jogo, as duas opções são sempre perfeitamente iguais e que não é possível qualquer espécie de fraude, os fracos não ficando de maneira alguma à mercê dos poderosos.” (p. 16).
* Entender é estar certo de ter dado ou tomado conhecimento; compreender é desfrutar do entendimento.
P. S. Neste final de semana – 13/12 – deparei-me com outro fragmento de Passagens igualmente relacionado à crise financeira em curso, todo ele uma citação de Egon Friedell (1878-1938), filósofo, historiador, jornalista, ator e crítico de teatro austríaco, recolhida por Walter Benjamin em Kulturgeschichte der Neuzeit, Munique, 1931.
Eis:
“Em 1852, os irmãos Péreire, dois judeus portugueses, fundaram o primeiro grande banco moderno, o Crédit Mobilier, do qual se dizia que era o maior antro de jogos da Europa. Especulava-se em tudo de modo selvagem: ferrovias, hotéis, colônias, canais, minas, teatros, e após quinze anos declarou-se falência total”.
Para melhor compreender o que aqui se descreve é fundamental não esquecer que Daniel Dantas é banqueiro. Da forma que o era Salvatore Cacciola.
P. S. 2 Para quem pensa que a globalização da economia é novidade, aqui vai um relato de Siegfried Kracauer (1889-1966), escritor, jornalista, sociólogo e crítico cultural alemão, citado por W. Benjamin à pág. 773 de Passagens:
“De 1852 a 1865, a França concedeu a outros países empréstimos no valor de 4 bilhões e meio… Os operário foram atingidos pelo desenvolvimento econômico de maneira ainda mais imediata do que os republicanos burgueses. As conseqüências do tratado de comércio com a Inglaterra e o desemprego na indústria de algodão, provocado pela Guerra de Secessão americana, fizeram com que eles percebessem que sua própria situação dependia diretamente da situação econômica internacional”.