Arquivo para Dezembro, 2008

O Ministério Público e o descaso com a falta de higiene nos ônibus de Salvador

Aproveito a discussão que se trava no momento em torno do aumento da tarifa de transporte coletivo da capital baiana para perguntar aos integrantes do Ministério Público se eles não se sentem no dever de exigir do prefeito João Henrique Carneiro providências imediatas para tornar o interior dos ônibus menos imundo.

Em defesa de ônibus limpinho tanto por fora quanto por dentro!

Em defesa de ônibus limpinho tanto por fora quanto por dentro!

 

 

Considerando

 

1- que a solução da falta de higiene é simples – basta mandar lavar o interior dos veículos periodicamente com água e sabão;

 

2- que a imundice comum a todos eles é fonte de disseminação dos mais diversos tipos de doenças,

 

e tendo em vista

 

1- que o tratamento de muitos dos infectados é custeado com recursos públicos

 

parece-me elementar

 

2- que, diante da omissão do chefe do Executivo Municipal, algum integrante do Ministério Público tome para si a responsabilidade de fazer alguma coisa.

 

Ou não?

 

Já tratei desta questão em três ou quatro posts deste Trevo do Talvez e estou convencido de que se na condição de candidato à reeleição João Henrique Carneiro não fez nada, agora que está eleito é que ele não vai mesmo se ocupar desse problema.

 

Sendo assim, se alguém do Ministério Público se dispuser a cumprir o que entendo como dever funcional, basta localizar os referidos posts e encontrará neles argumentos suficientes para exigir do chefe do Executivo Municipal ou dos empresários as medidas cabíveis.

 

Atenção!

 

Se este post resultar em nada, vou fazer a seguinte sugestão aos estudantes de todos os níveis de escolaridade: Mobilizem-se e condicionem a aceitação do aumento nas tarifas à garantia de ônibus tão limpinhos na parte interna quanto o são na parte externa!

Minha versão do mais famoso haicai de Matsuo Bashô (1644-1694)

haicai-ra

Na companhia de alguém que se entedia com o que chamam “mau tempo”, esta tarde de chuva eu perderia.

Para encher a cabeça V

Na companhia de alguém que se entedia com o que chamam “mau tempo”...

Na companhia de alguém que se entedia com o que chamam “mau tempo”...

 

 

Véspera de final de semana, recolho no meu Diário outro conjunto de anotações para mais um post sob este título. E, para dar idéia do conteúdo, repito a máxima que escrevi na abertura dos anteriores: Você enche sua cabeça de futilidades ou de coisas significativas; vazia ela não fica.

 

Do lucubrar e do governar

 

De José Guilherme Merquior in De Paris a Praga:

 

“A tese do caleidoscópio e a semiótica mântica nos permitem resolver a questão espinhosa de avaliar se o pós-estruturalismo, principalmente na forma representada pelo Barthes dos últimos, anos Derida e Foucault, é uma seqüela ou uma ruptura de corrente principal estruturalista do início e meados dos anos 60. Ou, noutras palavras: o pós-estruturalismo é um neo-estruturalismo ou um anti-estruturalismo?”

 

O tipo de estadista equivalente a este tipo de intelectual é José Sarney.

Sonhava tanto que não é uma metáfora escrever: Governava dormindo.

 

Em 13/1/91

 

O que ele fez

 

- Khwaja! Piedade; interceda pelo meu filho.

Levaram ele para Damasco – para a prisão. Ele é um homem bom, não fez nada – nada mesmo, eu juro!

- Mas então por que é que o levaram para a prisão?

- Por nada. É uma injustiça. Salve-o para mim.

- Mas o que é que ele fez, mãe?

- Nada. Juro por Deus. Juro por Deus, é verdade!

Ele não fez nada demais, só matou um homem!

 

Diálogo de uma beduína com o marido da escritora Agatha Christie, Max Mallowan, que era arqueólogo, reproduzido por ela em Desenterrando o Passado – Nova Fronteira – tradução Cora Rónai Vieira

 

“A alegria foi tanta que quase quebrou a perna.”

                       

Do relato que ouvi de um cearense sobre a reação de uma das irmãs dele

ao revê-lo, em Fortaleza, ele chegando de São Paulo, no meio da madrugada. Atordoada e na penumbra, a irmã bateu a perna numa cadeira.

 

Sem direito de existir

 

Tenho em mãos os Anais de Tácito; leio (Início dos anos 90) o prefácio de Brenno da Silveira e constato que pertenço àquela classe social da Roma do primeiro século da era cristã cujos integrantes não tinham sequer o direito de existir.

É um consolo saber, porém, que naquela época os membros do Senado tinham o direito de bajular o Imperador e o dever de aplaudir até seus crimes mais bárbaros.

Tanto assim que, por não ter participado da sessão de congratulações a Nero por haver mandado matar a própria mãe, Traseia foi condenado à morte.

Preferiu suicidar.

 

“Senhor Domingos Perfeito, senhor Domingos Perfeito; favor comparecer ao balcão da Transbrasil, ala nacional.”

 

Serviço de comunicação do Aeroporto de Cumbica-SP

 

Da ralé

 

Engana-se quem pensa serem todos frutos de incompetência tantos atos que tanta irritação causam em eventos públicos sem fins comerciais.

O fato de a solução ser, em geral, tão óbvia e, sobretudo por isso, irritar, encerra a explicação: trata-se de uma forma comum de expressão de poder da ralé, cujo lema é:

Vamos errar pra irritar; e rir!

 

Do jeito de amar

 

É erro grave recusar-se a amar.

Custe quanto custar, custa sempre menos do que recusar-se.

Quem se recusa a amar por medo de sofrer – adverte Emilio Mira Y Lopez – não é apenas um covarde: é um automutilador mental.

Portanto, amar; amar muito!

Amar de coração, amar de pé…

Amar feito quem grita gooooooool

 

“Com Deus me deito, com Deus me acordo. Até quando, meu Deus?”

           

Oração das colegas de pensionato da Inês,

uma ex-companheira.

 

Seis e meia-dúzia

 

Enquanto no plano afetivo se aprimora, no político o feminismo corre o risco de limitar-se a mera mudança de sexo no comando: na liderança do movimento tem muitas mulheres mais masculinas do que a média dos homens.

  

Cheio de lúbricas, busco lúcidas!

Para compreender a crise nas Bolsas de Valores é fundamental saber o que se passa nos Cassinos

 

"Não há volúpia sem vertigem" Anatole France (1844-1924)

"Não há volúpia sem vertigem" Anatole France (1844-1924)

A exemplo de bilhões de pessoas em todas as parte do planeta, tenho acompanhado o noticiário sobre isso a que se tem denominado genericamente Crise das Bolsas de Valores. Por coincidência, neste final de semana a seqüência da leitura da coletânea de fragmentos de Walter Benjamin intitulada Passagens me colocou diante do conjunto que trata de Prostituição e Jogo, e nele me deparei com informações que considero essenciais à plena compreensão (*) do que vem ocorrendo no mercado de capitais.

Tendo em vista o imenso sofrimento aí envolvido, e considerando que, do meu ponto de vista, mil vezes mais do que prazer usufruído, essencialmente, felicidade é quantidade de sofrimento compreendido, me senti no dever de elaborar um post com uma síntese do que li.

 

Antes de tudo, a citação de trecho de um artigo de Paul Lafargue (1842-1911)

 

Eis:

 

“É impossível esperar que um burguês algum dia consiga compreender os fenômenos de distribuição das riquezas. Pois, à medida que se desenvolve a produção mecânica, a propriedade se despersonaliza e se reverte com a forma coletiva impessoal da sociedade anônima, cujas cotas terminam por rodopiar no turbilhão da bolsa de valores… Alguns perdem…, outros ganham, de uma maneira que se assemelha tanto ao jogo, que os negócios da bolsa de valores são efetivamente chamados de ‘jogo’. O desenvolvimento econômico moderno como um todo tende a transformar, cada vez mais, a sociedade capitalista em um enorme cassino internacional, onde os burgueses ganham e perdem capitais em conseqüência de acontecimentos que lhes permanecem desconhecidos… O ‘inescrutável’ reina na sociedade burguesa como num antro de jogo… Sucessos e fracassos, cujas causas são inesperadas, geralmente desconhecidas e aparentemente regidas pelo acaso, predispõem o burguês a adquirir uma mentalidade de jogador… O capitalista, cuja fortuna está aplicada em valores mobiliários, submetidos a oscilações de preço e dividendos cujas causas desconhece, é um jogador profissional. O jogador, porém, … é um ser altamente supersticioso. Os freqüentadores assíduos do antros de jogo possuem sempre fórmulas mágicas para exorcizar o destino; um deles murmura uma oração a santo Antonio de Pádua ou a qualquer outro espírito celestial; um segundo aposta apenas quando uma determinada cor ganhou; um terceiro segura com a mão esquerda uma pata de coelho etc. O inescrutável social envolve o burguês, como o inescrutável envolve o selvagem”. Die Ursachen des Gottesgraubens, Die Neue Zeit, XXIV, n° 1, Stuttgart, 1906.

 

Em tempo: Lafargue é identificado pelos editores brasileiros de Passagens como se segue: “Socialista radical e escritor francês; amigo íntimo de Marx e Engels. Um dos fundadores do Partido Operário Francês (1879), editou, com Jules Guesde, Le Citoyen, de 1881 a 1884. Rejeitou compromisso com o governo capitalista.”

 

Para quem ainda não sabe o que é jogar, deixemos Anatole France explicar, conforme citado por Benjamin em fragmento da página 539.

 

Eis:

 

“Tentar a sorte não é uma volúpia medíocre. Experimentar – num segundo – meses, anos, toda uma vida de temor e de esperança não é um prazer sem embriaguez. Eu não tinha nem dez anos quando o Sr Grépinet, meu professor da nona série, leu-nos em aula a fábula do Homem e do Gênio. No entanto, lembro-me dela melhor do que se a tivesse ouvido ontem. Um gênio dá a um menino um novelo de linha e lhe diz: ‘Este é o fio dos seus dias. Pega-o. Quando quiseres que seu tempo passe, puxa o fio: seus dias passarão rápidos ou lentos conforme você desenrolar o novelo, rápida ou lentamente. Enquanto você não tocar o fio, permanecerá na mesmo hora da sua existência.’ O menino pegou o fio; puxou-o primeiro para tornar-se um homem, depois para desposar a noiva que amava, depois para ver crescerem seus filhos, para conseguir os empregos, os salários, as honras, para superar as preocupações, evitar os aborrecimentos, as doenças que vêm com a idade, enfim, ai de mim! Para terminar uma velhice insuportável. Ele tinha vivido quatro meses e seis dias desde a visita do gênio. Pois bem! O que é o jogo senão a arte de viver num segundo as mudanças que o destino geralmente só produz ao longo de muitas horas e mesmo de muitos anos; a arte de acumular num só instante as emoções esparsas na lenta existência dos outros homens, o segredo de viver toda uma vida em alguns minutos, enfim, o novelo de linha do gênio? O jogo é um corpo-a-corpo com o destino… Joga-se a dinheiro – dinheiro, quer dizer, a possibilidade imediata, infinita. Talvez a carta que se vira ou a bolinha que corre dê ao jogador parques e jardins, campos e vastos bosques, castelos elevando ao céu suas torres pontiagudas. Sim, esta pequena bola que rola contém em si hectares de boa terra e telhados de ardósia, cuja chaminés esculpidas se refletem no Loire; ela encerra os tesouros da arte, as maravilhas do gosto, jóias prodigiosas, os corpos mais belos do mundo, e mesmo almas – que se pensava não fossem venais –, todas as decorações, todas as honras, toda a graça e todo o poder da Terra… E você quer que não se jogue? Se pelo menos o jogo desse apenas esperanças infinitas, se mostrasse apenas o sorriso de seus olhos verdes, talvez não o amássemos tão ardorosamente. Mas ele tem unhas de diamante, é terrível; proporciona, quando lhe apraz, a miséria e a vergonha; é por isso que o adoramos. A atração do perigo subjaz a todas as grandes paixões. Não há volúpia sem vertigem. O prazer misturado com o medo embriaga. E o que há de mais terrível que o jogo? Ele dá e tira; suas razões não são absolutamente as nossas razões. Ele é mudo, cego e surdo. Pode tudo. É um deus… Tem seus devotos e seus santos que o amam pelo que ele é, não pelo que promete, e que o adoram quando os atinge. Se os despoja cruelmente, atribuem a falta a sim mesmos, não a ele: ‘Joguei mal’, dizem. Eles se acusam e não blasfemam.” Le Jardin d’Épicure, Paris.

 

Conforme se leu, para bem compreender a crise financeira em curso é fundamental conhecer um pouco da psicologia do jogador.

 

Tão semelhantes uma Bolsa de Valores e um Cassino que em versos escritos em 1839 e dirigida aos deputados na forma Petição à Câmara para liberação do jogo, um certo Louis Bourlier, ex-funcionário de uma  ferme des jeux (concessão de jogos) em Paris, diz o seguinte, conforme fragmento à página 543:

 

“No átrio da Bolsa, como no de nossa casa,

Joga-se, e afronta-se os golpes da sorte:

Vermelho e negro no Trinta e um, alta e baixa na Bolsa,

São de perda e de ganho igualmente a fonte. 

Ora, se o jogo da Bolsa é tão semelhante ao nosso,

Por que permitir um? Por que proibir o outro?”

 

Como se arruinar na Bolsa?

 

 A resposta se encontra num fragmento da página 544, todo ele também uma citação.

 

Eis:

 

Extraído de M. J. Ducos (de Gondrin): Comment on se Ruine à la Bourse, Paris, 1858: “Não querendo de forma alguma atacar direitos legítimos, não tenho nada a dizer contra as operações sérias de Bolsa, para as quais os agentes de câmbio foram exclusivamente criados. Minha crítica visa particularmente as corretagens de mercados fictícios … e os reportes usurários.” (p. 7) “Não há sorte no jogo da bolsa, por mais feliz que seja, que possa resistir às comissões exorbitantes dos agentes de câmbio… Às margens do Reno, há dois estabelecimentos de jogo (Homburg e Wisbaden) onde se joga o trinta e quarenta, adiantando uma pequena … comissão de 62 ½ cêntimos por 100 francos. É … a trigésima segunda parte da comissão dos agentes de câmbio e da taxa dos reportes reunidas. No trinta e quarenta aposta-se no vermelho ou no negro, como na Bolsa se aposta na alta ou na baixa, com a diferença de que, no jogo, as duas opções são sempre perfeitamente iguais e que não é possível qualquer espécie de fraude, os fracos não ficando de maneira alguma à mercê dos poderosos.” (p. 16).

 

 

* Entender é estar certo de ter dado ou tomado conhecimento; compreender é desfrutar do entendimento.

 

P. S. Neste final de semana – 13/12 – deparei-me com outro fragmento de Passagens igualmente relacionado à crise financeira em curso, todo ele uma citação de Egon Friedell (1878-1938), filósofo, historiador, jornalista, ator e crítico de teatro austríaco, recolhida por Walter Benjamin em Kulturgeschichte der Neuzeit, Munique, 1931.

 

Eis:

 

“Em 1852, os irmãos Péreire, dois judeus portugueses, fundaram o primeiro grande banco moderno, o Crédit Mobilier, do qual se dizia que era o maior antro de jogos da Europa. Especulava-se em tudo de modo selvagem: ferrovias, hotéis, colônias, canais, minas, teatros, e após quinze anos declarou-se falência total”.

 

Para melhor compreender o que aqui se descreve é fundamental não esquecer que Daniel Dantas é banqueiro. Da forma que o era Salvatore Cacciola.

 

P. S. 2 Para quem pensa que a globalização da economia é novidade, aqui vai um relato de Siegfried Kracauer (1889-1966), escritor, jornalista, sociólogo e crítico cultural alemão, citado por W. Benjamin à pág. 773 de Passagens:

 

“De 1852 a 1865, a França concedeu a outros países empréstimos no valor de 4 bilhões e meio… Os operário foram atingidos pelo desenvolvimento econômico de maneira ainda mais imediata do que os republicanos burgueses. As conseqüências do tratado de comércio com a Inglaterra e o desemprego na indústria de algodão, provocado pela Guerra de Secessão americana, fizeram com que eles percebessem que sua própria situação dependia diretamente da situação econômica internacional”.  

 

 

 

 

Este blog vai completar um ano; número de acessos a post que trata de formação cultural é surpreendente

Eu não poderia imaginar que de uma a sete pessoas acessam diariamente a Internet em busca de resposta para perguntas do tipo o que é uma pessoa culta, como se tornar uma pessoa culta e o que uma pessoa culta deve saber, entre outras, ou fazer consultas no mesmo sentido a partir de palavras-chave. Ilustração: A Leitora Jean-Honoré Fragonard (1732-1806)

“Os livros não nos ensinam a viver, mas são fundamentais para sabermos que aprendemos”. Ismael Nery

“Os livros não nos ensinam a viver, mas são fundamentais para sabermos que aprendemos”. Ismael Nery

 

 

A este Trevo do Talvez, criado dia 11/12/2007, chegaram até agora 575 desses questionamentos, todos vinculados a um post intitulado Você se considera uma pessoa culta? Os dois outros posts mais acessados totalizaram 290 e 272 visitas.

 

Para se ter idéia do que significa isso, o total de posts do blog, incluindo este, é de 91 e o de acessos até o momento em que faço esta publicação 8.018.

 

Duas razões me levaram a escrever o referido post: primeiro, a atitude de um prefeito, caracterizando como cultural a iniciativa que tomou de aplicar a uma das ruas da cidade dele, até então identificadas por número, denominação de um estabelecimento por ele freqüentado na juventude, e que optei por designar como botequim.

 

A segunda razão foi uma campanha publicitária da Secretaria estadual de Cultura da Bahia, que dava a entender que tudo é cultura, como se fazer beiju de tapioca fosse algo equivalente a esculpir com arte em madeira ou ferro tão bem quanto Mestre Didi.

 

Cultura é o que? – indagava o slogan da referida campanha.

 

É o sal da vida! – responde Robert Musil.

 

Embora a metáfora do autor de O Homem sem Qualidades esteja mais para beiju do que para escultura em madeira ou ferro, ela deixa claro que cultura não é qualquer coisa, pois que qualquer coisa não tempera realmente a vida de ninguém.

 

O número de acessos ao post em questão parece-me evidenciar a imensa angustia que decorre, em grande medida, do descaso de sucessivos detentores do poder no Brasil com a real formação cultural da população.

 

Com a formação cultural mais sólida, duradoura e gratificante: aquela que tem por base a leitura.

 

Ocupo-me desta questão, tanto em seu aspecto coletivo, quanto individual, em dezenas dos fragmentos que compõe um livro da minha autoria em fase final de elaboração, ao qual já fiz referência neste Trevo do Talvez.

 

Ao decidir escrever este post comemorativo do aniversário do blog, lembrei prontamente dos que se seguem:

 

Os ignorantes louvam entre si a falta de cultura; batem palmas para a preguiça de estudar.

 

A causa mais comum de ignorância é o desconhecimento do prazer de ler. Tão importante é a leitura para a formação cultural que Dietrich Schwanitz aconselha a quem não tem o hábito de ler que o exercite de forma seletiva, escolhendo assuntos pelos quais tenha especial interesse. Ainda que sejam romances eróticos – sugere.

 

No processo de formação cultural há uma fase cheia de citação; para o pedante é o limite.

 

Pedante é o sujeito que considera inculto aquele que não sabe o que ele aprendeu ontem.

 

A humanidade sofre mais por ignorância do que por incompetência; é dos incultos o mais repleto dos círculos do dantesco inferno real.

 

Datado de hoje 4/12/2008, o primeiro e único comentário ao muito acessado post sobre formação cultural tem o seguinte teor:

 

“Eu me considero uma pessoa culta porque estou sempre procurando me aperfeiçoar nas notícias importantes do Brasil e do mundo, me interesso por política, economia, Educação, saúde, segurança, enfim de tudo posso falar um pouco e quando não estou por dentro do assunto procuro ficar calada no momento, mas na primeira oportunidade faço pesquisas sobre o assunto e me integro.”

 

Inculta a autora do comentário, Ivani de Souza Lopes, não é, evidentemente. Preocupa-me, porém, que esteja entre os milhares que adotam o critério da quantidade de informação para avaliar o grau de cultura que detêm.

 

Preocupa-me igualmente a possibilidade dela se sentir ofendida, mas vou me permitir transcrever dois outros fragmentos da minha “obra em progresso”, conforme diria Caetano Veloso, nos quais abordo esta questão de forma irônica e, ao mesmo tempo, severa.

 

Acúmulo de informação caracteriza mais o pedante do que o competente; o alienado pós-moderno é produto, justamente, do excesso de informação.

 

Alienado é o sujeito que já se danou e segue pensando que não vai se danar.

Sugestão de texto para cartão de Boas Festas endereçado a dirigentes da nação e políticos em geral

Dia 27 de maio último publiquei um post sob o título Aforismo de Nietzsche explica como se mente com toda a inocência que está entre os mais acessados deste Trevo do Talvez. O fato não surpreende, pois recorrer à mentira tem sido estratégia tão comum quanto desastrada em um surpreendente número de tentativas de esconder falcatruas por esse Brasil afora.

 

postal-11Em A Decadência da Mentira, conforme citado por Harold Bloom num instrutivo livrinho de título muito presunçoso – Como e por que ler – Oscar Wilde dirige-se aos políticos para fazer algumas considerações que, por muito oportuno, entre muitas outras razões, merecem ser impressas em cartão de Boas Festas endereçado aos dirigentes da Nação em todos os níveis, bem como a parlamentares, de senadores a vereadores, passando por deputados federais e estaduais, enfim, políticos de modo geral.

 

Senão vejamos: 

 

“Jamais chegam a ir além da mera distorção, e se prestam à humilhação da prova, da discussão, da argumentação. Como diferem do temperamento do verdadeiro mentiroso, com suas afirmações francas, destemidas, sua esplêndida irresponsabilidade, seu saudável desdém quanto a todo e qualquer tipo de prova! Afinal, o que é uma bela mentira? Simplesmente, aquilo que é prova de si mesmo. Se um indivíduo é desprovido de imaginação ao ponto de produzir evidências que sustentem uma mentira, é melhor que fale logo a verdade”.

 

Vem daí tanto “eu não sabia” do Lula e quejandos para tentar esconder falcatruas que não são capazes de explicar, defender, justificar ou vender de forma convincente, ou seja, mentindo inteligentemente.

 

Algum tempo depois de tomar conhecimento do conselho de Wilde, deparei-me, em fragmento de Passagens, de Walter Benjamin, com a citação que se segue, da lavra de Jerome Klapka Jerome (1859 – 1927), escritor e humorista inglês, tão semelhante ao do genial irlandês que me deixou curioso por saber de quem seria a primazia do raciocínio, pois essencialmente é o mesmo.

 

Eis:

 

“É sempre a melhor política dizer a verdade, a menos, é claro, que você seja um excepcionalmente bom mentiroso”.

 

Posto em prática este princípio, a gente não precisaria despender tanto tempo e energia até saber por A mais B o que efetivamente levou a diretoria da Petrobrás a tomar o empréstimo de dois vírgula não sei quantos bilhões de reais à Caixa Econômica Federal, em discussão no momento.

 

EM TEMPO: Tanto quanto o alentado livro de Dietrich Schwanitz – Cultura Geral / Tudo o que se deve saber – que cito num post deste Trevo do Talvez intitulado Você se considera uma pessoa culta?, o livrinho de Haroldo Bloom acima referido é de imensa utilidade para quem está realmente interessado em escapar da condição de ignorante. Ou de inculto, como queiram.

A condição de incompetente é de mais difícil superação, evidentemente.

Relação de causalidade entre comentários esportivos e violência envolvendo torcedores

Já está mais do que na hora dos concessionários e dirigentes de emissoras de TV e Rádio se compenetrarem da necessidade de cobrar dos comentaristas esportivos por eles contratados mais informações sobre a forma de lidar com as emoções dos torcedores.

É delicado o comportamento das multidões

É delicado o comportamento das multidões

 

 

Se em pessoas tão preparadas quanto o cientista Miguel Nicolelis ela chega às raias do descontrole histérico, conforme pude vez em trecho da reportagem do Globo Repórter sobre o funcionamento do cérebro, exibida nesta sexta-feira 28/11/08, não há por que se surpreender com a agressão sofrida pelo técnico do time da preferência dele no saguão do aeroporto de Congonhas, há duas semanas.

 

Entendo que Wanderley Luxemburgo foi vítima indireta de pessoas tão despreparadas quanto Neto e Godoy, comentaristas e jogo e arbitragem na Rede Bandeirantes de Televisão, respectivamente.

 

O despreparo do primeiro foi exposto de forma contundente pelo narrador Luciano do Valle na véspera da partida que decidiu a Copa do Brasil deste ano, disputada entre Sport e Corinthians.

 

Luciano declarou-se indignado com o ex-jogador Neto por se permitir comportar-se em seus comentários como torcedor fanático do time paulista, insinuando que uma derrota do Corinthians poderia resultar em conflito entre as torcidas no estádio da Ilha do Retiro, em Recife.

 

Na cabeça do Neto deve caber até torcedor do Sport torcendo pelo Corinthians com medo de apanhar!

 

Não saberia dizer exatamente por que, na mesma ocasião Luciano manifestou desagrado com “seu” Godoy. Mas isto não é relevante: quem quer que acompanhe as transmissões da Band tem conhecimento dos muitos julgamentos levianos que ele faz das arbitragens e, pior que isso, de uma forma que deve causar pânico na cabeça de torcedores fanáticos, intelectualmente menos preparados do que o pianista João Carlos Martins, por exemplo.

 

Por conseqüência, “seu” Godoy predispõe tais torcedores para a prática de violência.

 

Tão delicada é a função de um comentarista ou narrador esportivo, especialmente aqueles que se ocupam de futebol, que o narrador e comentarista baiano França Teixeira chegou a ser apontado por muita gente como principal responsável por uma tragédia ocorrida no estádio da Fonte Nova no início da década de 1970.

 

O estádio acabara de ser ampliando, ganhando o anel de arquibancada superior, e ele se pôs a dizer no seu popularismo programa de Rádio que o cimento empregado na obra pela Construtora Odebrecht estava como que se esfarelando, vamos dizer assim.

 

Segundo a interpretação de muita gente, com esta atitude irresponsável, fruto da mais pura ignorância tanto sobre material de construção quanto a respeito do delicado comportamento de multidões, teria contribuído para que o pânico desencadeado pela explosão de um refletor num painel de iluminação assumisse maiores proporções, tanto em número de vítimas quanto em danos físicos e psicológicos.