Arquivo para Janeiro, 2009

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Trechos de uma carta de amor perfeitamente “ridícula” de Luís da Câmara Cascudo

Nesta quinta-feira 22/01/09 alguém acessou este Trevo do Talvez a partir da seguinte consulta ao Google: “Carta de amor escrita por Albert Einstein”.

 

Precisei de alguns segundos para me dar conta de que num dos posts cito uma das “ridículas” cartas de amor escritas pela autor da Teoria da Relatividade.

 

“Ridículas” no sentido que Fernando Pessoa empresta a este adjetivo, no poema que começa assim:

 

“Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.”

 

Pois bem, no decorrer desta semana apresentei um colega de trabalho ao professor Câmara Cascudo e recordei que em março de 1995, trabalhando como repórter do jornal Tribuna do Estado do Rio Grande do Norte, entrevistei a grande paixão dele, Dona Dáhlia, que me mostrou uma carta “ridícula” do então namorado, datada de 8 de setembro de 1926 e postada em Recife, onde ele fazia curso de Direito.

 

Eis os trechos que citei na reportagem:

Luis da Câmara Cascudo (1898-1986)

Luís da Câmara Cascudo (1898-1986)

 

 

“Toda minha saudade não permite expressão de palavras. Tenho tua figura dentro dos olhos e a vejo por toda parte. Na solidão das minhas noites, silenciosas e vazias, ouço tua voz, inesquecível e linda, soando no espírito como uma chuva de ouro!”

 

“Recife está maravilhoso de festas, bailes, teatros. Que posso eu ver se deixei minhas pupilas nas tuas e só a ti eu vejo, penso, amo, adoro?”

 

Com a recordação, me deparei de novo com a indignação que causaram as muitas falhas de edição da reportagem, falhas que interpretei como ato de vingança praticado pelo fotógrafo Argemiro Lima, certamente em conluio ou pressionando a diagramadora, pessoa com quem fora casado e tinha não sei quantos filhos.

 

Aproveito este post para repor de memória um trecho que foi suprimido do lead da matéria, publicada na edição de 12/03/1995, comprometendo seu sentido.

 

Um dos biógrafos do escultor Auguste Rodin conta que certo dia, ao sair de casa pela manhã, ele manifestou à mulher, Rose Bruet o desejo de comer sua sopa preferida. Ao retornar ela colocou diante dele um prato fumegante, do qual ele se pôs a servir-se em silêncio. Com um detalhe: entre a hora que saiu e o retorno transcorreram mais de 20 dias, passados sem que a mulher soubesse do seu paradeiro, conforme era comum acontecer nessa época, em que se dedicava ao estudo das esculturas que embelezam as catedrais francesas.

 

Aproveito também para lastimar que não possa reproduzir aqui um decálogo de exigências elaborado por Luís da Câmara Cascudo, ao qual sua amada deveria submeter-se após o casamento.

 

Machista ao ponto de desmanchar o noivado da mais moderada feminista, o decálogo foi encarado pela apaixonada Dáhlia como um roteiro na sua preparação para o papel de “esposa” – disse eu na reportagem.

 

A supressão do decálogo deixou uma lacuna tão lastimável na reportagem que, somada ao trecho suprimido no lead e outras cositas mais, justificaria até a republicação.

 

Afinal, a personagem da reportagem é a viúva de um dos mais notáveis professores brasileiros.

 

Digo professor porque este o título o agradava tanto quanto o de folclorista o repugnava.

Informação para melhor dimensionar a onda que serve como metáfora da crise econômica global aqui no Brasil

Sem surpresa, tenho visto muita gente preconizar o fim do capitalismo entre as conseqüências da crise econômica global em curso. De viva voz, fizerem isto alguns pouco versados chefes de Estado latino-americanos durante reunião na Costa do Sauípe-BA, em dezembro último; por escrito ou falando, têm feito isto muitos analistas econômicos e jornalistas de toda parte nos mais diversos veículos de comunicação.

 

Agora que aqui no Brasil os mais informados e sensatos começam a vislumbrar, não uma onda onde é possível não apenas surfar, (Ao invés de “esquiar”, conforme disse equivocadamente o Presidente da República) mas praticar qualquer tipo de esporte que exija um volume d’água bastante significativo, decidi compartilhar com os leitores deste Trevo do Talvez mais alguns conhecimentos que adquiri recentemente lendo o conjunto de textos de Walter Benjamin reunidos sob o título Passagens, tal como anotados em meu Diário.

 

“O capitalismo não morrerá de morte natural”.

Walter Benjamin.

 

Os três fragmentos que antecedem a frase transcrita acima contêm, do meu ponto de vista, o essencial do que é

Karl Marx (1818-83) escultura em Chemnitz

Karl Marx (1818-83) escultura em Chemnitz

fundamental saber sobre o capitalismo. Benjamin cita Karl Korsch (1886-1961), filósofo e político alemão, em Karl Marx.

 

Eis o primeiro:

 

“Uma passagem decisiva sobre a mais-valia, mesmo que a frase final necessite ainda de um esclarecimento: “Também a doutrina da mais-valia, considerada usualmente como o elemento socialista propriamente dito da teoria econômica de Marx, não é, na forma aperfeiçoada em que ela a apresenta, nem uma simples operação de aritmética econômica, que atribui ao capitalismo um logro formal praticado contra os operários, nem uma lição moral da economia que exige que seja devolvida aos operários a parte do ‘produto integral do trabalho’ que foi desviada pelo capital. Como teoria ‘econômica’, ela parte do princípio de que o empresário capitalista adquire ‘normalmente’ a força de trabalho dos assalariados por meio de uma troca leal em que o operário recebe como salário o equivalente integral da ‘mercadoria’ que ele vendeu. A vantagem do capitalista neste negócio não advém da economia, e sim de sua posição social privilegiada de proprietário exclusivo dos meios materiais de produção, que lhe permite explorar, para produzir mercadorias, o valor de uso específico da força de trabalho comprada por ele por seu ‘valor’ (valor de troca). Entre o valor das mercadorias produzidas pela exploração da força de trabalho na empresa capitalista e o preço pago por esta força de trabalho a seus vendedores não existe, segundo Marx, nenhuma relação econômica nem outro tipo de relação que possa ser racionalmente determinada. O tamanho do valor produzido pelos operário na forma dos produtos de seu trabalho acima do equivalente de seu salário, ou seja, a quantidade de ‘mais-trabalho’ despendido para criar esta ‘mais-valia’, e a relação deste ‘mais-trabalho’ com o trabalho necessário (isto é, ‘a taxa de mais-valia’ ou ‘a taxa de exploração’ vigente respectivamente por um tempo determinado e em um determinado país) não são, portanto, resultado de um cálculo econômico. São o resultado de uma luta social de classes”.

 

O segundo fragmento:

 

“O sentido da doutrina marxista do valor não consiste absolutamente…, em última análise, na constituição de uma base teórica qualquer para o cálculo prático dos benefícios particulares que busca o homem de negócios, ou para as medidas político-econômicas do homem de Estado burguês, que se preocupa com a manutenção e o crescimento geral da mais-valia capitalista. Segundo Marx, a finalidade científica de sua teoria consiste em ‘desvendar a lei econômica do movimento da sociedade moderna’ – e isto significa, ao mesmo tempo, a lei de seu desenvolvimento histórico.”

 

O terceiro:

 

“Determinação completa do caráter social real daquele processo fundamental da produção capitalista moderna que é apresentando de maneira unilateral tanto pelos economistas burgueses quanto por seus adversários, os socialistas vulgares, ora como produção de bens de consumo, ora como produção de valor ou como simples produção de lucro”: uma “produção de mais-valia mediante a produção de valor mediante a produção de bens de consumo em uma sociedade na qual os bens de produção materiais entram no processo de produção dominado pelo capitalista como capital, enquanto os produtores reais entram como mercadoria força de trabalho”.

 

Cento e quatorze páginas adiante, Walter Benjamin escreve o seguinte:

 

“Em 1825, segundo Marx, a primeira crise da indústria moderna, isto é, a primeira crise do capitalismo”.

Em tempo: O que é crise?

 

A resposta que se segue é de Eugène Buret, em Da Miséria das Classes Trabalhadoras, conforme citado por W. Benjamin, à pág. 857 de Passagens:

 

“Se a concorrência entre os comerciantes… ou qualquer outra causa não permite que as vendas se realizem no tempo oportuno, o comerciante é forçado a… suspender seus negócios e, como reação, lançar o problema de volta para os produtores… É por isso que não se consegue distinguir as crises comerciais das crises industriais, já que a indústria é tão dependente dos intermediários… Faz-se uma avaliação, terrível e precipitada, de todos os valores em circulação e declara-se que uma enorme quantidade deles é nula… Chama-se de crise cada um desses momentos de avaliação dos valores comerciais”.

Em defesa de livros que não apenas informem, mas que transformem o leitor.

 

Atenção: Reformulado, o texto que se segue é um registro em Diário do início dos anos 90, feito no decorrer da leitura do livro de que trata.

 

O Ponto de Mutação é exemplo de um livro importante que não muda ninguém; deleita onde deveria perturbar.

A explicação para este fato, do meu ponto de vista, está, antes de tudo, na personalidade do autor, Fritjof Capra, que me parece fraca.

Fritjof Capra

Fritjof Capra

 

Outra causa da ineficiência do livro é a forma que ele empregou na escrita: gasta, relativamente antiquada.

Tenho a impressão de que os leitores exclamam, página sim, página não:

É verdade! É verdade!

Concluída a leitura, não deixam de proclamar:

Ele tem razão!

E continuam iguais.

Não quero dizer que o livro é inútil; quero dizer que tratar dos problemas da forma que nele se trata não mexe com ninguém, quando é fundamental mexer.

É, sem nenhuma dúvida, uma forma que faz sucesso de público.

Da maior parte dos problemas abordados, as pessoas realmente lúcidas e cultas estão informadas e conscientes; para o leitor comum é preciso que sejam abordados de forma que provoque reflexão e, daí, transformação.

Não estou certo de que a forma que aplico ao essencial do que escrevo – ainda inédito – o é.

Desejo que o seja; pelo bem do leitor.

 

P. S. Pouco tempo depois de fazer este registro, conversei com uma pessoa que a certa altura me pediu para repetir minha abordagem de certa questão, sob a seguinte alegação:

“Meu raciocínio é espacial”.

E me falou encantado sobre O Ponto de Mutação.

Opção de leitura para quem deseja despertar ou consolidar o prazer de ler: Werther

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