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Aforismo de Nietzsche explica como se mente com toda a inocência

Em aforismo de Humano, demasiado humano, Friedrich Nietzsche faz algumas reflexões sobre a mentira que contribuem para uma compreensão mais ampla e profunda do atual momento político nesta terra brasillis.

O filósofo alemão começa indagando-se por que, na vida cotidiana, os homens normalmente dizem a verdade?

Certamente para espanto de muitos dos seus leitores, afirma que isto ocorre, em primeiro lugar, porque é mais cômodo:

“A mentira exige invenção, dissimulação e memória” – observa.

E comenta ser esta a razão por que, segundo Jonathan Swift, autor de As Viagens de Gulliver, quem conta uma mentira raramente nota o fardo que assume; pois para sustentar uma mentira ele tem que inventar outras vinte.

A segundo razão para a opção preferencial pela mentira vem de que – escreve Nietzsche – é vantajoso, em circunstâncias simples, falar diretamente “quero isto, fiz isto” e coisas assim; ou seja, porque a via da imposição e da autoridade é mais segura que a da astúcia.

 

Vou adiar um pouco a conclusão do aforismo para registrar que ele me veio à mente ao ler, no dia 21/5/2008, um post no blog do jornalista Ricardo Noblat em que este se revela indignado com a banalização da mentira no âmbito do Congresso Nacional, mais especificamente na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga denúncias de uso indevido de cartões corporativos.

Indignado, Noblat resumiu da forma que se segue o que rolou na reunião durante a qual foram ouvidos José Aparecido Nunes, ex-chefe da Secretaria de Controle Interno da Casa Civil da presidência da República, e André Fernandes, assessor do senador Álvaro Dias, personagens do episódio batizado na mídia como “dossiê FHC”:

 

“Dessa vez conseguiram a proeza de desmoralizar a mentira.

No passado, a mentira era tratada com respeito, solenidade, tapete vermelho, reverência, vênia. Ninguém saía por aí improvisando mentiras. Se o fizesse, pegaria mal – e as mentiras, de sua parte, não pegariam. Havia até um certo sentimento de admiração coletiva diante de quem mentia muito bem.

Tristes tempos esses em que a mentira acabou no esgoto”.

  

Em post que publicou algum tempo depois no mesmo dia, Noblat foi ainda mais brilhante na avaliação do espetáculo protagonizado por “um Zé Aparecido e um André”, que intitulou assim:

 

“Sai o “eu não sabia”. Entra o “eu não quero saber”.

 

Em suma, ele contou que André pediu cinco minutos de sessão secreta para fazer algumas “graves revelações” e os doze membros da bancada do governo na CPI disseram não.

 

Na síntese do próprio Noblat: “Por gasto, o “eu não sabia” perdeu a graça, admito. Eles inventaram o “eu não quero saber”.

 

De volta ao aforismo de Nietzsche, traduzido por Paulo César de Souza, proponho que se leia o que ele escreve em conclusão trocando a criança por um militante do PT, por exemplo:

 

“Mas se uma criança foi educada em circunstâncias domésticas complicadas, então manipula a mentira naturalmente, e involuntariamente sempre diz o que corresponde a seu interesse; um sentido para a verdade, uma aversão à mentira lhe é estranha e inacessível, e ela mente com toda a inocência”.

  

P. S. Aquele que mente com freqüência e de modo eficiente se expõe ao risco de esquecer que não há mérito em parecer inteligente por conta de ser indecente.