Textos categorizados 'Clarice Lispector'

A quem defende mudança na idade penal

Tirano engano este de achar que todo mundo é capaz de “entender tudo”, conforme diz Caetano Veloso; quase um crime quando envolve crianças e drama freqüente entre adolescentes do sexo feminino. Personagem de um conto de Clarice Lispector intitulado “Os Desastres de Sofia”, a certa altura uma delas desabafa: “Irritava-me que ele obrigasse uma porcaria de criança a compreender um homem”.O fato é que a capacidade de compreender da forma ampla e profunda que os adultos de maneira geral pretendem é simplesmente impossível na adolescência.

Em reportagem sobre alcoolismo entre adolescentes publicada na revista Veja 06/12/2006 o jornalista Ronaldo Soares informa que mapeamentos do cérebro mostram que as estruturas responsáveis pelo controle dos impulsos e que ajudam os indivíduos a definir o que é certo e o que é errado ainda não estão completamente formadas.

“Portanto, – escreve Soares – o adolescente, por natureza, não tem condições de avaliar as conseqüências de seus atos e vive se metendo em encrenca – daí a noção, muito comum, de que se trata de uma fase problemática”.

Estas observações foram corroboradas em 2007 por pesquisa conduzida pelo espanhol Ignacio Morgado, professor de Psicobiologia da Universidade Autônoma de Barcelona, envolvendo mais de duas mil pessoas entre 3 e 25 anos, que contestou a tese de que o cérebro amadurece totalmente entre os 8 e os 12 anos, contestação tomada pelo pediatra norte-americano Jay Giedd, do Instituto Nacional de Saúde Mental de Bethesda, como explicação para o fato de que muitos adolescentes demoram a raciocinar e a se comportar como adultos.

A pesquisa demonstrou que no final da infância o cérebro experimenta um aumento “desmedido” de neurônios e de conexões nervosas, processo que desacelera durante a adolescência e pode se estender até os 20 anos, aproximadamente.

Confúcio tinha profunda consciência da limitação da capacidade de compreender mesmo entre adultos. Assim, defendia o ponto de vista de que “pode-se obrigar o povo a seguir os princípios da justiça e da razão, mas não se pode obrigá-lo a compreendê-los”.

A hipótese de que a capacidade de compreender é comum a todos também é contestada por Machado de Assis através de um personagem literário, no filosófico Brás Cubas: “Grande coisa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria, o dom de achar as relações das coisas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distinção psíquica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulcro”.