Textos categorizados 'mistério'

Este é aquele mistério ou enigma grande do amor

Conforme prometido, chego ao último dos chamados Sermões do Mandato, cuja síntese eu elaborei a pretexto de mostrar a um ex-colega de trabalho a imensa afinidade entre a arte retórica de João Crisóstomo e António Vieira. Para que se compreenda o conteúdo do P. S. que se segue à publicação da síntese deste 6° Sermão é indispensável a leitura da introdução à síntese do 1° que se encontra na primeira página deste Trevo do Talvez.

 

Sermão do mandato 6 – Pregado em Roma, na igreja de Santo Antônio dos Portugueses,

no ano de 1670.

 

Scien Jesus venit ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem cum dilexisseet suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.

 

“Este é aquele texto saudoso e suavíssimo: este é aquele mistério ou enigma grande do amor, tantas vezes repetido nesta hora, tantas vezes e tão sutilmente interpretado, mas nunca assaz entendido.

Diz o evangelista S. João que se parte Cristo, e que nos ama. Que se parte: Ut transeat ex hoc mundo: que nos ama: In finem dilexit eos.

Mas se nos ama, como se parte? Se nos ama, como se ausenta de nós?

Mais diz o Evangelista. Não só diz que nos ama Cristo, e que se parte; não só diz que nos ama, e que se ausenta de nós, senão que nesta mesma hora em que se partiu, nesta mesma hora em que se ausentou, havendo-nos amado sempre tanto, então, ou agora nos amou mais: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo, cum dilexisset suos, infinem dilexit eos.

Se dissera isto outro Evangelista, não me admirara tanto. Mas João, a água do entendimento, e a fênix do amor? João, o secretário do peito de Cristo? João, aquele discípulo que entre todos soube melhor amar, e mereceu ser mais amado; que me diga se parte Cristo, que se ausenta, que nos deixa, que se vai de nós, e que nos ama? Que nos ama, e que agora nos amou mais? Não o entendo.

Se me dissera S. João que se ausentava Cristo, porque estava arrependido de nos amar: que se ausentava porque aqueles primeiros extremos do seu amor, o tempo, que acaba tudo, os acabara: se me dissera que obrigado de nossas más correspondências, que ofendido de nossos desprimores, que cansado de nossas ingratidões, que desenganado de nossa pouca fé, já nos aborrecia, ou já nos desamava, e que por isso deixa o mundo, e se ausenta dos homens: se isto me dissera S. João, sentira-o eu muito; mas conhecera a razão e a conseqüência.

Confessaria, e confessaríamos todos, que obrava Cristo como quem é, e que nos tratava como quem somos. Amou-nos sem o merecermos; ausenta-se, porque lhe merecemos. O amor o trouxe, o desamor o leva; por isso se vai, e nos deixa.

Mas que diga o Evangelista, constantemente, que não é desamor, senão amor, e que quando Cristo se ausenta de nós, então obrou a maior fineza, então subiu ao maior extremo, então chegou ao último fim, aonde podia chegar amando: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos?

O verdadeiro entendimento desta amorosa implicação, será a matéria do nosso discurso; e a mesma razão de duvidar nos dará a solução da dúvida. Veremos com assombro de todas as leis do amor, como o maior extremo do amor de Cristo para conosco foi o ausentar-se de nós.

É o que dizem as palavras do texto: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo: eis aí o ausentar-se de nós: Cum dilexisset, in finem dilexit eos, eis aí o maior extremo de seu amor. Parece paradoxo, mas é extremo.

Amou Cristo tanto aos homens, que os deixou, e se foi: parece paradoxo. Amou Cristo tanto aos homens, que chegou por eles a apartar-se deles: este é o extremo; e é isto o que diz o Evangelista.

Nos homens a hora da partida é o fim do amor: em Cristo o fim do amor foi a hora da partida: Sciens quia venit hora ejus, in finem dilexit eos.

Dizer menos, é descer; subir mais, não há para onde.

E como este foi o ponto mais alto onde pôde chegar o amor de Cristo, este será também o ponto único em que começará e acabará o nosso discurso.

Peçamos ao mesmo Amor, pelos merecimentos daquele coração que só o soube corresponder dignamente, nos assista nesta hora sua com a sua graça: Ave Maria.

 

Ut transeat ex hoc mundo, in finem dilexit eos.

Amou Cristo tanto os homens, que chegou por eles, a afastar-se deles.

Este é o meu assunto: e este digo que foi o maior extremo do amor de Cristo”.

 

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca: para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára.

Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho.

Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar?

Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar, mas se é excessiva, faz emudecer: a luz faz ver; mas se é excessiva, cega: a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata.

Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide: Fortis est ut mors dilectio: o amor, diz Salomão, é como a morte.

Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte?

O mesmo Salomão se explicou.

Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte: Fortis est ut mors dilectio: e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários.

É união e produz apartamentos.

 

O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos.

 

O amor, enquanto unitivo, é como a vida; enquanto forte, é como a morte. Enquanto unitivo, por mais distantes que sejam os extremos, ajunta-os: enquanto forte, por mais unidos que estejam, aparta-os.

Antes da Encarnação do Verbo, quais eram os extremos mais distantes? Deus, e o homem. E que fez o amor unitivo? Trouxe a Deus do Céu à Terra, e uniu Deus com os homens.

Depois da Encarnação, quais eram os extremos mais unidos? Cristo, e os homens. E o que fez o amor forte? Leva hoje a Cristo da Terra ao Céu: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem: e apartou a Cristo dos homens: Exivi a Patre, et veni in mundum: eis aí o amor unitivo: Iterum relinquo mundum, et vado ad Patrem: eis aí o amor forte.

É o que diz o Evangelista: Cum dilexisset, dilexit.Houve diferença nos tempos, mas não houve mudança no amor. Cristo unido com os homens, amor: Cum dilexisset: Cristo apartados dos homens, também amor, e maior amor: In finem dilexit eos.

Já temos mostrado ao amor, que pode ser amor, e grande amor o afastar-se. Agora abra mais os olhos o mesmo amor, e veja que não só é amor, e grande amor, senão o maior de todos: In finem.

 

Qual é a razão por que apartar-se Cristo de nós , e apartar-se quem ama de quem ama, é o maior extremo a que pode chegar o amor?

A razão é esta. Porque o amor do que se ama, prova-se pelo amor do que se deixa: e não pode deixar mais o amor, que chegar a deixar pelo amado ao mesmo amado.

A pedra-de-toque do amor é um amor com outro.

Quis Deus provar o amor de Abraão, tocou-o com o amor de Isaac, a quem amava como filho. Quis David provar o amor de Jônatas, tocou-o com o amor de Saul, a quem amava como pai.

Da mesma maneira quem quiser apurar os quilates do amor, toque o amor do que se ama com o amor do que se deixa, e logo conhecerá quão fino é.

Desde o primeiro amor que houve no mundo ficou estabelecida esta regra.

 

Quem deixa tudo pelo amado, deixa tudo: mas quem deixa pelo amado ao mesmo amado, ainda deixa mais; porque chega a deixar aquele, por quem tem deixado tudo.

 

Haverá ainda quem se oponha a este extremo de fineza? Haverá ainda quem se oponha a este extremo de amor? Ainda. Ainda se opõe e resiste o mesmo amor, defendendo-se com o escudo do Sacramento e com a espada da morte. Fortes armas! Mas também os há de render ainda o amor, ainda que tão fortes e tão finas.

Alega por parte do Sacramento o amor, e defende constantemente que foi maior fineza em Cristo deixar-se que o deixar-nos; o ficar conosco, que o apartar-se de nós.

 

Para Cristo se apartar de nós, e juntamente se deixar conosco, dividiu-se Cristo de si mesmo. Grande fineza! Grande maravilha!

Mas nesta prodigiosa divisão, o amor que fez a maravilha e a fineza, não foi o amor que deixou a Cristo no mundo, senão o amor que o levou do mundo: Ut transeat ex hoc mundo.

 

Temos rendido o braço do escudo: só nos resta o da espada, que é a morte. Muito confia nesta espada o amor; porque traz escrito e gravado nela: Majorem charitatem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis.

 

E para que julgue a mesma vista dos olhos (de que carece a morte e o amor) quanto maior fineza foi no amor de Cristo o apartar-se de nós, que o morrer por nós, ponhamos o Horto defronte do Calvário, e ajuntemos o teatro da despedida com o teatro da morte.

O teatro da última despedida, ou apartamento de Cristo, foi o Vale de Getsêmani coberto das sombras da noite, onde tudo aspirava amor, tudo silêncio, tudo tristeza, tudo saudade. Aqui se apartou o amoroso Senhor de seus Discípulos, não de todos juntamente, senão de uns primeiro, e depois dos outros.

Como o golpe lhe chegava tanto à alma, não se atreveu a levá-lo todo de uma vez, foi-o dividindo por partes.

Assim se apartou o Senhor; mas não digo bem: Avulsos est ab eis, diz S. Lucas: não se apartou, arrancou-se. Tão violentamente se apartava Cristo dos homens, que o apartar-se deles era arrancar-se.

 

Saia agora a morte com algum semelhante esclarecimento, se o tem, do muito que fizesse Cristo em a padecer; e diga o que dizem dela os Evangelistas.

Porventura chegou a dizer algum Evangelista, que quando Cristo morreu, se lhe arrancou a alma? Não por certo.

O Evangelista que mais disse, foi S. Mateus. E que disse?

Emisit spiritum.  Despiu a alma.

De sorte, que quando Cristo morre, despede a alma, e quando Cristo se despede, arranca-se dos homens. Tão fácil lhe foi morrer, tão difícil o apartar-se.

 

Confesse logo a morte com o testamento de seus próprios despojos, que muito mais sentiu Cristo o apartar-se de nós, que o morrer por nós; e que se o morrer nos homens é a maior prova do amor, em Cristo o ausentar-se foi a maior fineza.

E para que nem a morte, nem outrem por ela, tenha que replicar contra esta amorosa verdade, concluamos com uma justificação autêntica do secretário do mesmo amor, que dentro e fora do coração de Cristo foi presente a tudo: e acabemos por onde começamos: Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo: Sabendo o Senhor Jesus que era chegada a hora de partir deste mundo.

Esta hora de que fala o Evangelista, era a hora da morte.

Assim o declarou o mesmo S. João no capítulo sétimo, falando desta mesma hora: Nemo misit in illum manum, quia nondum venerat hora ejus.

E no capítulo oitavo tornou a declarar o mesmo: Et nemo apprehendit eum, quia nondum venerat hora ejus.

Pois se esta hora era a hora de morrer o Senhor e dar a vida pelos homens: por que não diz: sabendo que era chegada a hora de morrer: senão: sabendo que era a hora de ausentar?

Se o intento do Evangelista era encarecer o amor do fim: In finem dilexit eos:  declare o fim do amor pelo fim da vida, e diga que amou Cristo tanto os homens, que chegou a morrer por eles.

Mas para prova e encarecimento do amor, calar o nome da morte, e ostentar o da ausência e da partida?

Sim, porque como S. João tinha as chaves do coração de Cristo, sabia o lugar que tinha nele estes dois afetos, e o preço com que lá se avaliava um e outro extremo.

O preço da morte era muito alto, porque pesava tanto como a vida; mas o da ausência era muito mais subido, porque pesava tanto como aquele por quem se dava a vida.

Por isso diz, que quando chegou a hora de partir, então amou: e não quando chegou a hora de morrer; porque era muito mais dura para o coração de Cristo a mesma hora, enquanto a hora da ausência, que enquanto hora da morte.

A hora da morte era um fim que acabava a vida; a hora da ausência era o fim que consumava o amor: Ut transeat ex hoc mundo: In finem dilexit eos.

Concluindo temos logo (não a pesar, senão muito a prazer de Cristo morto, de Cristo Sacramentado, e de Cristo amante) que o chegar a apartar-se dos homens por amor dos homens, foi o último e mais subido extremos com que os amou: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos.

F I M

 

P. S. Para que não se me acusem, Carlos Olympio, de privá-lo do confronto por comodismo, reproduzo abaixo as principais citações que recolhi na biografia de João Crisóstomo por Felix Arrarás e que fazem parte do meu Diário.

 

“Há coisa mais triste do que um mestre que tenha que dizer aos seus discípulos, como único meio de salva-los, que não reparem na vida de quem lhes fala?”

 

“Se pecardes uma segunda vez, arrependei-vos uma segunda vez; quantas vezes pecardes, outras tantas vezes arrependei-vos, e vinde procurar-me, que eu vos curarei da vossa enfermidade”.

 

“Basta já, caríssimos, de nos enganarmos a nós mesmos, dizendo que é impossível chegar a ser o que São Paulo foi. No que tange à graça de fazer milagres, decerto não haverá outro Paulo, mas quanto à perfeição da vida, pode sê-lo quem quiser. E se não o somos isto se deve exclusivamente a que não queremos”.

 

Trecho do meu Diário à época da leitura / 14-01-99: João Crisóstomo também se deu conta de que a beleza pode prejudicar a eficiência da palavra; problema de que me dei conta lendo Platão.

 

Escreve Francisco Fauss: “Às vezes sofria ao perceber que os seus ouvintes ficavam na superfície da sua pregação, empolgados pela beleza e calor da palavra, mas sem penetrar-lhe a substância”.

“De que servem – queixava-se – os meus trabalhos, se os meus ouvintes não querem aproveitar-se das minhas palavras? Muitas vezes ocorreu-me a idéia de baixar uma lei que proibisse os aplausos e mandasse escutar em silêncio. Eu vos peço, concordai comigo e estabeleçamos agora mesmo esta lei: que a ninguém seja lícito aplaudir enquanto eu estiver falando (…), que todo empenho e fervor estejam colocados em receber o que se diz”.

Neste momento, – comenta Faus – irrompem de novo os aplausos dos fieis e João, desolado, desabafa:

“Por que aplaudis? Estou dando uma lei sobre isto e nem sequer consentir em escuta-la? Esta lei seria fonte de inúmeros bens e uma escola de virtude”.

 

Sim; claro que o aplauso ocorre involuntariamente até, como conseqüência da beleza, conforme Crisóstomo deve ter compreendido.

Daí poderia tecer considerações sobre a maior eficiência do escrito em forma de máxima, epigrama, facilmente memoriável.

É meu propósito no Suporte do Forte; nada me interessa mais que a eficiência do que escrevo.

 

5-2-04 Um estudo comparativo de João Crisóstomo com Antonio Vieira dará, certamente, uma bela e esclarecedora tese de doutorado.Não que julgue demérito deste ter se inspirado naquele.

 

“Cristo deu-te o poder de ser como Ele segundo as tuas forças. Não te assustes ao ouvires isto. O que deve espantar-te é não seres como Ele”.

 

“Abrir os olhos é coisa de Deus, escutar atentamente é coisa nossa; a fé é simultaneamente obra divina e obra humana”.

 

“Mais do que o próprio pecado, o que irrita Deus é que os pecadores não sintam dor alguma dos seus pecados”.

 

“Quando falta a nossa cooperação, cessa também a ajuda divina”.

 

“Mesmo que jejues, mesmo que durmas no chão, mesmo que, por assim dizer, te mates, ainda distas muito da imagem de Jesus de Nazaré”.