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Uma carta de Rainer Maria Rilke para todas as pessoas enamoradas

Escrevo que a natureza cuida apenas do encontro de alguns amantes; cabe ao intelecto cuidar do amor. Tanto quanto acontece no caso da incompetência, plantado sobre a ignorância até o mais profundo dos amores fenece; antes de florescer.

Sei que aos mais românticos estes pontos de vista devem incomodar um pouco. Sei também que não é fácil contestá-los.

A propósito, acabo de ler uma coletânea de trechos de cartas do poeta Rainer Maria Rilke organizada por Ulrich Baer, traduzida por Milton Camargo Mota e publicada pela Martins Fontes com o seguinte título: Cartas do Poeta sobre a Vida – A sabedoria de Rilke.

A exemplo do que ocorre com milhões de pessoas pelo planeta afora, tenho pelo autor das Elegias de Duíno,  do romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge e dos Sonetos a Orfeu profunda admiração.

Admiração que fatalmente se estenderá a muitos dos visitantes deste Trevo do Talvez que lerem até o final a carta ou trecho de carta que se segue, datada de 29 de abril de 1904 e endereçada a Friedrich Westhoff, pessoa cuja relação com o poeta não é informada no livro e não me foi possível saber de outra fonte.

 

“É improvável que haja algo mais difícil do que amar alguém – essa tem sido minha experiência recorrente. É trabalho, labuta diária, lida diária, sabe lá Deus, não há outra palavra para isso. E a isso se acrescente que os jovens não estão sendo preparados para esse tão difícil amar. As convenções tentaram transformar essa relação mais complicada e extrema em algo fácil e frívolo e criaram a ilusão de que todos seriam capazes dela. Mas não é bem assim. O amor é difícil, e é mais difícil do que outras coisas porque, em outros conflitos, a própria natureza nos exorta a nos concentrar e nos contrair com todas as forças, enquanto há na intensificação do amor o estímulo para que nos entreguemos completamente. Mas realmente pode haver beleza nisto: entregar-se ao outro não como uma totalidade ordenada, mas casualmente, peça por peça, como por acaso se dá? Esse doar-se, que tanto se parece com um jogar fora e um dilacerar, pode ser algo bom, pode ser felicidade, alegria, progresso? Não, não pode… Quanto manda flores para alguém, primeiro você as arranja, não é verdade? Mas os jovens amantes lançam-se uns aos outros na impaciência e na pressa de sua paixão e absolutamente não notam a falta de consideração mútua presente nessa entrega desordenada. Só o notam, com espanto e mau humor, perante a desavença que toda essa desordem provoca entre eles. E, tão logo se instala a desunião, as coisas se tornam cada dia mais confusas; nenhum deles tem mais em torno de si algo inteiro, puro e incorrupto. E, no meio do desconsolo do dilaceramento, eles procuram manter a ilusão de sua felicidade (pois supõe-se que tudo isso seja em nome da felicidade). Ah, eles mal conseguem se lembrar do que julgavam ser felicidade. Em sua insegurança, cada um se torna mais injusto com o outro; aqules que queriam agrada um ao outro agora se tocam de maneira prepotente e inquieta. E, no esforço de escapar do estado insustentável e insuportável de sua confusão, eles cometem o pior erro que pode ocorrer ás relações humanas: tornam-se impacientes. Eles se empurram para chegar a um término, a uma decisão (como crêem) definitiva; tentam determinar de uma vez por todas sua relação, cujas mudanças surpreendentes os espantaram, de modo que daí em diante ela possa permanecer “para sempre” a mesma (como eles dizem). Esse é apenas o último erro nessa longa cadeia de equívocos entrelaçados. Nem mesmo o que está morto se deixa determinar definitivamente (pois ele se desintegra e se modifica em sua natureza); menos ainda algo vivente e vivo pode ser tratado peremptoriamente de uma vez por todas! Viver é, precisamente, transformar-se, e as relações humanas, que são um extrato da vida, constituem o que há de mais mutável; elas sobem e caem de minuto a minuto, e os amantes são pessoas para as quais nenhum momento se iguala ao outro em sua relação e seus toques, e entre os quais não ocorre nada de habitual nem nada que já existiu uma vez, mas apenas coisas novas, inesperadas, inauditas. Tais relações existem, e devem ser uma felicidade enorme, quase insuportável, mas elas só podem ocorrer entre seres abençoados com a fartura e entre pessoas que são, cada uma por si, ricas, ordenadas e concentradas; apenas dois mundos vastos, profundos e próprios podem uni-las. Os jovens – isto é evidente – não podem alcançar tal relação. Mas, se compreenderem a vida corretamente, podem aos poucos crescer em tal felicidade e preparar-se para ela. Quando amam, não devem esquecer que são iniciantes, desajeitados da vida, aprendizes do amor – eles devem aprender a amar, e isso requer (como para qualquer aprendizado) calma, paciência e concentração!”

 

Escrevo também que a doença que mais mata amor é descuido; mata até mais do que incapacidade intelectual de cuidar.