Textos categorizados 'outono'

Sobre a chegada do Outono no Brasil e sobre o clima de Curitiba.

 Nasci no Outono; é minha estação preferida.

Durante os anos que vivi no Paraná, especialmente em Curitiba, me dediquei a observar atentamente a passagem das estações, tendo notado diversos e claros sinais distintivos entre todas elas, além daqueles mais contundentes que caracterizam Inverno e Verão, da forma que ocorre na região Nordeste, onde nasci.

Na manhã deste domingo – 16-03-2008 – em meio a uma breve chuva fina, aqui em Salvador, recordei de um haicai que escrevi há alguns anos na capital paranaense, mais ou menos nesse período do mês:

Fria, a brisa avisa:

em breve o Outono.

E o Manacá faz flor. 

Fiz isto no balcão da Shaffer, enquanto aguardava que me fosse servido um pote de coalhada, da forma que acabara de ser feito dois metros adiante de mim com o discreto Dalton Trevisan, o escritor, então freqüentador habitual da tradicional lancheria da Rua XV, no centro da cidade.

Foi em Curitiba, também às vésperas do Outono, que vi pela primeira vez um verdadeiro vendavel, que descrevi assim:

Veja as árvores vibrando,

as nuvens viajantes vexadas,

as aves voando velozes.

Veja o vexame em volta:

é o vento virando movimento,

é um vendaval que vem vindo.

Ouve?

Parece vivo,

uiva avisando.

Vê?

Passa veloz,

apavorando.

Vergando árvores vigorosas,

faz voar tudo que é leve,

leva voraz tudo que é livre.

Ventando à voltas,

vai e volta várias vezes,

virando a vida ao avesso.

E ventava tanto que se via

o próprio vento invisível.

Dando seqüência às minhas observações, mais tarde escrevi este outro haicai, do qual também lembrei no último domingo:

O Outono dá sinal.

Chove leve, garoa,

cai neve tropical.

O clima faz de Curitiba um cinema; com cinqüenta filmes em cartaz. Grande parte do fascínio que a cidade exerce sobre nós é decorrência do clima. A multiplicidade e a imprevisibilidade do estado atmosférico é o que mais a caracteriza. Sendo assim, ao invés de Cidade sorriso, idéia de outro sergipano, o poeta Hermes Fontes, a capital do Paraná poderia ser oficialmente denominada Cidade clima.

É preciso, entretanto, pedir autorização aos moradores de Palmeiras, que não haverão de negar, uma vez que este é o slogan oficial desta cidade localizada no alto da Serra-do-Mar, também no Paraná.

Para um centro urbano que, graças à invejável proporção de 50 metros quadrados de área verde por habitante, é designada como Capital Ecológica do Brasil nada mais apropriado do que um slogan que remete a meio-ambiente. Sem contar que neste contexto a palavra clima é sinônimo de ânimo, alegria, descontração.

Considerando, conforme Goethe, que todo bem-estar na vida repousa sobre um retorno periódico aos objetos exteriores, (a sucessão do dia e da noite, das estações, das flores, dos frutos, etc.) o clima de Curitiba é, para quem aprende a apreciar a natureza, uma dádiva.

O poeta alemão chega a dizer que “quanto mais acessíveis formos a esses prazeres, mais felizes seremos”.

E como se não bastasse ser admirável, o clima de Curitiba é saudável: de acordo com o que escreve Ermelino de Leão no seu Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná, o clima de Curitiba é um dos mais salubres do Brasil.

O Outono se instala

e mergulha tudo em quietude.

Faz frio.