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Da preferência pessoal como critério de valor artístico e a Salada do pedante

Importante mesmo é aquilo que você desconhece; relevante é ter lido o livro que você ainda não leu.

Ironia à parte, quem quer que ouse ampliar sua cultura geral depara-se em algum momento com esse tipo de sofrimento imposto pela vaidade dos literatos, daqueles que, às vezes invejosos, quase sempre incapazes de criar uma obra admirável, apresentam aquelas de sua preferência pessoal como imprescindíveis à formação de qualquer um; e seus autores como sendo aqueles que não podemos, sob nenhuma hipótese, desconhecer.

“Sade é o maior escritor francês” – garantiu um certo Jean Jaques Pauvert no meio de um artigo de Otávio Paz publicado em junho de 1991 no suplemento Cultura do jornal O Estado de São Paulo, por uma terceira razão: interesse comercial.

Trata-se, pura e simplesmente, do editor da obra do conterrâneo de Gustave Flaubert e Marcel Proust.

Um exemplo do caso que, para mim, tem a vaidade e a inveja como causa se encontra na edição do suplemento Mais! do jornal Folha de São Paulo de 25/03/1993.

O leitor que nunca ouviu falar do “mais anti-operístico e mais anti-italiano dos compositores italianos” encontra dez razões para se sentir humilhado.

Giacinto Scelsi é apresentado por Augusto de Campos como “um mestre radical do microtonalismo, criador de obras inquietantes, a partir de um único som, de cujas ressonâncias e variações resultaria uma música meditativa, de grande impacto, perturbada por inflexões lancinantes a imprimir-lhe alta tensão dramática: como se fosse feita dos gemidos do Tempo e da Memória”.

Muito bem, muito bonito, muito poético, mas a verdade é que pode ser resultado de uma coisa mais simples: de ter ouvido Beethoven.

Conforme observara no mesmo Mais!, duas semanas antes, o professor Arthur Nestrovski, numa passagem de dois compassados do adágio da Sonata op. 110, “a música se suspende e uma nota é repetida nada menos que 29 vezes”.

Não há por que se surpreender, portanto, com o fato de na sua última criação, o Quarteto n° 5, Scelsi repetir 43 vezes a nota.

E o professor Nestrovski informa que passagens similares ocorrem, entre outras peças do compositor alemão, no terceiro movimento da Sonata op. 106 e no primeiro da Sétima Sinfonia.

“Ouvida fora do contexto – comenta – essa passagem nem música é: é o mero material da música, a música reduzida a som e o som, a seguir, elevado mais uma vez às riquezas de significado. É uma das formas que a música de Beethoven encontra para questionar sua própria natureza”.

Na pior das hipóteses, o mesmo ponto atingido pelo admirável Giacinto, de acordo com o depoimento do crítico Jean-Noel von der Weid sobre seus Canti Sacri: “Onda petrificada, perpassada por ecos pungentes, que nos levam à essência mesma da música, para além da percepção auditiva”.

A SALADA DO PEDANTEsalada-1a.jpg

Boa noite!

Boa noite; uma mesa com vista para o mar.

Por aqui, Senhor.

Recomendaram-me o salmão de vocês.

Não tenha dúvida de que vai apreciar.

Inclua no couvert uma salada de um oleráceo da família das cucurbitáceas.

E para beber?

O melhor vinho branco que vocês tiverem.

Pois não!

Na cozinha

Que pedido é esse aqui, Zé Fernando?

Qual?

Essa salada aqui.

É isso mesmo.

Olé… o que? Cucu… Que porra é isso?

Eu também não sei, não.

E por que não perguntou?

Não deu; o cara é sofisticado demais.

Então não tem.

Como não tem, se você nem sabe o que é?

O maître, interferindo:

O que é?

Essa salada aqui – responde o cozinheiro.

Oleráceo… cucurbitácea? Esse cliente tá de gozação.

Tá não!

Como é que você sabe, Zé?

Pela cara dele.

Leve uma salada de pepino para esse filho da puta; se reclamar, pergunte o que ele realmente quer.

O garçom de volta:

Pois não era mesmo a porra do pepino que ele queria!