Desastrosa esta versão marqueteira oficial do que seja cultura que vem sendo maciça e sistematicamente divulgada pelo Brasil afora e que na Bahia tem o seguinte slogan: Cultura é o que?
Faz par com a política extra-oficial de fabricação de uma nova espécie de racismo cujas conseqüências poderão superar a soma do que existe atualmente entre nós brasileiros com o pior do que se produziu nos Estados Unidos, que é onde seus teóricos mais buscam inspiração.
Para efeito de raciocínio, coloquemos a seguinte questão: Culto é quem?
Entender, eu escrevo, é estar certo de ter dado ou tomado conhecimento; compreender é desfrutar do entendimento.
“Entende-se por cultura a capacidade que o indivíduo possui de usar a complexidade de sua personalidade para reproduzir a sociedade nele mesmo e, com isso, desenvolver a partir de si o vínculo moral que a sustenta”.
Por culto eu entendo o indivíduo capaz de compreender esta definição de cultura formulada pelo professor Dietrich Schwanitz, que se encontra à página 314 do seu livro intitulado Bildung, palavra que foi traduzida por Cultura geral. Editado pela Martins Fontes em 2007, o livro do Sr Schwanitz, com 516 páginas, tem este subtítulo: Tudo o que se deve saber. (Ver Nota no final deste texto)
Alienante, mas com imenso potencial eleitoreiro, os vendedores da idéia de que tudo é cultura se prevalecem do fato de que o conceito de cultura é tão diversificado quanto o de felicidade, por exemplo, para excluir justamente aqueles que tomam por referência cada indivíduo e que mais requerem empenho, dedicação, esforço, ou seja, os relacionados com acúmulo de conhecimentos através da leitura, que são justamente os mais consistentes.
Maximizam a importância da experiência e com fazê-lo desestimulam o estudo, a leitura de livros como Grande Sertão: Veredas, por exemplo, no qual Guimarães Rosa, na pele do jagunço Riobaldo, ensina: “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”.
Beneficiado pela equação retórica segundo a qual propriamente não é, porém rigorosamente não deixa de ser, há quem proclame ter contribuído de modo significativo para a cultura do povo da sua cidade com o ato de decretar que determinado logradouro público antes designado por um número de ordem, como 5ª avenida, por exemplo, passe a ter o nome de um antigo botequim que ele, prefeito, na juventude freqüentou.
Nota: “A palavra alemã Bildung significa, genericamente, “cultura” e pode ser considerado o duplo germânico da palavra Kultur, de origem latina. Porém, Bildung remete a vários outros registros, em virtude, antes de tudo, de seu riquíssimo campo semântico: Bild, imagem, Einbildungskraft, imaginação, Ausbildung, desenvolvimento, Bildsamkeit, flexibilidade ou plasticidade, Vorbild, modelo, Nachbild, cópia, e Urbild, arquétipo.Utilizamos Bildung para falar no grau de “formação” de um indivíduo, um povo, uma língua, uma arte: e é a partir do horizonte da arte que se determina, no mais das vezes, Bildung. Sobretudo, a palavra alemã tem uma forte conotação pedagógica e designa a formação como processo. Por exemplo, os anos de juventude de Wilhelm Meister, no romance de Goethe, são seus Lehrjahre, seus anos de aprendizado, onde ele aprende somente uma coisa, sem dúvida decisiva: aprende a formar-se (sich bilden).” Por Rosana Suarez, em “Nota sobre o conceito de Bildung (Formação cultural)”rosanasrz@bol.com.br