Datada de 19-4-1990, a primeira de não sei quantas anotações relacionadas com Piet Mondrian no meu Diário é esta:
Na Biblioteca, aprendo a ver com Piet Mondrian. Ele fala do limite da expressão plástica; minha meta é o limite da expressão poética e filosófica. Falar do mais profundo e belo com as palavras e raciocínios mais simples, mais claros; falar como quem pinta com linhas retas e cores primárias.
Motivado por inúmeros acessos a este Trevo do Talvez a partir de buscas relacionadas com ele e sua obra, decidi produzir um post com a transcrição literal das anotações diretamente relacionadas a ele e que vão até 19-7-1990, quando conclui a leitura de uma biografia dele por Frank Elgar.
Eis:
20-4 Começa a tarde; volto a Mondrian.
“Para criar plasticamente a realidade pura, é necessário reduzir as formas naturais aos elementos constantes da forma e a cor natural à cor primária”.
“Toda arte se converte em decoração quando falta profundidade de expressão”.
23-4 Na Biblioteca, ainda Mondrian: “Uma maior consciência da expressão das formas naturais produz meios mais puros de expressão”.
24-4 Continuo aprendendo a ver com Mondrian: “O principal problema das artes plásticas não é evitar a representação dos objetos, mas ser tão objetivo quanto possível”.
“Se a visão objetiva fosse possível, nos daria uma verdadeira imagem da realidade”.
“A arte requer o despojamento da forma limitadora porque esta última impede a expressão do ritmo liberado. Longe de ignorar nossa natureza individual, longe de perder “la nota humana” na obra de arte, a arte plástica pura é a união do individual com o universal. O ritmo liberado está composto destes dois aspectos da vida em equivalência”.
“Na composição plástica pura, a relação constante expressa imutabilidade”.
“A forma limitadora sempre nos diz algo: é descritiva”.
E Mondrian aponta a causa do predomínio da “forma limitadora”: “O amor inconsciente pelos sentimentos trágicos”.
25-4 Na Biblioteca, volto a Mondrian: “Somente por meio do conhecimento técnico se pode obter uma verdadeira compreensão das artes plásticas”.
“O aspecto técnico consiste no uso dos meios de expressão, volumes, planos, linhas, cores, e no desenvolvimento destes meios de expressão até seu estado puro”.
“Para gozar da expressão plástica pura de uma obra de arte deve-se ordenar os fatores psicológicos que esta nos desperta”.
“Toda arte moderna se distingue por uma liberdade maior, ainda que relativa, da opressão do tema”.
Na noite que passou tive um sonho fantástico do qual fazia parte um episódio relativo à expressão da realidade em palavras que, no conjunto, conforme foi possível guardar enquanto lembrança mais ou menos vaga do sonho, resultavam num intrigante sem sentido. Era o sentido passível de ser expresso em palavras.
“A arte é a afirmação estética da vida completa – unidade e equilíbrio – livre de toda opressão. Por esta razão pode revelar o mal da opressão e ensinar a maneira de combatê-la”.
“É importante compreender que as novas construções não devem ser criadas sob influência do passado: não devem ser repetições do que já foi expresso”.
“A arte moderna rechaça os métodos de expressão usados no passado, mas desenvolve seu verdadeiro conteúdo. Continua aquilo que a arte do passado começou: a transformação da visão natural. Aquilo que a arte do passado levou a cabo de uma maneira mais ou menos invisível devido à opressão da época, a arte moderna realiza de forma mais visível”.
“La belleza viviente de la naturaleza no puede copiarse; sólo puede expresarse”.
Tudo isso de Piet Mondrian foi recolhido em Arte Plástico y Arte Plástico Puro.
13/08/2008 Assumo, portanto, a responsabilidade pela tradução.
26-4 Na Biblioteca, retomo a leitura de Mondrian: “O único problema da arte é alcançar um equilíbrio entre o subjetivo e objetivo”.
“A arte tem demonstrado que a expressão universal só pode ser criada por uma verdadeira equação do universal e do individual”.
“Pode-se falar com acerto de uma evolução nas artes plásticas. Este fato merece ser assinalado, pois revela o verdadeiro caminho da arte; o único Sendero pelo qual podemos avançar”.
“O tempo é um processo de intensificação. Por meio da intensificação, se criam sucessivamente sobre planos mais profundos; a extensão permanece sempre no mesmo plano”.
“Nossa subjetividade entende, mas não cria a obra. Os precursores criam graças à sua reação ao estímulo externo. São guiados, não pela massa, mas pelo que eles sentem e vêem. Descobrem consciente ou inconscientemente, as leis fundamentais ocultas na realidade e aspiram a realizá-las. Deste modo, adiantam o desenvolvimento humano. Sabem que não é possível servir à humanidade fazendo com que a arte seja compreensível para todo mundo; isto seria tentar o impossível. Serve-se a humanidade esclarecendo seu caminho. Aqueles que não vêem se rebelarão, tratarão de compreender e terminarão por ver. Em arte, a busca de um conteúdo compreensível para todos é falsa; o conteúdo será sempre individual”.
Almejo descobrir formas de revelar em palavras belezas e sutilezas que acordem muitas pessoas. Mondrian adverte no seu estudo que também no campo da arte “é um erro ir muito ligeiro”, fazendo-me lembrar Shakespeare dizendo que “a paciência é tudo”.
“Desequilíbrio significa conflito, desordem”.
“A vida real é a mútua ação de duas oposições do mesmo valor, mas de diferentes aspectos e natureza. Sua expressão plástica é a beleza universal”.
“A arte e a vida se esclarecem mais e mais; revelam cada vez mais as leis segundo as quais se cria um equilíbrio real e vital”.
“A intuição esclarece o pensamento puro, unindo-se assim com ele. Conjuntamente forma uma inteligência que não é simplesmente do cérebro, que não calcula, mas que sente e pensa; que é criativa na arte e na vida. Desta inteligência deve surgir a arte não figurativa, na qual o instinto já não tem uma parte importante. Aqueles que não compreendem esta inteligência consideram a arte não figurativa simplesmente um produto intelectual”.
“A arte abstrata opõe-se a uma representação natural das coisas. Mas não se opõe à natureza. Opõe-se à animalidade primitiva do homem, mas identifica-se com as leis da cultura das relações puras”.
E segue Mondrian ensinando o fundamental em matéria de arte plástica.
“Primeiro e antes de mais nada está a lei fundamental do equilíbrio dinâmico, que se opõe ao equilíbrio estático que necessita a forma particular”.
“Para que uma expressão artística pura desperte emoção há que se abster da figuração e ser neutra”.
“Cada vez torna-se mais óbvio não só a inutilidade da figuração, mas também os obstáculos que ela cria. A arte não figurativa se desenvolve nesta busca de clareza”.
“Por purificada ou deformada que seja, a figuração empana a plástica pura. É óbvio que se evoca no espectador a sensação da luz do sol ou da lua, por exemplo, de alegria ou tristeza, ou qualquer ou sensação determinada, não se conseguiu estabelecer beleza universal, não se é puramente abstrato”.
“Quanto mais perto de ser arte mais difícil”.
27-4 Retomo a leitura de Mondrian: “A execução e a técnica jogam um papel muito importante na tentativa de estabelecer a visão mais ou menos objetiva que exige a essência da obra não-figurativa”.
“Quanto menos óbvio for o trabalho do artista, mais objetiva será a obra”.
“A execução da obra de arte deve contribuir para a revelação dos fatores subjetivos e objetivos em um equilíbrio mútuo. Guiando-se pela intuição é possível obter este resultado. A execução é sumamente importante na obra de arte; é através dela, em grande parte, que a intuição se manifesta e cria a essência da obra”.
“O que distingue o artista não-figurativo do figurativo é o fato de que em suas criações se libera de sentimentos individuais e particulares que recebe do exterior, e de que se dissocia do domínio da inclinação individual”.
16-7 Na Biblioteca, tarde, me interesso por uma biografia do Mondrian; começo a ler.
Paro um pouco; cansado da leitura e das reflexões que suscita.
17-7 Na Biblioteca, continuo a conhecer Mondrian; a tarde mal começa.
19-7 Estou na Biblioteca; influenciado pela leitura das memórias do Jung, decidi levar emprestado o Livro de Jô. Agora concluo a leitura da biografia do Mondrian por Frank Elgar: “Tudo indica que Mondrian não foi um artista pela Graça de Deus, mas que conquistou o seu gênio através da inamovível força de vontade, perseverança e trabalho árduo e que nada, nem o prazer, nem as mulheres, as honras ou o bem-estar, o afastou do seu desígnio – transcender o individual para atingir o universal e aproximar-se tanto quanto possível da perfeição, descobrindo por entre a exuberância da vida o caminho da projeção e afirmação da essência do Ser e, a partir de um estado de eterno movimento, extrair a verdade pura e original. Era esta a paixão de um homem isento de paixões. Era este o ideal de um pintor cuja extraordinária lucidez o iria isolar do comum dos homens”.
ATENÇÃO: Mais sobre Mondrian no post intitulado Teorias que ampliam e aprofundam a capacidade de ver: Mondrian, Kandinsky e Klee.