Textos categorizados 'Utagawa Hiroshige'

… essencialmente, felicidade é quantidade de sofrimento compreendido.

Sobre uma história zen

Utagawa Hiroshige (1797-1858)

Utagawa Hiroshige (1797-1858)

 

Depois de procurar algumas vezes, localizei no início dos anos 90 uma história zen que me marcou profundamente e que foi importante, diria mesmo fundamental, para a atitude que assumi quando, em Curitiba, no dia 20 de maio de 1989, mergulhei no Nada.

 

Isto é, passei pela “experiência numinosa” referida pelo psicanalista Carl Gustav Jung, popularmente conhecida entre nós como “estalo” de Vieira, e que entre os budistas é denominada iluminação.

 

Vieira, para quem ainda não sabe, é o padre jesuíta António Vieira, nascido em Lisboa e falecido em Salvador, notabilizado por seus sermões.

 

A propósito, elaborei uma síntese dos seis conhecidos por Sermões do Mandato, que publiquei neste Trevo do Talvez a título de homenagem pelos 400 anos do nascimento dele, que se completaram em fevereiro deste ano.

 

Devo registrar que até hoje me surpreendo por ter ampliado a história zen em minha memória, conforme se verá ao compará-la com o resumo que se segue, baseado no meu Diário:

 

Certo dia, na China ou Japão, um monge budista solicitou ao seu superior uma audiência particular com o superior do Mosteiro, um iluminado bastante idoso, circunstâncias que requeriam motivos excepcionais para que fosse ela concedida.

 

Algum tempo depois, no início da manhã e sem aviso prévio, o monge foi conduzido à presença do Mestre, que de pronto lhe perguntou o que desejava.

 

- Estou aqui porque tenho pensado seriamente em desistir de buscar minha iluminação.

 

- Mas por que?

 

- Fazem uns dez anos que ingressei neste mosteiro, depois de renunciar a uma vida confortável; tenho observado rigorosamente todas as normas, seguido as orientações que recebo; faço minhas preces e medito diariamente, trabalho… Enfim, tenho feito tudo que me dizer ser necessário para alcançar a iluminação e até agora, nada. Estou cansado; desisto. Volto para minha vida de antes.

 

Sereno, como é próprio de um homem experiente, o Mestre simplesmente perguntou:

 

- Você já tomou seu mingau?

 

- Sim; tinha acabado de tomar no momento em que fui chamado para este encontro.

 

- Então vá lavar a tigela!

 

Até tomar conhecimento desta história eu ansiava por outro tipo de felicidade. Fora da Terra – talvez se pudesse dizer. A partir da sua leitura me dei conta de que procurava uma fantasia. E me conscientizei aos poucos de que fantasia não constitui felicidade. Depois da experiência que denominei mergulho no Nada tal entendimento se tornou convicção absoluta. A partir daí passei a lavar minha “tigela”. E me convenci com serenidade de que terei que fazer isto até a morte, como coisa natural.

 

Isto eu propriamente não sabia até a experiência psicológica em Curitiba, a despeito de ter lido e memorizado a história que acabo de resumir.

 

É esta coisa aparentemente tão simples que a maior parte não consegue compreender, ou se recusa a tentar compreender, preferindo alimentar a fantasia.

 

Ser algo banal é o que torna a descoberta tão difícil.

 

Concluindo, eis aqui a história, tal qual li pela primeira vez, e que faz parte de uma conferência do Dr Daisetz Teitaro Suzuki, pioneiro na divulgação do zen budismo no Ocidente, publicada em Zen Budismo e Psicanálise – Cultrix p. 40:

 

Um monge perguntou, certa vez, a Joshu Jushin (778-897):

“Que é o meu Eu?”

Disse Joshu:

“Você terminou seu mingau da manhã?”

- Sim, já terminei.

Voltou Joshu:

- Então lave sua tigela.

 

P. S. Para não me expor ao risco de transmitir a qualquer pessoa uma idéia vaga sobre meu entendimento atual a respeito de felicidade, entendi como indispensável transcrever um fragmento sobre este tema, componente de um livro que me ocupa há alguns anos e que se encontra em fase final de elaboração: Mil vezes mais do que prazer usufruído, essencialmente, felicidade é quantidade de sofrimento compreendido.