Textos categorizados 'Wittgenstein'

“Claro que pretendo ser perfeito”

Pedante é o sujeito que considera inculto aquele que não sabe o que ele aprendeu ontem. Sendo assim, é um pouco de pedantismo o que sinto quando ouço alguém dizer que não conhece, nunca ouviu falar em Ludwig Wittgenstein (1889-1951).

wittgenstein-1.gifTrata-se de um homem fundamental. Equivalente a um Freud, um Thomas Mann, uma Brigitte Bardot…

Wittgenstein – o dever do gênio, biografia escrita por Ray Monk é a prova dos nove do filósofo austríaco. Prova dos nove para um filósofo é ter posto em prática seus próprios preceitos filosóficos, éticos, morais. 

“Se alguém não estiver disposto a mergulhar em si próprio por ser doloroso demais, haverá de se manter superficial naquilo que escrever”, dizia ele. 

A biografia de Monk, repito, é a prova dos nove para este homem que atingiu no plano da filosofia o mesmo patamar de Piet Mondrian na Pintura.

Não há forma mais profunda de pintar; não há mais nada de fundamental sobre o pensar a partir daqui. 

É como se fosse assim. 

Wittgenstein é uma personificação do super-homem de Nietzsche conforme, sem expressar desta forma, constou Monk, um ex-aluno de Oxford, onde defendeu tese sobre sua filosofia da matemática. 

Concluída em 1990, a biografia foi publicada entre nós pela Companhia das Letras, em1995, quando a li. A propósito de escrever sobre o livro neste Trevo do Talvez, passei a vista sobre anotações que fiz no meu Diário no decorrer da leitura. 

“Melhorar a si mesmo, esta é a única coisa que se pode fazer para melhorar o mundo” – eis uma síntese de toda filosofia de Wittgenstein.A rigor, não existe diferença entre ele e Lao-Tsé: ambos sabiam que “a vida imita a arte”, conforme escreveu Oscar Wilde. 

Segue Wittgenstein: “Ele (o autor) não pode depurar a obra de impurezas mais do que ele próprio está isento delas”. 

A anotação que se segue expressa a profundidade do trabalho de Monk.Wittgenstein declara a Bertrand Russell admirar o seguinte provérbio bíblico: Pois o que aproveita um homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Mc. 8-36) 

Relato de Russell: “Ele então observou como são poucos os que não perdem a alma. Eu disse que dependia de se ter um propósito maior ao qual se manter fiel. Ele disse que dependia mais do sofrimento e da força para suportá-lo. Fiquei surpreso – não esperava esse tipo de coisa da parte dele”. As diferenças foram ficando mais claras e amplas, determinando a interrupção do intercâmbio entre estes dois cérebros excepcionais.  E a separação situa o leitor da biografia de Monk sobre o tipo de filosofia que interessava realmente a Wittgenstein. 

E se me perguntarem: Nessa biografia tem o espetacular? - Tem. Claro que tem. Tem o natural num homem fenomenal. Trata-se da história de um homem financeiramente riquíssimo que “valorizava incrivelmente a capacidade de sofrer”, conforme registra surpresa Chirstiane Chauviré num ensaio publicado entre nós pela Jorge Zahar Editor. 

Ensaio cativante sobre a obra filosófica deste ex-professor de filosofia em Cambridge que foi tão longe no estudo do conhecimento humano: “O matemático não é descobridor; e a matemática não é um corpo de fatos, mas uma construção da mente humana”. O complemento da lição: “Negar que ‘dois mais dois é igual a quatro’ não é discordar de uma opinião amplamente aceita sobre uma questão de fato; é revelar ignorância do significado dos termos envolvidos”. 

Lição do ex-professor de filosofia em Cambridge que dizia o seguinte desta função: “É uma espécie de morte em vida!” 

Opinião de um homem que efetivamente sabia do que estava falando; de um homem que aprendeu a morrer durante a Primeira Guerra Mundial lutando como soldado voluntário.